decifragmentação

(empresta-se espírito para experiência extra)

Katiuce Lopes Justino

Empresta-se espírito para experiência extra

Então, vamos falar sobre LEITURA. Afinal, quem gosta de ler encontra o quê quando lê? Minha resposta é: encontra um espírito emprestado... para usar à vontade, e devolver rasurado. E o que pode haver de melhor do que a própria possibilidade de transferir-se gratuitamente, trocar o CEP da alma, sem telefonemas no dia seguinte?
Ler é estar sendo um outro sensível, pensante, pulsante, verdadeiro e especial.


Escrevo este texto enquanto espero a reposta do editor. Pus meu espírito nos classificados e pretendo emprestá-lo a interessados. Um certo frenesi fonético me toma. Prefiro os títulos esdrúxulos e as palavras vibrantes, por isso talvez eu nunca tenha dado certo como escritora. Escrevo temerariamente. Mas dei certo como leitora e é exatamente isso que decidi abordar: uma vingança com requintes de Freudidade. Projeção, transferência, totens, tabus e muita libido. Então, vamos falar sobre LEITURA. Afinal, quem gosta de ler encontra o quê quando lê? Minha resposta é: encontra um espírito emprestado... para usar à vontade, e devolver rasurado. E o que pode haver de melhor do que a própria possibilidade de transferir-se gratuitamente, trocar o CEP da alma, sem telefonemas no dia seguinte? Ler é estar sendo um outro sensível, pensante, pulsante, verdadeiro e especial. Quando leio um herói fracassado, descasco o âmago dos meus fracassos a ponto de ver vantagens nele – sim – no mínimo essa minha honestidade de admitir e enquadrar na cena todo esse meu fracasso, o que me faz evoluir de “fracassado” para “fracassado corajoso”. Ler amolece a gente, no bom sentido. Os quadrúpedes andam por aí cheios de certeza há séculos, endurecidos por uma confiança rústica de que as coisas obedecem a uma lógica, que é sempre a deles. Já os grandes leitores partilharam de dúvidas espetaculares, grandiosas, profundas. Os dilemas morais, os amores profanos, as trajetórias sem nexo, o jogo de amarelinha... Humanizam-se mais e mais. Ler faz bem pro corpo, porque ler é sentir na pele. E nossa pele ultimamente só quer ser salva, nunca exposta, arrancada, pendurada, curtida no curtume. Mas e o espírito? Que fazer dele? Gastá-lo em praças de alimentação climatizadas ou em banquetes com Proust? Em passeios com guias turísticos de plástico ou no século XIX com Machado de Assis? Passar as Horas cm amigas em lojas de sapato ou com Virgínia Woolf? Discutir no facebook ou com Clarice Lispector a paixão segundo fulano de tal? Não é escolha, é definitivamente um privilégio ainda por ser descoberto. E não quero com isso desmerecer a Vida Real, quero apenas colocá-la em seu devido lugar: lugar de classe D em relação ao que pode a experiência artística, essa sim, que dá enfim ao homem a possibilidade de ser superior a sua própria existência.

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