decifrando

Bem-vinda, literatura

Francine S. C. Camargo

Escritora desde os primórdios, médica há 11 anos, começou a experimentar a exposição de seu abecedário há cerca de um ano, com a obra "Mãos Livres" e, mais recentemente, do conto em eBook "Vim perguntar o que faço de mim. É autora do blog Papo de Fran.

Chega de fadas

O encontro de duas almas, impossível de se realizar, no conto Tentação, de Clarice Lispector, vira mote para um diálogo inusitado entre pai e filho. Porque contos de fadas nem sempre nos bastam.


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– (...) e, assim, eles viveram felizes para sempre!

Silêncio. Hora de dormir.

– Boa noite, meu filho.

Ele me lançou um olhar comovido e decepcionado. É uma criança. Provavelmente deseja viver uma vida inteira numa única noite. Quer ter o cavaleiro, o herói, o ídolo ao seu lado, sempre disposto a contar-lhe as trajetórias mais emocionantes das diversas personagens que habitam minha tão calorosa mente e vivida memória. Amanhã, querido. Amanhã. Porque estou cansado, esses contos de fada me desgastam demais, e maçãs e sonos eternos se misturam na minha cabeça e só há drama e mais drama...mas eu só sei agradá-lo nesses nossos raros encontros.

– Pai!

– Sim, querido.

Eu sabia. O pior é que não sei dizer não.

– Pai, olha, eu juro que não queria ser muito inconveniente, uma vez que você se esforçou tanto para tentar me fazer dormir. É que, enquanto você se perdia nessas bobagens de Chapeuzinho Vermelho e tal...aliás, só abrindo um parêntesis, pai, você sequer citou a questão da sexualidade na história toda, uma menina que sai em busca dos perigos da floresta depois de tantos avisos da mãe! Ora, papai, isso poderia dar horas e horas de uma narrativa bem mais ardente do que esse emaranhado de situações convencionais que você acabou por descrever.

– ?!?!

– Mas, enfim...enquanto você contava essa...essa historiazinha, eu pensei em sugerir um outro texto e eu gostaria muito que você o lesse para mim.

E me ofereceu o livro, com um ar tranquilo, a mesma expressão que tinha quando, há pouco atrás, havia se abandonado à idéia de ouvir-me as historiazinhas!

– Tome, leia o texto marcado, por favor.

“Felicidade clandestina”. Eu já me atrapalhei com o título do livro. Será que ele quer que eu alterne a prosa do conto com as fantasias que permeiam a minha tão desgarrada mente?

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– Tentação?

– Sim, sim, esse mesmo. Estou esperando.

Que garoto! A essa hora da noite, inventa uma brincadeira dessa. Só pra me ter por perto.

– “Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva”. Ha ha ha. Que diabos! O que tem a ver uma coisa com a outra?

– Prossiga, papai, sem interrupções, por favor. Mais tarde, você perceberá que a presença do ruivo é essência, é sangue. É o nascimento, ou o eterno renascimento de que é composto nossas vidas a cada nascer do sol, a cada epifania. Porque acho que morremos e renascemos todos os dias e, talvez, várias vezes ao dia. E o exercício de ser é ruivo, é sangue, é vida. Aliás, papai, “não há como não sangrar, pois é no sangue que sinto a primavera”, diria a autora em outro texto. Mas, desculpe interrompê-lo. Continue.

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Não entendi. Falávamos de um lobo tão inofensivo e agora ele não parava de falar em sangue. Permaneci na brincadeira. Seus olhos efusivos mal conseguiam se calar.

– “(...) e como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão”

– Perceba como a garota é incompreendida em sua natureza mais profunda e nos traduz essa incompreensão e essa sua necessidade de proteção através dos soluços, como quem põe para fora seus mistérios mais profundos, como quem não consegue contê-los...ou na bolsa, que seria seu apoio, sua muleta, que a faz esquecer de sua condição de menina comum, que a mascara, que disfarça sua solidão, que deixa seus braços (ou seria seu corpo, sua alma?) menos livres no ar, que impede que suas mãos fiquem desajeitadas abanando.

E foi assim que se seguiu o bombardeio. Retomei a leitura, boquiaberto, embasbacado e já com o corpo meio inerte, os lábios dormentes e a cabeça racionalizando bem pouco essa situação pra lá de excêntrica. E ao longo de toda a investida na leitura, seguia-se um comentário que não compreendi com minha humilde mente.

– “Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, supreendidos”.

– Entendeu, papai? Trata-se de um encontro de almas, impossível de se realizar, aprisionado pelas formas concretas das almas, por seus estigmas. O cão tem dono, não arrisca a sorte, mantém-se cômodo, sem romper com sua rotina de cão.

– “Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez a gravidade com que se pediam”

– É, eles se cruzam fortuitamente, somente para tomar consciência um da existência do outro, que bonito.

Sim, bonito. Olhei para os lados, procurando pelo meu pequeno ser, que antes julgava ser eu o conhecedor do universo, a sua melhor companhia e o grande contador de histórias de que ele precisava. E agora um livro era a companhia que lhe faltava. Ele havia crescido e eu me sentia diminuto.

– Já chega, papai. Deixemos um pouco pra amanhã, estou cansado. Obrigado, foi a melhor história que você já me contou e seus comentários foram imprescindíveis.

– Eu...é...quero dizer...

– Boa noite, papai. Te amo e você é meu herói.

Depois de abraços, beijos e juramentos inconscientes de amor, ele parecia novamente o meu garoto. Fechei-me no meu quarto e não tardei a dormir, mas sonhei a noite toda com um lobo vermelho vestido com traje de banho e perseguindo uma menina ruiva, com uma bolsinha na mão.


Francine S. C. Camargo

Escritora desde os primórdios, médica há 11 anos, começou a experimentar a exposição de seu abecedário há cerca de um ano, com a obra "Mãos Livres" e, mais recentemente, do conto em eBook "Vim perguntar o que faço de mim. É autora do blog Papo de Fran..
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