deep pop

Um mergulho profundo na arte do entretenimento

Roberto Oliveira

Quão profundo pode ser o cinema, a despeito de seu caráter comercial predominante... Quantas camadas para análises e descobertas podemos encontrar durante a projeção de um filme... Como é fascinante essa arte que consegue ao mesmo tempo nos fazer pensar e nos encantar..

HARRY POTTER E O ENIGMA DO PLÁGIO

O sucesso literário e cinematográfico de Harry Potter é incontestável. No entanto, desde o seu surgimento, fãs tem identificado semelhanças com outras obras, e alguns processos tem sido movidos na Justiça, alegando violação de direitos autorais. A maior criação da escritora britânica J.K. Rowling seria, afinal, um plágio?


J.K. Rowling 01.JPG Que Harry Potter é um dos personagens mais famosos da cultura pop desde meados da virada do milênio, isso é incontestável. Os milhões de exemplares vendidos com seus sete livros (sem contar os derivados) e os bilhões de dólares arrecadados com seus oito filmes comprovam esse sucesso fenomenal. A escritora britânica J.K. Rowling parece ter encontrado, com seu bruxinho, a fórmula (ou o feitiço) da fortuna. Mas o que há de tão especial nesta história? Ambientada em uma dimensão paralela à nossa, povoada por uma sociedade de bruxos, a maioria deles do bem, a saga de Harry Potter acompanha o personagem-título que estuda bruxaria no conceituado Colégio de Hogwarts e, juntamente com seus colegas, enfrenta diversos desafios, até culminar no confronto final com o temível lorde supremo das trevas, do qual conseguiu escapar com vida quando ainda era bebê, ocasião na qual seus pais morreram. Entre aulas de magia com professores ora severos, ora ridículos e partidas de quadribol sobre vassouras voadoras e com varinhas mágicas em punho, a trajetória de Potter é recheada de intrigas políticas, conspirações, revelações familiares e, talvez o maior trunfo da série, os relacionamentos da infância e da juventude, amizades, inimizades, amores, anseios, angústias, frustrações e realizações. Os leitores e expectadores cresceram junto com os personagens, que tinham na faixa de 11 anos no primeiro livro (e filme) e 17 no último. Pode-se atribuir ao sucesso de Rowling sua habilidade na escrita, com a qual soube adicionar no universo que criou uma porção de elementos que, juntos e na dose certa, culminaram nessa formidável fantasia infanto-juvenil com muito bem trabalhadas alusões à realidade.

J.K. Rowling 02.JPG Entretanto, logo após o lançamento, em 1997, de Harry Potter e a Pedra Filosofal, primeiro livro da série, e em meio ao estrondoso sucesso cinematográfico, processos foram movidos na Justiça contra Rowling, alegando que ela teria cometido plágio. Além disso, vários fãs de cultura pop identificaram na história de Potter semelhanças com outras obras que já haviam lido. É o caso de Os Livros da Magia, HQ lançada em 1990, escrita pelo também britânico (como quase todos os escritores citados neste artigo) Neil Gaiman, um dos mais prestigiados do ramo, famoso por suas histórias que quase sempre envolvem algum tipo de fantasia e costumam ser direcionadas para um público mais adulto. É de autoria dele o livro Coraline, que foi levado aos cinemas em 2009, e a série em quadrinhos Sandman, lançada no fim dos anos 80 e até hoje de enorme popularidade. Gaiman possui diversos outros trabalhos de destaque, e Os Livros da Magia, sem dúvida, é um deles. Nesta série em HQ, temos a história do garoto Timothy Hunter, que usa óculos, possui uma coruja e começa a conhecer o mundo da magia! As semelhanças, contudo, param por aí, pois a história que a obra de Gaiman conta (na qual o garoto viaja pelo tempo e por outros mundos) é completamente diferente da de Rowling. O escritor já chegou a dar declarações sobre as “coincidências” afirmando que, por ele, está tudo bem. Aliás, o próprio Gaiman assumiu ter se inspirado em outra obra para criar Os Livros da Magia, e até pediu autorização à escritora para tal. Trata-se de Os Mundos de Crestomanci, série de livros iniciada em 1977 por Diana Wynne Jones, na qual, em uma de suas histórias, um garoto de óculos descobre que é bruxo e vai para um castelo onde outras crianças também lá estão para aprenderem magia. Seria este, portanto, o embrião de Harry Potter? Em relação a Gaiman, a escritora “deu a bênção” sem problemas. Falecida em 2011, Diana também não via incômodo quanto aos aspectos em comum entre sua obra e a de Rowling, de quem inclusive afirmava ser fã.

J.K. Rowling 03.JPG Há escritores, porém, que não compartilham da mesma “diplomacia” de Gaiman e Jones. Jill Murphy, autora de The Worst Witch, se por um lado não entrou com processo na Justiça, por outro não gosta quando comparam sua obra, lançada em 1974, com a de Rowling: "É irritante." Seu livro conta a história de Mildred Hubble, a pior aluna de uma escola de bruxas só para meninas. Logo no primeiro dia de aula, ela conhece uma colega loirinha, rica e convencida, que se torna sua maior adversária. Alguém se lembrou de Draco Malfoy? Enquanto faz amizades com as outras colegas e se envolve em aventuras, ela vai se aprimorando até se tornar, no final da trama, a melhor aluna, para alegria, também, dos professores. Assim fica difícil não associar. O livro gerou um filme para TV, produzido pela HBO inglesa, e exibido no Halloween de 1986. Tem só 1h e 10min de duração e está disponível no YouTube, com o som original em inglês, sem legendas. O Reino Unido assistiu ainda a uma série, baseada no livro, que durou três temporadas. Foi concluída em 2000, quando três livros de Harry Potter já haviam sido publicados, e seus fãs aguardavam ansiosos pelo lançamento do 1º filme, que aconteceria no ano seguinte.

