deep pop

Um mergulho profundo na arte do entretenimento

Roberto Oliveira

Quão profundo pode ser o cinema, a despeito de seu caráter comercial predominante... Quantas camadas para análises e descobertas podemos encontrar durante a projeção de um filme... Como é fascinante essa arte que consegue ao mesmo tempo nos fazer pensar e nos encantar..

PARA O CINEMA, A GUERRA FRIA SEMPRE FOI QUENTE

São incontáveis os exemplos de filmes bem-sucedidos que abordam o período histórico conhecido como Guerra Fria. No cinema, políticos, agentes secretos, super-heróis e até extraterrestres, de uma forma ou de outra, puderam se envolver neste conflito que, para o nosso bem, nunca chegou às vias de fato. O legado cultural deixado pela Guerra Fria é imenso, riquíssimo e, volta e meia, o tema ressurge nas telas.


01-11 12 2016-Guerra Fria-01.jpg

Donald Trump assumiu o cargo mais importante do mundo, o de presidente dos EUA. Desde que foi eleito, o mundo inteiro tem feito diversos questionamentos, que podem se resumir em uma única questão: e agora? A apreensão é global, e a humanidade só descobrirá os desdobramentos dessa história à medida que os fatos forem acontecendo. Os inúmeros protestos que grande parcela dos próprios norte-americanos têm feito podem servir como uma prévia do quão polêmico e imprevisível poderá vir a ser este novo governo da nação mais poderosa do mundo. E toda a mídia, o que inclui a indústria do entretenimento, além de outras incontáveis expressões de arte, estará acompanhando de perto, como sempre, os principais acontecimentos envolvendo as estreitas relações internacionais que se desenrolarão daqui para frente. No atual momento político em que nos encontramos, vemos, em meio a várias outras situações que também merecem atenção, o Reino Unido deixando a União Européia, a crise sem precedentes de refugiados, vindos da Síria e de outros países, a Coréia do Norte cutucando o mundo com seus testes nucleares e a sua política fechada, o Estado Islâmico tentando impor o terror no ocidente. Em meio a tudo isso, a Rússia, atualmente sob o comando de Vladimir Putin, teoricamente tem se mostrado uma nação aliada, embora eles estejam ‘se estranhando’ no recente episódio envolvendo supostas espionagens. Não há um clima de de já vi no ar?

01-11 12 2016-Guerra Fria-02.jpg OS PRESIDENTES DA URSS E DOS EUA, MIKHAIL GORBACHEV E RONALD REAGAN, EM 1987. FOTO: BOB DAUGHERTY (AP IMAGES)

Logo após a vitória dos Aliados sobre os nazistas, em 1945, o mundo sentiu o alívio pelo fim de sua segunda grande guerra, porém, quase imediatamente, rumou para uma outra disputa, desta vez menos direta, sem conflitos armados, uma rivalidade de ordem muito mais psicológica, entre EUA e URSS, que também deixava as demais nações em constante suspense, com a desconfortável sensação de que uma nova frente de batalha pudesse ser formada a qualquer momento, o que acabou não ocorrendo, mas chegou muito perto de ocorrer. Esse período histórico, convenientemente chamado de Guerra Fria, durou até 1991, quando a União Soviética deixou de existir para dar lugar, novamente, à Rússia. Durante esses quase 50 anos, muitos episódios iam se sobrepondo, o que só contribuía para aumentar a tensão. Desde a corrida armamentista, passando pela crise dos mísseis em Cuba, pelo projeto americano “Guerra nas Estrelas”, até culminar na já citada dissolução do maior país do mundo em extensão geográfica, marcando o fim da acirrada batalha ideológica entre os presidentes da vez, Mikhail Gorbachev e Ronald Reagan. Mas qual foi o recorte que as artes, mais especificamente, o cinema, fizeram em reação a esses anos tão paranoicos?

Há centenas de filmes que abordam a Guerra Fria, muitos deles diretamente. Outros utilizam tal período histórico apenas como pano de fundo para ilustrar suas narrativas recheadas de fantasia. É o caso da animação infanto-juvenil O Gigante de Ferro, de 1999, dirigida pelo então novato Brad Bird, que alguns anos depois ganharia muita projeção, já pela Pixar, com Os Incríveis e Ratatoille. O tal gigante da animação é pacífico, veio do espaço, faz amizade com um garoto, mas é localizado pelo governo americano (sempre eles), e passa a ser considerado uma ameaça, “provavelmente” soviética. Absurdo? Para aquela geração de baby boomers pós 2ª Guerra, nem um pouco. Outra abordagem fantasiosa, porém muito mais tensa, do período foi realizada em X-Men: Primeira Classe, de 2011, em que toda a trama se passa nos anos 1960, e os mutantes passam a ter papel decisivo na resolução da crise dos mísseis soviéticos em território cubano, que por pouco não provocaram um novo hecatombe nuclear.

