dedo de prosa

Prosa livre e desobrigada sobre o que há.

Leonardo von Mühlen

Um humilde e fiel súdito da última flor do Lácio.
Autor do blog vilmetafora.blogspot.com

A MULHER CHICO BUARQUE

As mulheres de Chico são tema recorrente de artigos, ensaios, até mesmo em mesas de bar. Mas e quando Chico Buarque não fala tão-somente sobre alma feminina? E quando ele é a mulher de suas canções? E quando a alma retratada é a da sua própria porção mulher? Aí, meus caros amigos, o resultado é simplesmente sublime!


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Chico Buarque de Hollanda. O que poderia eu, um mero fã incondicional da lírica buarqueana, dizer a respeito deste monstro da Música Popular Brasileira que já não tenha sido dito antes com muito mais propriedade? Estou ciente de que, ao encarar tal desafio, corro o sério risco de parir mais um belo lugar-comum a respeito do compositor carioca, mas, dada a minha admiração pelo artista, bem como minha casmurrice congênita, resolvi considerar o risco e assumir as consequências, que podem ser devastadoras – ou não.

Mas, de abrupto, eis que me surge, vindo de lá sei onde, uma ideia que me soa razoavelmente original a respeito do artista: as mulheres de Chico? Não! Seria um clichê imperdoável. Quero falar, agora, da “mulher Chico”.

Explique-se!

Explico.

Chico, como a imensa maioria de seus admiradores já sabe, canta maravilhosamente a alma feminina com uma delicadeza desconcertante. Tais canções estão invariavelmente arroladas entre as preferidas dos fãs. Em meio a tantas e excelentes canções, podemos citar Mulheres de Atenas, cuja ironia, sob a forma de um acintoso “mirem-se no exemplo...”, por vezes passou completamente despercebida, a ponto de a canção ser considerada por muitos uma ode à submissão feminina, quando intentava dizer exatamente o contrário; Geni e o Zepelim, a história da menina pura e bondosa, de vida nem um pouco fácil, cujo destino transformou em "boa de apanhar e boa de cuspir", em que pese o sacrifício a que se submetera para salvar aqueles que lhe batem e cospem; Mar e Lua, uma das mais belas metáforas do amor irreprimível entre duas mulheres, tal qual a atração natural que existe entre o mar e a lua; Carolina, em cujos “olhos fundos guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo” talvez por ser a mais notória canção que Chico não gosta, isso confessado pelo próprio; ou As Minhas Meninas, uma rasgada declaração de amor e ciúmes juvenil que o compositor nutre por suas filhas, suas meninas, só suas, do seu coração.

Belíssimas canções em que Chico Buarque toca a alma feminina, desvelando seus segredos, temores, amores e delícias. Mas – e o “mas” é que é o mote desta ladainha toda – e quando o poeta revela a sua própria alma feminina, quando Chico é a mulher que canta? E quando a sensibilidade do artista não se refere à mulher alheia, a mulher de fora, mas a si mesmo, a mulher de dentro, a sua porção feminina? Condição essa que a maioria nega por não condizer com sua imagem social, por preconceito ou por medo, mas que Chico exalta com todas as cores e transforma em arte de primeira grandeza.

As canções de Chico compostas na voz feminina são simplesmente espetaculares. Nelas, Chico não fala simplesmente sobre a alma feminina, Chico é a mulher das suas canções, é a sua alma feminina retratada e desnudada em seus versos. Comentemos algumas delas, todas da minha predileção.

Não foram poucas as canções em que Chico explora o angustiante cenário da separação. Em Olhos nos Olhos, Chico é a mulher abandonada e, de uma certa forma, resignada.

Quando você me deixou, meu bem/ Me disse pra ser feliz e passar bem/ Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci/ Mas depois, como era de costume, obedeci

Mas essa mulher descobre em si uma força que não acreditava possuir e supera o suplício do abandono, descobrindo-se uma nova mulher, resolvendo-se consigo mesma, resgatando a sua imagem e sua autoestima.

