de um fragmento ao outro

olhando pelas brechas do sentido

Maíra Moraes

Humanista, deleuziana, por vezes niilista, vivendo no lugar mais profundo: a superfície.

Nós, os aborígenes das redes sociais virtuais

No início do século passado, Malinowski, considerado um dos fundadores da antropologia, descreveu o sistema social de civilizações arcaicas e encontrou um sistema baseado na obrigação de dar, receber e retribuir.
Assim continuam as redes sociais virtuais, um espaço onde se estabelecem trocas e alianças, a partir da dinâmica entre dar, receber e retribuir, principalmente informações, considerado um capital circulante na sociedade contemporânea.


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Ao ler “Os Argonautas do Pacífico Ocidental”, relato de Malinowski – considerado um dos fundadores da antropologia – , sobre o comportamento das sociedades arcaicas nas ilhas australianas de Mailu e Trobriand por volta dos anos 1915 e 1918, defendi a tese que os usuários do Facebook se comportam de maneira tribal similar à encontrada na região e descrita no livro.

Minha tese foi construída com base nas teorias de Marcel Mauss, que via os sistemas de trocas identificados nas civilizações arcaicas estudadas Malinowski ainda presentes nas sociedades civilizadas* contemporâneas a ele, como a França dos anos 1920. Reforcei meu argumento com a discussão atualizada de Alain Caillé, um reconhecido sociólogo contemporâneo.

A ideia central desses pensadores é a de que a construção de laços sociais – presenciais e virtuais – baseia-se em um sistema de troca, uma tríplice obrigação de dar, receber e retribuir. Esta tríade é o fio condutor da vida social e estes gestos que achamos que são livres e espontâneos, são de fato, rigorosamente obrigatórios para que essas alianças sejam renovadas e mantidas no nosso cotidiano, incluindo nosso comportamento nas redes sociais virtuais.

Isto é, mesmo sem perceber, seguimos e reagimos à regras estruturadas para manutenção de nossa vida social e existência dos nossos círculos de convivência: família, trabalho, igreja, academia e por aí vai.

Vale para o mundo real, vale para o mundo virtual: somos uma civilização online. Os últimos levantamentos mostram que para uma população mundial total de 7,2 bilhões de pessoas, a densidade da internet está em 42% e chega a 3 bilhões de habitantes. Considerando essas pessoas, mais de 2 bilhões têm perfis em redes sociais e serviços de mensagens, 3,6 bilhões são usuários exclusivos de celulares e 1,6 bilhão acessas as redes sociais por meio móvel.

Segundo o artigo As tendências de web, mobile e social em 2015, as redes sociais continuam a crescer em todo o mundo e os usuários ativos já contabilizam 29% de toda a população mundial, que chega a estar conectada 2h25 por dia. Com relação à plataforma de redes sociais, o Facebook continua o seu domínio global com cerca de 1,366 bilhão de usuários ativos no início deste ano.

E todas essas mudanças sociais, perneadas pela parafernália tecnológica não nos faz tão diferentes quanto os aborígenes descritos por Malinowski. As redes sociais são um fenômeno do ciberespaço. São novas mídias e novas formas de expressão e comunicação dos indivíduos e grupos. Isto é um espaço onde se estabelecem trocas e alianças, a partir da dinâmica entre dar, receber e retribuir, principalmente informações, considerado um capital circulante na sociedade contemporânea.

Os aborígenes

Hau e kula são alguns sistemas de trocas (regras) descritos nos estudos de Malinowski presentes nas civilizações arcaicas das ilhas.

Destacando os principais pontos, no hau, sistema de troca dos Maori da Polinésia, há o entendimento que nada que nada pode permanecer muito tempo na posse de um indivíduo, tudo pode ser trocado e deve-se manter constância e fluidez. No kula busca-se conquistar e demonstrar prestígio e autoridade, adquirindo-se valor de acordo com as posições sociais e origens geográficas de seus portadores. A vida social é perneada pelas ações de dar e tomar, sendo que, por meio do kula novos vínculos e alianças são criados.

Assim como nas regras vividas pelos aborígenes, postar, compartilhar, curtir e comentar é o sistema de trocas das redes sociais virtuais que utilizamos, como o Facebook, que aqui tomo como por exemplo. Mas o que trocamos? Quais os bens envolvidos nessas transações?

Palavras e imagens.

Certa vez, Godbout afirmou que “as trocas de palavras consistem em um dos dons rituais de pequenos presentes verbais anódinos e perfeitamente padronizados”. Sabe aquele “bom dia” no elevador? É ele. Em uma pesquisa realizada com usuários do Facebook 82% das pessoas que identificam-se “muito” e “extremamente” com a afirmação “Eu me sinto satisfeito quando vejo que algumas pessoas que admiro curtiram uma postagem minha”. Na mesma pesquisa, 0%, nenhum usuário, nunca utilizou o comentário em postagem de amigo, isto é, todos compartilham e fazer circular alguma forma de simpatia na rede, um “oi”, um emoji que seja.

Prestígio e autoridade são os fatores que impulsionam uma troca no sistema kula. Da mesma forma, são sentimentos que impulsionam um “o que você está pensando” na rede em busca de curtidas, compartilhamentos ou comentários.

Ritual que envolve a maioria dos usuários da rede: 64,4% acreditam “que a quantidade de curtidas que tenho reflete o valor que minha opinião tem na rede”. Junto a isso, 59,6% afirma “muito” e “extremamente” que “sempre que alguém publica no meu mural eu me manifesto na postagem, mesmo que apenas com um curtir ou emojis”, seguindo a tríplice obrigação de dar, receber e retribuir. Assim como em sistemas de trocas arcaicos, nas redes sociais virtuais, os bens – palavras, opiniões, imagens – que circulam não apresentam importância por si só: o que estabelece valor é o seu significado simbólico e seu potencial de criar, manter e recriar vínculos sociais.

Os algorítimos

Na pesquisa, não considerei os famigerados algorítimos do Facebook, cada vez mais são discutidos, que influenciam o conteúdo que cada usuário visualiza em sua timeline. Justifico esta escolha ainda sob a analaogia dos sistemas de troca arcaicos. Quando Malinowski buscou relatos dos indivíduos sobre a existência do sistema de troca, “eles apenas falam da sua própria experiência quando perguntados sobre o kula, mas não tem idéia sociológica da instituição”.

Assim somos nós, usuários das redes sociais. Não criamos a Matrix. Quando questionados somos levados a descrever nossa experiência, não a instituição por trás dela. * Não uso os termos “arcaico”, “moderno”, “desenvolvido”, “civilizado” e outros, com uma conotação evolucionista. Sirvo de uma diferenciação histórica/temporal.



Maíra Moraes

Humanista, deleuziana, por vezes niilista, vivendo no lugar mais profundo: a superfície..
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