deep pop

Um mergulho profundo na arte do entretenimento

Roberto Oliveira

Quão profundo pode ser o cinema, a despeito de seu caráter comercial predominante... Quantas camadas para análises e descobertas podemos encontrar durante a projeção de um filme... Como é fascinante essa arte que consegue ao mesmo tempo nos fazer pensar e nos encantar..

BRASILEIRO TAMBÉM GOSTA DE SENTIR MEDO

O cineasta gaúcho Pedro Foss, com o curta-metragem Luiza, realiza uma bem-sucedida investida em gêneros dos quais o cinema brasileiro ainda carece de produções, o suspense e o terror. Mistério, reviravoltas e um final surpreendente marcam essa produção que aposta na tensão psicológica.


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A loucura sempre foi um tema recorrente em histórias de suspense e terror, e o cinema, desde os seus primórdios, tem explorado de inúmeras maneiras esse estado mental capaz de despertar tanto medo no público. Basta fazer um rápido retrospecto para constatar a quantidade de psicopatas presentes na Cultura Pop, imortalizados pela Sétima Arte. O Norman Bates de Anthony Perkins em Psicose é um dos primeiros que veem à mente. Outro famoso anormal é Hannibal Lecter, vivido nas telonas de forma sinistra por outro Anthony, o Hopkins, em O Silêncio dos Inocentes. Recentemente, esses dois personagens ganharam até suas próprias séries de TV, tamanho o sucesso adquirido ao longo das décadas. Fazendo uso de recursos narrativos muito bem explorados por Hollywood, o curta-metragem nacional Luiza traz mais uma abordagem do tema insanidade.

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O filme narra uma situação extremamente incomum envolvendo um casal. Ela não se lembra, e não se convence de que vive com ele, e alega que seu nome não é Luiza, como ele insiste em chamá-la. A psicanalista que surge na história completa o trio de protagonistas. Ela tentará ajudar o casal em crise. Com surpresas e reviravoltas, descobriremos quem, de fato, é a pessoa mentalmente desequilibrada da trama, em meio ao clima de suspense psicológico que se instaurou ao longo dos quase vinte minutos de duração do curta.

Reviravoltas, por sua vez, também constituem outro item crucial em tramas de mistério, o que torna a experiência de assisti-las muito mais interessante, desafiando o espectador a tentar descobrir, antes da hora, o que de fato está acontecendo. No caso de Luiza, apesar dos furos no roteiro, o curta consegue estabelecer uma ambientação permeada por medo, insegurança e incertezas. A trilha incidental, embora repetitiva, colabora na criação de um clima tenso, e a fotografia quase sempre escura complementa o produto final, que se mostra satisfatório naquilo a que se propõe.

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A ressalva fica por conta dos três atores. Talvez, por sermos brasileiros e estarmos tão acostumados a ver esses rostos em novelas globais, inconscientemente eles não nos transmitem a mesma credibilidade que vemos em produções estrangeiras. Eriberto Leão e Paula Burlamaqui pronunciam suas falas como se estivessem lendo notícias no teleprompter, adquirindo um tom solene que fica a anos-luz de distância de um diálogo espontâneo. E ver Luana Piovani gritando que não se chama Luiza soa tão falso quanto os sorrisos que ela dá quando é entrevistada pelo Faustão. Excetuando, pois, os diálogos ditos de forma tão artificial, a proposta de um assustador curta-metragem de suspense e terror, com direito a reviravolta no final, consegue agradar.

Escrito e dirigido pelo jovem cineasta gaúcho Pedro Foss e lançado em 2014, Luiza é o primeiro de uma trilogia de curtas de terror que ele intitulou de Projeto Delirium. No ano seguinte, saiu o segundo, A Morte & Vida de Ana Belshoff, novamente com Foss na direção e roteiro, desta vez com Carol Castro, Bruno Gissoni e Luciano Szafir no elenco, filme que renderá uma outra crítica...

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Esses e outros curtas-metragens de Pedro Foss podem ser facilmente encontrados na internet, inclusive na própria página oficial do cineasta. O maior mérito de Luiza, e consequentemente dessa trilogia de terror psicológico a ser concluída, foi ter investido em um gênero que o cinema brasileiro ainda tem muito a explorar. O suspense, o terror, tramas macabras, psicóticas e sombrias, bem que poderiam, porque não, se tornar muito mais presentes no cinema nacional, ultimamente tão sobrecarregado de comédias globais. Afinal, brasileiro também gosta de sentir medo!

Luiza. Brasil, 2014, 19 min. Direção e roteiro: Pedro Foss. Com: Eriberto Leão, Paula Burlamaqui, Luana Piovani. Terror. Biarte/Paris Produções.


Roberto Oliveira

Quão profundo pode ser o cinema, a despeito de seu caráter comercial predominante... Quantas camadas para análises e descobertas podemos encontrar durante a projeção de um filme... Como é fascinante essa arte que consegue ao mesmo tempo nos fazer pensar e nos encantar...
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