01-11 12 2016-Guerra Fria-03.jpg

Percebe-se também, muito facilmente, a ascensão dos espiões e agentes secretos durante o período. Pode-se até afirmar seguramente que aquele conturbado momento político tenha sido o auge da espionagem, embora, é claro, os “Edward Snowdens” estejam por aí a todo vapor nos dias de hoje. E espionagem é um tema que o cinema sempre gostou. O mestre do suspense Alfred Hitchcock deu a sua maior contribuição ao gênero ao lançar, em 1959, um de seus filmes mais memoráveis, Intriga Internacional. Já o cultuado agente secreto americano Jack Ryan, criação do escritor Tom Clancy, surgiu nas telas pela primeira vez em 1990, vivido por Alec Baldwin, no filme Caçada ao Outubro Vermelho, que trazia ainda Sean Connery como o inconsequente capitão de um submarino soviético que poderia ser o pivô para a quebra da tênue linha entre as duas maiores potências mundiais.

01-11 12 2016-Guerra Fria-04.jpg

É óbvio que, em se tratando de agentes secretos, e ainda mais aproveitando o gancho deixado pela citação a Connery, seria no mínimo injusto deixar de mencionar o mais popular de todos eles, James Bond, que está diretamente relacionado com a Guerra Fria, pois foi criado por Ian Fleming nos primeiros anos do período, em 1953. Além disso, o próprio Fleming foi um agente britânico na vida real. Entre as diversas – e mais absurdas – tramas do espião, a que melhor remete ao período é a segunda que foi levada às telas: Moscow Contra 007, lançado em 1963, um ano antes da morte de seu criador. É curioso perceber como a cultura pop em geral cria mitos em torno de palavras e expressões. A simples menção a “soviético” já possuía uma conotação negativa, exceto, é claro, para os habitantes daquele país que, em teoria, nada tinham a ver com as ideologias de seus governantes. Assim como, durante o nazismo, havia alemães que não concordavam com todo aquele horror que estavam presenciando, da mesma forma que os muçulmanos não compactuam de maneira nenhuma com o extremismo dos grupos radicais que usam a religião como pretexto para seus atos lamentáveis. O fato é que a mídia, com seus produtos de entretenimento, acabou criando estereótipos para determinados povos, e os soviéticos inegavelmente estiveram nesse grupo.

Mas se há um filme que traduz com exatidão a essência da Guerra Fria, e ainda acrescenta sarcasmo e ironia em doses certeiras, é Dr. Fantástico, de 1964, em que o gênio Stanley Kubrick (cuja filmografia é quase completamente formada por clássicos) escancara o absurdo da corrida armamentista, somado à ridicularidade da guerra com o objetivo de apenas inflar o ego das duas nações envolvidas. Peter Sellers vivendo três personagens ao mesmo tempo, a tensão crescente dos dois lados do Atlântico, as longas e nervosas conversações ao telefone do presidente americano (Sellers) com o líder soviético Dimitri (que nunca aparece), além, é claro, da inconfundível ambientação que Kubrick concebeu para o longa, preferindo filmar em P&B, evidenciando as sombras e investindo em planos abertos que valorizam a cúpula do Pentágono onde se sucedem as mais hilárias situações, tudo isso faz com que essa possivelmente seja a melhor sátira à paranoia americana durante a Guerra Fria.

01-11 12 2016-Guerra Fria-05.jpg

Hoje o mundo vive sob uma outra perspectiva, abalado com a incógnita acerca do presidente norte-americano que acaba de assumir o cargo. Um novo ciclo tem início. Sejam quais forem os novos desdobramentos que a política mundial irá tomar, estejamos certos de que as artes, a indústria cultural, o cinema, estarão lá para realizar, por meio da ficção, novas obras que farão menção aos próximos momentos históricos do nosso tempo. A julgar pela controversa postura de Trump, não será surpresa nenhuma se surgirem várias comédias pastelão ambientadas na Casa Branca.


Roberto Oliveira

Quão profundo pode ser o cinema, a despeito de seu caráter comercial predominante... Quantas camadas para análises e descobertas podemos encontrar durante a projeção de um filme... Como é fascinante essa arte que consegue ao mesmo tempo nos fazer pensar e nos encantar...
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Roberto Oliveira