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Marcelo Wolf

O conhecimento é a matéria-prima da consciência. Esta sim é a chave que liberta!

Amor em dois atos: o que é, e como alcançá-lo

Uma das perguntas mais famosas da história da humanidade desdobra-se em três: “Quem sou? De onde vim? Para onde vou?”.


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Nos tempos correntes, talvez aquela que seja mais formulada, aos outros ou a si próprio, seja: o que fazer para viver um amor de verdade? As respostas são múltiplas, passando por “é coisa de destino”; “Precisa de empenho e esforço”; “seja uma pessoa interessante”; “é questão de pele e algo irracional, além do desejo e da vontade consciente”.

O Amor é o grande enigma proposto pela Esfinge moderna. E nós, seres humanos, ainda somos devorados, ou melhor, dilacerados pela frustração e infelicidade por não sabermos decifrar esse mistério.

Antes de se perguntar “o que fazer”, melhor seria tentar vislumbrar “o que é”. Pois só sabendo o que se quer poderemos pensar num meio de chegar até aquilo.

Primeiro ato – o que é?

É uma delícia quando rola química, pele, aquela coisa instintiva expressa em cheiro, saliva e prazer; mas isso apenas não é amor. É afinidade intelectual, trocar ideias, aprender com o outro, admiração, rir juntos, conversar, falar e ouvir... Mas isso tudo são mais atributos de uma grande amizade, que está contida no amor, mas não é ele. Uma emoção, que sem os aspectos anteriores, torna-se algo abstrato e sem contornos palpáveis.

O amor humano verdadeiro é um misto dos três aspectos acima. Metaforicamente, ele acontece quando sai do peito uma espécie de guindaste que puxa o instinto para cima, ao mesmo tempo em que um braço mecânico traz o intelecto ao tórax, unindo as três partes (baixo ventre, coração e cérebro) num todo único; quando faz de corpo, alma e espírito um instrumento sintético por onde sopra o hálito da plenitude, fazendo de nós um ser completo, satisfeito e feliz.

Linda teoria, mas... e na prática? Em geral derrapamos e trombamos entre esses três pontos, ora vivendo apenas um, ora combinando dois, e com muita sorte, empenho, jogo de cintura e merecimento, os três.

Claro que em cada fase da vida um destes aspectos é o preponderante: um jovem pensa e sente movido eminentemente pelo baixo ventre; um idoso vive guiado por sua mente e experiências, fazendo visitas mais esporádicas ao “andar de baixo”; um adulto tenta equilibrar os três vetores da melhor forma que seja possível.

Da melhor forma que seja possível, pois a vida e a bagagem pessoal de cada um vão lançando "obstáculos" a serem superados neste caminhar, exigindo o treino da sabedoria, da paciência, do perdão, da resignação, da boa vontade, da vontade boa de continuar a se esforçar para ser feliz.

Segundo ato – como alcançá-lo

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E o que fazer para vivê-lo? Um dos maiores fetiches da humanidade chama-se “regras”! Adoramos ter fórmulas certeiras pra tudo. Pois, no fundo, elas nos dão a ilusão de que nos levarão aonde queremos e evitarão dissabores indesejáveis. Sendo assim, existe uma receita para satisfazer não só Leo Jaime e Kid Abelha, quando cantam “ainda encontro a fórmula do amor”, mas a todos nós?

Se você quer viver um grande amor, vá viajar, pois isso abre seus horizontes e te mostra que o mundo é diverso, rico e você aprende muito com as diferenças. Vá aprender ponto-cruz, aramaico antigo, jogar futebol de várzea com os amigos, manejar espada dos samurais do século XVII, ler gibis ou qualquer budega que te dê prazer e que esse conhecimento não se reverta em dinheiro ou capitalize sua vida. Porque o prazer por puro prazer te deixa leve, bonito, feliz.

Vá fazer trabalho voluntário num hospital, orfanato, asilo, presídio, num lugar bem desfavorecido, pois aprenderá a ter compaixão pelos outros, emocionar-se com o sofrimento alheio e agradecer pelo “pouco” (?) que tem. Leia bastante, não apenas aquela leitura fácil e prazerosa, mas também algo que exija certo esforço de entendimento, pois isso desenvolverá seu raciocínio, aumentará seu vocabulário e o fará pensar diferente, abstratamente.

Aprenda a tocar um instrumento musical, pois a música te conecta por caminhos invisíveis a dimensões maiores e te trará um ganho que você sentirá, mas não conseguirá medir ou explicar racionalmente. Tente fazer aquelas coisas chatas e que estão fora de moda, como não revidar a uma pessoa grosseira, pedir perdão, sacrificar-se pelos outros, estar nos bastidores e longe dos holofotes. Pois isso relativiza seu ego e cria espaço para que o outro também brilhe em sua vida.

Faça musculação, corra, empenhe-se em fazer seu trabalho da melhor forma possível, limpe sua casa, seu jardim, faça esforços de toda natureza. Não quando você está bem e feliz, mas em dias chuvosos, numa segunda de manhã, naqueles momentos em que você se depara com as encrencas e os enroscos da vida. Pois isso te exercita a perseverar, a lutar pelo que queres, a batalhar e se esforçar. Reze, medite, pense em Deus, Allah, numa Força Superior, na Justiça Universal ou em qualquer coisa que pode ser denominada como “Transcendental”. Pois isso deixa seu aura luminoso e mostra que o universo e a vida são muito maiores e mais amplos do que nossa consciência abarca, fazendo-nos aceitar nossa pequenez.

Faça tudo isso, ou algumas dessas coisas, ou outras ainda. Pois a grande verdade é que o amor só brota em solo fértil, só nasce em almas preparadas para ele, cuja frequência vibratória esteja em sua sintonia. Ele está além da vontade das pessoas; é indiferente a desejos mesquinhos e egoístas, nem faz a função de prótese para buracos em nossas almas. Ele começa a flertar com os que se esforçam, trabalham para isso e se tornam pessoas aptas a responder a questão da Esfinge da vida.

O amor é a suprema Iniciação da existência, o caminho mais difícil, cheio de curvas, de cantos de sereia, pedras, flores, paragens e distrações que servem apenas para ensinar a seus viajantes o seu objetivo: como ser feliz e ter prazer, como fazer os outros felizes, e como te conectar com algo além de si mesmo, que lhe soprará no ouvido o sentido da vida.


Marcelo Wolf

O conhecimento é a matéria-prima da consciência. Esta sim é a chave que liberta!.
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