decifrando

Bem-vinda, literatura

Francine S. C. Camargo

Escritora desde os primórdios, médica há 11 anos, começou a experimentar a exposição de seu abecedário há cerca de um ano, com a obra "Mãos Livres" e, mais recentemente, do conto em eBook "Vim perguntar o que faço de mim. É autora do blog Papo de Fran.

Todos temos aquele amigo

Procure em sua lista, sua alma. É bem provável que você tenha um amigo como esses: que alimente seus dias, que lhe seja cais e restauração ou que fique ali à deriva, a cuidar sem palavras.


“A amizade é uma alma com dois corpos” (Aristóteles)

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Amigo faz moradia dentro da gente, cava e cava buraco até se infiltrar de vez e depois perde a chave, faz pompa na vizinhança e se serve de todas as nossas reservas de carinho e, curiosamente, para ele, esses estoques parecem nunca se acabar.

Amigo sabe tocar na gente, literalmente falando: pega na mão, dá abraço de quebrar as costelas, puxa pelo ombro, acotovela-se todo para sair na foto e dá aquele tapinha de leve no braço, raras vezes deixa hematomas, te chamando de tolo por alguma bobagem dita.

De amigo exige-se atenção, ninguém quer migalha, farelinho, último gole. Tem que dedicar tempo longo, pois esse transita ligeiro, tem que ver álbum de foto antigo, tem que saber ouvir e trazê-lo de volta ao assunto principal quando ele se perde em digressões, ramificando o pensamento, tem que ouvir o cd favorito e os agudos mais eloquentes.

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Com amigo a gente divide feitos e emoções que não teriam significado algum se realizados sozinho. Como cantar abraçadinho a música do ídolo, gritar feito tresloucado em show, assistir a 532 episódios da série preferida no mesmo dia, testar com ele a receita maravilhosa que acabou de descobrir e...não deu certo (e ainda assim ele vai provar e dizer que gostou ou vai cuspir tudo, porque amizade é amizade, mas estômago tem limite!).

Amigo dá muito sintoma no corpo: dor de barriga de tanto rir, choro compulsivo ou lágrima modesta (por qualquer motivo), sono arrasador durante o dia por passar a madrugada conversando, dor na cabeça de tanto pensar numa solução para o incômodo do outro. E quando manda aquela clássica mensagem “preciso falar com você urgente”? Dá tremedeira, taquicardia, a gente se pergunta imediatamente “o que foi que eu fiz?” ou “será que terei que ajudar a ocultar um cadáver?”. Porque em amizade tudo vira emergência, amigo perde a noção do amanhã, semana que vem, tudo é para ontem.

Por amigo, faz-se sacrifícios sem reclamar muito: andar com ele no carro, com carteira de motorista recém conquistada, viajar léguas para encontrá-lo, rir de suas piadas e até gostar de seus amigos, embora o ciúme corroa a gente por dentro.

De amigo, a gente tem saudade o tempo inteiro, mesmo quando a despedida ocorreu ainda agorinha, porque nunca é suficiente e porque sempre há algo que ficou por falar, um sorriso que não conseguiu rasgar o rosto inteiramente, uma bronca mal dada, um conselho que ele não requisitou, mas está na ponta da língua.

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Amigo diagnostica dor escondida, só por um oi atravessado ou um olhar oblíquo e não sossega enquanto não compreender a origem. Entretanto, apesar do silêncio machucá-lo, ele o acata até segunda ordem, espera sua vez, melhor hora, velando a mágoa à distância, se preciso for. Porque em amizade não há separação, só o espaço que se deixa arbitrariamente, mesmo a contragosto, quando raios surgem no céu em demasia.

Amigo faz a gente feliz estando feliz e não é preciso postar na rede social, pois ele sempre saberá disso. E é fatal pensar nele nos instantes de glória. Porque amigo é isso, alma separada do corpo, amor edificado, imprescindível, necessidade mais necessária possível, se o pleonasmo couber. E segue com a gente, pra qualquer lugar, atento e guiando, feito estrela na escuridão.


Francine S. C. Camargo

Escritora desde os primórdios, médica há 11 anos, começou a experimentar a exposição de seu abecedário há cerca de um ano, com a obra "Mãos Livres" e, mais recentemente, do conto em eBook "Vim perguntar o que faço de mim. É autora do blog Papo de Fran..
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