Quando talvez precisar de mim/ 'Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim/ Olhos nos olhos, quero ver o que você diz/ Quero ver como suporta me ver tão feliz

A plena redenção feminina, inclusive com uma leve pitada de ironia (quantos homens me amaram/bem mais e melhor que você) é magnificamente ilustrada em Olhos nos Olhos.

Mas já que o tema é separação, aproveitemos o vento a favor e falemos sobre a desesperada Atrás da Porta.

E me arrastei e te arranhei/ E me agarrei nos teus cabelos/ Nos teus pelos/ Teu pijama/ Nos teus pés/ Ao pé da cama

Agora, Chico é a mulher que ama demais, desesperadamente, arrebatadamente. Chico é a mulher que pressente o desfecho inevitável que a todo custo empreende evitar, em direta oposição a mulher obediente de Olhos nos Olhos.

Quando olhaste bem nos olhos meus/ E o teu olhar era de adeus/ Juro que não acreditei/ Eu te estranhei/ Me debrucei/ Sobre teu corpo e duvidei

Curiosamente, em Olhos nos Olhos e em Atrás da Porta, a iniciativa do rompimento foi da figura masculina.

Mas Chico Buarque também sabe ser a mulher submissa, “feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e pra ser só perdão”, como já cantou o poetinha Vinícius de Moraes. E o ápice desta sua faceta é Com açúcar, com Afeto, a primeira canção em que Chico, de fato, assume a posição feminina, em 1966.

Com açúcar, com afeto/ Fiz seu doce predileto/ Pra você parar em casa/ Qual o quê/ Com seu terno mais bonito/ Você sai, não acredito/ Quando diz que não se atrasa

Nesta, por assim dizer, crônica musical, Chico é a mulher chorosa, submissa, que aceita os desaforos e imposturas de um malandro autêntico, que sai todos os dias para trabalhar com a promessa de que vai voltar em tempo. Mas a noite é comprida, e a promessa nunca é cumprida.

Vem a noite e mais um copo/ Sei que alegre ma non troppo/ Você vai querer cantar/ Na caixinha um novo amigo/ Vai bater um samba antigo/ Pra você rememorar

E, por fim, quando a noite lhe cansa, ele retorna, maltrapilho e maltratado, e ela o perdoa. Por amor ou por sujeição, sabe-se lá. O que ela sabe é que o quer por perto. Ela vai esquentar seu prato, dá um beijo em seu retrato e abre-lhe os braços com doçura e um certo alívio.

Até que, um dia, Chico cansa de sofrer. Chico, então, é a mulher que, impiedosamente, perdoa o homem por traí-lo. Em Mil Perdões, ela trai, vai à forra, e ele surge como o único responsável pela traição.

Te perdoo/ Por fazeres mil perguntas/ Que em vidas que andam juntas/ Ninguém faz/ Te perdoo/ Por pedires perdão/ Por me amares demais

A inversão de causa e efeito promovida por Chico nesta canção é inusitada e libertária. A mulher que trai perdoa o marido traído por este lhe fazer trair. É paradoxal, mas é real. E a traição parece irromper de um cenário de opressão e ciúme controlador em que ela se encontra inserida, descambando muitas vezes em violência. O assédio doentio, as agressões e a obsessão por controlar os passos da mulher fazem-na trair despudoradamente.

Te perdoo/ Te perdoo por ligares/ Pra todos os lugares/ De onde eu vim/ Te perdoo/ Por ergueres a mão/ Por bateres em mim/

Chico dá a dica: controlar é perder; libertar é ter pra sempre.

Quatro contextualizações sob a ótica feminina: a mulher resiliente (Olhos nos Olhos), a mulher inconformada (Atrás da Porta), a mulher submissa (Coma Açúcar, com Afeto) e a mulher vingativa (Mil Perdões). Quatro mulheres reais vividas por Chico Buarque de Hollanda com a intensidade e a autenticidade de uma alma definitivamente feminina, com todas as suas dores, amores, cores e rancores. Dessas coisas que só mesmo esse cara poderia nos proporcionar com tanta sensibilidade e delicadeza.

Chico Buarque de Hollanda é, indiscutivelmente, a maior compositora brasileira de todos os tempos.


Leonardo von Mühlen

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