dedo de prosa

Prosa livre e desobrigada sobre o que há.

Leonardo von Mühlen

Um humilde e fiel súdito da última flor do Lácio.
Autor do blog vilmetafora.blogspot.com

HOMEM INVISÍVEL

A obra-prima de Ralph Ellison, escritor negro americano, revela a crueza e a indiferença com que uma sociedade inumana e doente é capaz de tratar aqueles que, em suma, são parte relevante dela, e não um inconveniente apêndice a ser extirpado.


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Encerrei, essa semana, a leitura de Homem Invisível, do escritor norte-americano Ralph Ellison – não confundir com O Homem Invisível, a célebre ficção científica de H. G. Wells.

Este homem invisível de que falo é um jovem negro, do sul dos EUA, muito sagaz e inteligente, que migra para Nova Iorque por forças circunstanciais que não lhe oferecem alternativa senão a de subir para o norte e instalar-se no Harlem, gueto afro-americano da Big Apple. Sua condição de negro e pobre o faz vítima de toda a sorte de preconceitos e injustiças, e sua luta por uma realidade alternativa, não só para si, mas para os seus iguais, fá-lo perceber, e até mesmo aceitar, a invisibilidade social que lhe é imposta por uma sociedade inumana e doente.

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A história é de um realismo perturbador e, embora transcorra nos anos quarenta do século passado, pode facilmente ser contextualizada no tempo presente, uma vez que versa sobre um das moléstias mais abjetas e absurdas de que padece nossa sociedade contemporânea: o racismo. O racismo ostensivo e franco, o racismo sutil e velado, o racismo aliado ao preconceito de classe, de gênero, de orientação sexual. A invisibilidade social faz suas vítimas nas mais variadas formas e matizes. O racismo é uma das mais violentas.

Ao protagonista não é atribuído nem sequer alcunha! O personagem, pasmem!, não tem nome, e nisso o autor – também negro – acerta com precisão cirúrgica, logrando fazê-lo invisível até mesmo a nós, leitores, que o acompanham intimamente em sua trajetória errante, página após página, sem sequer poder referi-lo nominalmente. Com esse artifício genial – o anonimato –, Ellison ergue uma muralha intransponível entre o leitor e seu personagem, evidenciando ainda mais a invisibilidade, insignificância e vileza de seu protagonista anônimo. Afinal, é apenas um negro.

Um livro inegavelmente relevante que todos, em que pese a cor da pele, devem conhecer. Lê-lo, e compreendê-lo, é um exercício necessário de empatia que nos fará pessoas melhores.

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Leonardo von Mühlen

Um humilde e fiel súdito da última flor do Lácio. Autor do blog vilmetafora.blogspot.com.
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