decifrando

Bem-vinda, literatura

Francine S. C. Camargo

Escritora desde os primórdios, médica há 11 anos, começou a experimentar a exposição de seu abecedário há cerca de um ano, com a obra "Mãos Livres" e, mais recentemente, do conto em eBook "Vim perguntar o que faço de mim. É autora do blog Papo de Fran.

O livro dos prazeres

Das observações sobre o livro "Um aprendizagem ou o livro dos prazeres", escritas após uma releitura vinte anos depois do primeiro contato com a obra de Clarice Lispector.


dadaepo-beach-2826172_960_720.jpg

“Esse livro me pediu uma liberdade maior que tive medo de dar. Ele está muito acima de mim. Humildemente tentei escrevê-lo. Eu sou mais forte do que eu.”

Terminei esse livro hoje, embora tenha fugido dele ao máximo que pude. Ele contém duas partes, a primeira “A origem da Primavera ou a morte necessária em pleno dia”, tornando inevitável pensar na possibilidade de escolhas, o direito de dar nomes diferentes ao mesmo conteúdo. Essa parte ilustra a ausência do “eu”, que passa a surgir na segunda, intitulada “Luminescência”. A primavera tenta surgir, de qualquer forma, em todo o livro, apesar de ser preterida em alguns momentos. Morte e vida estão em contradição, para se unirem em seguida até se confundirem; é o velho conceito de “viver é morrer” ou o contrário, e que “cada minuto a mais é um minuto a menos”. É na primavera, inclusive, que ocorre o rito de morte, Halloween, ritual de escuridão e trevas, a morte necessária.

A liberdade maior que se pode dar a si mesmo é inconstante e a sua força é uma questão de ponto de vista. Há 17 anos, vinha com explosão essa sede de ser livre, o desejo da transformação. Hoje é natural, calmo e sereno, como portas que se abrem com extremo cuidado para manter o silêncio como companheiro.

O ponto alto e já de partida do livro é o seu começo, e não menos importante é o seu final, com a ênfase nos sinais de pontuação. A história simplesmente começa com uma vírgula e termina com dois pontos. Clarice abre uma janela para que o leitor acompanhe a trajetória de Lóri rumo a uma iniciação para a vida, num exercício complicado de ser. O romance continua, não começa e nem termina.

Além de Lóri, Ulisses, professor de filosofia, também busca a vida, o amor e o prazer pleno e verdadeiro através e junto de Lóri, a mulher certa para ele, que diz coisas óbvias de uma forma verdadeiramente extraordinária e autora da frase de que ele jamais se esqueceria:

“Um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus minha individualidade como pessoa mas seremos um só.”

241004.jpg

O discurso amoroso traz o enfoque abertamente feminino. Lóri busca a reestruturação, livrando-se de culpas e se entrega ao mundo a partir da compreensão do sentido oculto de pequenas coisas para, por fim, poder concretizar também a entrega física. Assim, é possível adentrar os muros construídos, em vez de olhá-los pelo lado de fora e é necessário, sobretudo, entregar-se a si mesmo, sem temer o que virá a seguir.

“...supôs que ele queria ensinar-lhe a viver sem dor apenas.”

(o que era afirmação inimaginável para uma garota de 20 anos que cultivava dores e solidão)

Clarice começa o romance com uma vírgula e eu faço ao meu modo colocando reticências. A dor caminha junto à alegria e como Lóri imaginou, se tirasse, se arrancasse toda a sua dor, o que restaria? Porque mesmo com o prazer se vive o sofrimento da vida.

“Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer.”

O grito de Lóri por ajuda não era audível e Ulisses tenta ajudá-la também com o seu silêncio. O silêncio é cultuado, sem simbolismos, porém. É algo que surge na madrugada, o segredo da noite, condenando ou instaurando os pensamentos mais íntimos. Não se foge dele, por mais que se grite por dentro, por mais que se deixe os objetos ao criado-mudo caírem para espantá-lo, por mais que se resgatem músicas da memória ou se tente evitar as transgressões mentais. O que resta é deixar que o silêncio invada, acalente e deleite. Quem ouviu o silêncio, não diz.

Viver apesar de: é o apesar que nos impulsiona.

“Há uma maçonaria do silêncio que consiste em não falar dele e adorá-lo sem palavras.”

blur-2178678_960_720.jpg

“De algum modo já aprendera que cada dia nunca era comum, era sempre extraordinário. E que a ela cabia sofrer o dia ou ter prazer nele. Ele queria o prazer do extraordinário que era tão simples de encontrar nas coisas comuns.”

A partir do momento que cada dia é encarado como uma nova aprendizagem, como o prazer de uma risada alheia, uma declaração suficiente em si mesma, uma conversa sem assuntos, uma noite cheia de estrelas ao redor de uma lua quase cheia, não será mais preciso lamentar os dias perdidos.

“Faz de conta que ela era sábia bastante para desfazer os nós de marinheiro que lhe atavam os pulsos.” Será que eu perceberia quantas vezes ainda esses nós me atariam os pulsos, por mais que eu promulgasse que cada libertação seria para sempre? “Faz de conta que ela não estava chorando por dentro...”

Lóri adentrou o íntimo de si e conseguiu sair. E enfim chegou o momento de chorar para fora. De olhar para fora e sofrer de amor e de vida.


Francine S. C. Camargo

Escritora desde os primórdios, médica há 11 anos, começou a experimentar a exposição de seu abecedário há cerca de um ano, com a obra "Mãos Livres" e, mais recentemente, do conto em eBook "Vim perguntar o que faço de mim. É autora do blog Papo de Fran..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// //Francine S. C. Camargo