J.K. Rowling 04.JPG Quem levou mesmo o caso até as últimas consequências foi a família de Adrian Jacobs, falecido em 1997, ano em que Potter chegou às livrarias pela primeira vez. O processo contra Rowling movido pelos herdeiros de Jacobs alega violação de direitos autorais. Entre outras semelhanças, o livro Willy The Wizard, publicado pelo escritor em 1987, narra uma competição esportiva mágica muito semelhante ao Torneio Tribruxo, visto em Harry Potter e o Cálice de Fogo, quarto episódio da série, publicado em 2000, e cujo filme saiu em 2005, um ano após essa entrada com ação judicial. As evidências de plágio, contudo, parecem não terem sido suficientes, e o processo foi arquivado.

Igualmente insatisfeita ficou a norte-americana Nancy Kathleen Stouffer, autora de Larry Potter (isso mesmo) and His Best Friend Lilly. Não bastasse o nome quase idêntico do protagonista (que, por acaso, é um menino de óculos), há ainda a outra “coincidência” da mãe de Harry Potter se chamar Lily, com o detalhe de que a grafia também é diferente por apenas uma letra, no caso um “l” a menos. Mas não é só isso. Stouffer alega ainda ter criado em outro livro infantil de sua autoria, The Legend of Rah and The Muggles, a gíria “muggles”, da qual Rowling teria se apropriado. As duas escritoras utilizaram a expressão para se referir àqueles que são desprovidos de poderes mágicos. Nas versões brasileiras das obras de Rowling o termo foi traduzido como “trouxas”. Em 1999, Stouffer, alegando que a colega da terra da Rainha, ao “criar” Harry Potter, teria infringido as leis de direitos autorais em relação aos seus dois livros acima mencionados, ambos de 1984, entrou na Justiça. Rowling, mais uma vez, ganhou a causa.

J.K. Rowling 05.JPG Também houve uma situação em que, estranhamente, as posições se inverteram. Foi em 2002, quando o livro não oficial Harry Potter e o Leopardo Contra o Dragão foi lançado na China, misturando vários personagens, entre eles o Mágico de Oz e Gandalf, de O Senhor dos Anéis. Rowling entrou com uma ação na justiça contra o autor chinês, e venceu. Neste caso, obviamente, é plágio declarado e escancarado, sem qualquer chance de defesa. Mas é, no mínimo, curioso notar que a Justiça tem se mostrado sempre favorável à J.K. Rowling. Seria obra de algum feitiço? Fato é que, até agora, além de ter conseguido escapar das acusações de plágio, Harry Potter continua sustentando o prestígio conquistado junto ao público, com novas obras derivadas sendo lançadas nas livrarias, nos palcos de teatro e nos cinemas, tudo sob o olhar atento de sua criadora, é claro. Sempre que é questionada a respeito das obras que teriam lhe “inspirado”, J.K. Rowling afirma que suas ideias apenas surgiram em sua mente, do nada. O conceito de Harry Potter, segundo ela, teria nascido da noite para o dia, durante uma viagem de trem. Curiosamente, o personagem Jacob Kowalski, de Animais Fantásticos e Onde Habitam, livro e filme derivados da série, em certo momento da trama, quando indagado sobre onde consegue suas ideias, diz: “Elas simplesmente surgem do nada...” Muitos fãs estão supondo que Rowling criou esse personagem, que começa fracassado, mas termina bem sucedido (e cujas iniciais são as mesmas dela, J.K.), como uma versão de si mesma, na qual ela aproveita para alfinetar de leve seus desafetos judiciais.

J.K. Rowling 06.jpg Muitas outras histórias poderiam ser mencionadas, que guardam semelhanças entre si. Afinal, devem existir no mundo centenas de grandes obras da literatura infanto-juvenil permeadas por um clima de fantasia e magia que, inevitavelmente, terão aspectos em comum umas com as outras, de modo que é quase impossível, principalmente hoje em dia – com o advento da internet, que dá acesso a culturas de toda parte – surgir algo totalmente original. Assim, nada impede um autor de dar uma espiadinha por aí e “buscar inspiração” no trabalho de um colega. Se o escritor souber filtrar as ideias de maneira convincente ao transpô-las para o papel (ou para a tela do computador), não precisará se preocupar em ser acusado de ter plagiado alguém. Mas como as leis são muito abstratas na definição do que é e o que não é plágio, quanto mais modificações puderem ser feitas em relação ao “produto original”, melhor. Pois não é sempre que, além de talento, se tem a sorte (ou os melhores advogados que o dinheiro pode comprar) ao seu lado. J.K. Rowling, sem qualquer sombra de dúvida, tem. J.K. Rowling 07.jpg


Roberto Oliveira

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