decifrando

Bem-vinda, literatura

Francine S. C. Camargo

Escritora desde os primórdios, médica há 11 anos, começou a experimentar a exposição de seu abecedário há cerca de um ano, com a obra "Mãos Livres" e, mais recentemente, do conto em eBook "Vim perguntar o que faço de mim. É autora do blog Papo de Fran.

Escrever pode ser fácil

Escritor é aquele que mais tem dificuldade em escrever, já dizia Thomas Mann. Apesar do muito que já foi dito sobre o processo de escrever, Mario Vargas Llosa, em sua obra Cartas a um jovem romancista chega para desmistificar a arte e trazer serenidade e segurança a quem almeja também ser um dia chamado escritor.


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Escrever é um empreendimento de paciência, equilíbrio e bravura. O que nos sai da caneta ou dos dedos ao teclado (ou à máquina, há quem ainda use) não é tema que surja do nada e sim, palavrinha, frase ou história recôndita, esperando sua hora de fluir e se infiltrar no mundo externo. E somos nós que permitimos que a escrita se realize.

Cada autor entende a arte à sua intelectualidade, mas a luz que as palavras trazem para suas vidas é universal e é frequente estipular-se um pacto com a literatura, tamanha a cumplicidade envolvida. Para Pessoa, inclusive, a literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. Mário de Andrade chamava a apresentação da escrita de grito do inconsciente, sendo necessário escrever primeiro, pensar depois. Importante mesmo é fazê-lo sem indiferença, de acordo com Simone de Beauvoir. O que se escreve, em forma e estilo é pessoal e não impõe regras, desde que se escreva claro, não necessariamente certo, segundo Luis Fernando Veríssimo.

“Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira.” (Carlos Drummond de Andrade)

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A dificuldade existe não só para os iniciantes, mas também para os iniciados. Fernando Sabino relatou, certa vez, quão penoso é o ato de escrever e como prescinde de reescrever e corrigir várias vezes o mesmo texto, chegando ao ponto de aproveitar pouco mais de 300 páginas para um romance em que foram datilografadas 1.100 delas.

Mas, assim como Clarice, que dedicou sua vida a buscar as respostas às suas perguntas através da profissão de escritora, não se pode desistir de explorar uma boa história a ser contada. Para quem se empenha, à procura do próprio gênero, como num manual de como se escrever bem, o grande escritor, ensaísta, jornalista e político peruano Mario Vargas Llosa vem trazer um pouco de paz, com a leve, porém rica obra Cartas a um jovem escritor.

Com a sofisticada técnica narrativa do autor, o sucesso e alcance de seus livros, é possível finalizar cada capítulo com um “amém”, pois o que ele fala é lei. Ele parte da dúvida de como cristalizar em obra a vocação de escrever, direcionando ao público que aspira a sair do amadorismo. Como escrever algo que encante o leitor, da mesma forma como fomos encantados, por exemplo, pelos escritores citados nesse texto?

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Primeiro de tudo, é urgente rechaçar a timidez e o pessimismo, sem, no entanto, achar que o reconhecimento público, prêmios, prestígio social e muitos livros vendidos começarão a fazer parte da sua rotina proporcionalmente ao empenho incutido, às horas gastas, ao tempo dedicado. Isso tudo pode surgir arbitrariamente, sem regra de “se isso, aquilo”. Para Llosa, o escritor sente que escrever é a melhor maneira de viver, independente das consequências políticas, sociais e econômicas. E como tornar-se um escritor?

“O escritor não é algum eleito, dotado de dons místicos, nem forças sobre-humanas, nem imortal em corpo.”

Torna-se escritor aquele que exercita, com disciplina e perseverança (e até com uma dose de escravidão). E, com base nisso, aquele que tem predisposição a fantasiar pessoas, situações, anedotas do mundo em que se vive (ou em que se poderia viver, num território secreto da mente).

“A ficção é uma mentira que encobre uma profunda verdade.”

De onde surgem as histórias?

Llosa diz que todas as histórias alimentam-se da vida de seu escritor. Claro que isso não significa que tudo é uma “biografia dissimulada de seu autor”. Mas, de fato, em uma obra há algo visceralmente ligado às vivências de um escritor.

Como criar um bom texto?

Tudo depende de uma comunhão de fatores. Muitas vezes, nem o tema incomoda, mas sim, a estrutura da narrativa. E nisso estão envolvidos o poder de persuasão do autor (ah, Llosa é mestre nisso), a coerência interna, os detalhes, onde colocar os silêncios, em que ponto estabelecer as revelações. É função do escritor convencer o leitor de que aquilo que foi contado é exatamente o mundo que ele pode digerir.

Ao longo das cartas, Llosa desfia ainda os tipos de narrador, personagens tempo, espaço e o nível de realidade, salientando que o triunfo reside no fato da eficácia na construção da história, “dotando-a de cor, drama, beleza, sutileza e sugestão”.

Mas a recomendação mais importante, que é o ponto central desse livro, é básica, velha conhecida e despida de sigilo: LEIA MUITÍSSIMO. A leitura é o estímulo mais valioso, pois todos os grandes romancistas foram aprendizes.

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“É impossível ter uma linguagem rica, desenvolta, sem ler literatura boa e de forma abundante.”

Leia em voz alta. Busque e encontre seu estilo. Oriente a vida em função desse projeto. São essas algumas das premissas do autor dos brilhantes Travessuras da menina má, O herói discreto, Elogio da madrasta e do mais recente Cinco Esquinas, entre outros.

Ou sigamos com Pablo Neruda, que simplificou e desmistificou a escrita, com seu quê de ironia:

“Escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio, você coloca as ideias”.

E mãos à obra.


Francine S. C. Camargo

Escritora desde os primórdios, médica há 11 anos, começou a experimentar a exposição de seu abecedário há cerca de um ano, com a obra "Mãos Livres" e, mais recentemente, do conto em eBook "Vim perguntar o que faço de mim. É autora do blog Papo de Fran..
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