deep pop

Um mergulho profundo na arte do entretenimento

Roberto Oliveira

Quão profundo pode ser o cinema, a despeito de seu caráter comercial predominante... Quantas camadas para análises e descobertas podemos encontrar durante a projeção de um filme... Como é fascinante essa arte que consegue ao mesmo tempo nos fazer pensar e nos encantar..

A OUSADIA NA BUSCA PELA VERDADE EM PROL DE UMA SOCIEDADE LIVRE DAS DROGAS

Este filme, baseado em fatos reais, que conta os últimos anos da vida da jornalista irlandesa Veronica Guerin, foi lançado no Brasil com o nome de O Custo da Coragem, título que sintetiza bem o trabalho que ela se propunha a fazer, bem como suas consequências.


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A área do jornalismo na qual Veronica, que escrevia para o Sunday Independent, escolheu para atuar é uma das mais difíceis, o investigativo, por meio do qual ela não media esforços para conseguir chegar até a verdade. Indo a fundo para descobrir a origem da distribuição de drogas que estava sendo feita por todo o país, em certo momento Guerin bate à porta da casa de um dos supostos líderes de quadrilhas de Dublin, sem medir a reação que essa atitude poderia causar no mafioso. Como é revelado logo no início do longa, sua ousadia a leva a ser assassinada, em 1996, pelo capanga de um dos chefões locais do crime. Então o roteiro nos traz de volta dois anos atrás, nos mostrando os caminhos que Veronica percorreu até culminar nesta covarde atitude por parte do tal mafioso.

Jornalista respeitada, ela contava com o apoio de seu jornal, seus colegas, e também do público, acostumado a ler suas reportagens que sempre mantinham esse teor social. Seu marido e sua mãe, embora não se opunham totalmente, viviam contestando se valia a pena tamanho esforço dedicado a um trabalho tão perigoso, mas ela insistia nas histórias que queria contar, acreditando que poderia fazer a diferença, contribuindo com a sua profissão para tornar a sociedade melhor, livre das drogas.

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Cate Blanchet, que já ganhou dois prêmios Oscar, incorpora com o comprometimento necessário a jornalista, reproduzindo até o sotaque irlandês, e sabendo dosar na medida certa cenas que exigem que sua personagem transmita coragem, segurança, medo ou até mesmo a momentânea tranquilidade proporcionada por momentos de lazer em família, como quando dança ao som da versão do U2 para o clássico Everlasting Love. O diretor Joel Schumacher conduz a trama equilibrando a crueza das ruas com o enfoque humano dado à sua personagem, o que contribui para que o espectador reflita sobre as ousadas escolhas que ela faz. Vale mesmo a pena se arriscar tanto assim em nome do jornalismo investigativo?

O fato é que, após sua morte, Verônica incentivou uma militância muito maior por parte do povo e, por consequência, uma atuação muito mais agressiva da polícia de seu país, o que culminou em investigações profundas que acarretaram a prisão de dezenas de traficantes. As ações policiais foram além, alcançando até os figurões da máfia. Este pode ser considerado, portanto, o legado deixado por Veronica Guerin, uma destemida, ousada e corajosa jornalista que lutou até o fim, em prol do que acreditava, que a verdade pode fazer a diferença, e livrar a sociedade (ou pelo menos diminuir) do tráfico e do consumo de drogas, tornando-a um lugar mais aceitável para todas as pessoas de bem.

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O Custo da Coragem (Veronica Guerin). EUA, 2003, 1h 38min. Direção: Joel Schumacher. Com: Cate Blanchett, Ciarán Hinds, Gerard McSorley, Brenda Fricker, Colin Farrel. Suspense. Touchstone Pictures.


Roberto Oliveira

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