decifrando

Bem-vinda, literatura

Francine S. C. Camargo

Escritora desde os primórdios, médica há 11 anos, começou a experimentar a exposição de seu abecedário há cerca de um ano, com a obra "Mãos Livres" e, mais recentemente, do conto em eBook "Vim perguntar o que faço de mim. É autora do blog Papo de Fran.

Uma dose de empatia, por favor

“Você nunca entende alguém de verdade até considerar as coisas pelo ponto de vista dela.”
(O Sol é Para Todos - Harper Lee)


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Há fundamentos variados para se sentir triste e formas grosseiramente distintas de expressar essa emoção. E não é o motivo da tristeza que a valida, que traz sublimidade a ela, gerando maior valor. Não é preciso se sentir desolado por grandes tragédias, nem por questões universais; os pequenos dramas têm seu direito em raspar a consciência e provocar feridas. Não é imperioso sentir a tristeza que todos estiverem compartilhando em dado momento ou ainda sentir-se mal quando é dessa maneira que todos esperam que você se posicione.

Independente da justificativa, a dor de alguém provoca impacto nas pessoas que estão a sua volta, para quem se tem importância. Isso se chama empatia.

Se você é importante para alguém, tanto faz se está infeliz porque adoeceu ou porque perdeu um compromisso devido ao trânsito intenso na cidade maluca em que vive, ou porque a menstruação não desceu nesse mês, ou porque desceu, sinto muito, ou ainda porque o dólar subiu ou então apareceu uma espinha no rosto bem no dia da formatura. Por qualquer uma dessas circunstâncias, aquele alguém estará lá, provando que é possível superar as distorções, ou para mostrar em graus variados de delicadeza, que são eles obstáculos fáceis de transpassar e que, ao fim, você é bem maior do que todas as intempéries juntas. Ou esse alguém estará lá só para ficar junto, acolhendo sua tristeza como se a ele pertencesse um pouco.

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Outro ponto são as formas de expressão: não necessariamente uma grande aflição implica no comportamento de subir ao palco e chorar efusivamente, ou escrever textos pessimistas nas mídias sociais, ou de pronunciar em som alto e bastante compreensível, sequer deixando dúvidas: NÃO ESTOU BEM! Às vezes, essa leitura soa um tanto estrangeira, codificada, ou se dita em linguagem corriqueira, coloquial, pode tentar demonstrar o exato contrário “Está tudo bem”. Olhares, gestos, entrelinhas, entretanto, não mentem e é crível pegar no pulo alguém de quem se goste muito ao fazer uma leitura certeira de pequenos detalhes, quando a boca calar.

Cumplicidade, empatia, compreensão da alma, respeito...não se trata de pegar para si as angústias do outro, e sim, tentar olhar com os olhos dele, atuar em outra peça que não a sua, em improviso. Tudo isso é mais encantador ainda se houver reciprocidade, se for possível trocar os óculos um com o outro com frequência, a fim de fazer essa leitura cuidadosa, não porque é esperado ser também olhado em troca, mas por ser a empatia mútua parte da rotina de bons amigos.

Nem sempre será possível curar as dores que aprisionam, mas quando alguém se dispõe a entender, andar paralelo e eventualmente dividir o peso, ajudando a carregar a dor por um trecho desse caminho de pedras, até achar um penhasco para dela se livrarem, sem julgamento, um “eu sei como você se sente” é automaticamente substituído por um “estou sentindo com seu coração”, sem que se coloque isso em palavras. E o encontro de almas se dá, então, sem esforço algum.


Francine S. C. Camargo

Escritora desde os primórdios, médica há 11 anos, começou a experimentar a exposição de seu abecedário há cerca de um ano, com a obra "Mãos Livres" e, mais recentemente, do conto em eBook "Vim perguntar o que faço de mim. É autora do blog Papo de Fran..
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