deep pop

Um mergulho profundo na arte do entretenimento

Roberto Oliveira

Quão profundo pode ser o cinema, a despeito de seu caráter comercial predominante... Quantas camadas para análises e descobertas podemos encontrar durante a projeção de um filme... Como é fascinante essa arte que consegue ao mesmo tempo nos fazer pensar e nos encantar..

SOBRENATURAL COM PSICANALISE E REFLEXÃO SOBRE A VIDA

Protagonizado pela bela Carol Castro, curta-metragem desenvolve um arrepiante conto de suspense e terror que culmina em um desfecho a lá Shayamalan, e ainda nos leva a refletir sobre nossa existência, em mais uma bem sucedida empreitada do mesmo diretor de Luiza.


01.jpg Se no curta-metragem Luiza, lançado em 2014, o diretor e roteirista gaúcho Pedro Foss abordou a loucura como tema, no ano seguinte, em A Morte & Vida de Ana Belshoff, como o próprio título já sugere, ele preferiu tratar da inquietude humana acerca de sua própria existência, que nunca é exatamente aquela que idealizamos, e faz com que vejamos o ‘filme da nossa vida’ como algo inevitavelmente incompleto.

Ana Belshoff é uma nadadora olímpica que acabara de ganhar uma medalha de ouro (como se vê em uma das fotos emolduradas) e está curtindo essa feliz fase de sua vida ao lado do esposo, mas nada de álcool nas comemorações, afinal, Ana não bebe. Vivem no confortável apartamento de número 602 de um condomínio residencial localizado em um bairro nobre do Rio, cuja sacada permite uma vista privilegiada do litoral carioca. Uma vida perfeita... Todavia, a bela jovem começa a perceber algumas coisas estranhas que vão se intensificando à medida que o tempo passa: um lapso de memória aqui, outro acolá, um balconista de lanchonete que a reconhece como sendo sua professora do último semestre, uma moça loira que, de repente, Ana vê circulando à vontade no seu próprio apartamento, como se ela morasse ali, além do misterioso homem alto, sempre vestido de preto, que Ana vê sucessivas vezes no elevador, e que lhe diz palavras enigmáticas, sempre ao som de “Lollipop”, na versão gravada em 1958 pelo quarteto vocal feminino norte-americano The Chordettes. O que, diabos, está acontecendo? Qual é, afinal, a verdade?

02.jpg Bebendo uma vez mais na fonte de grandes obras de suspense e terror norte-americanas, Pedro Foz escreveu um roteiro que consegue, durante os 21 minutos de duração do curta, prender a atenção do expectador, que vai tentando adivinhar os acontecimentos, bem como seus motivos, ao passo que a direção dinâmica do jovem cineasta evoca um clima de tensão que corrobora para o estabelecimento de uma atmosfera sobrenatural que paira no ar o tempo todo, com direito a alguns sustos e, é claro, uma reviravolta no final, no melhor estilo M. Night Shyamalan.

Ao contrário do que aconteceu no já citado (e comentado em crítica anterior) Luiza, protagonizado pela sem graça Luana Piovani, e primeiro curta desta série intitulada Projeto Delirium, desta vez o elenco está mais convincente, gerando diálogos proferidos com uma maior naturalidade. A diretora de teatro Bia Oliveira faz a mãe de Ana, e Bruno Gissoni, o esposo. Ambos compõem eficientemente o ‘núcleo familiar’ da trama, enquanto que o robusto pai da Sasha, filha da Xuxa, Luciano Zafir, encarna de forma espantosa o intrigante ‘emissário do elevador’, conferindo a ele um tom ao mesmo tempo sinistro e lúdico. Quanto à protagonista, Carol Castro, além de sua beleza ímpar, ela também exibe de forma magnífica todas as incertezas de Ana, por meio de suas expressões corporais, seus olhares perdidos, seus diálogos desorientados e suas lágrimas que caem tão espontaneamente de seus olhos diante da impossibilidade de entender a realidade assustadora que se desenrola ao seu redor. Pedro Foss, por que não escalaste Carol também para o primeiro filme?

03.jpgAlém de se mostrar outro ótimo curta de terror psicológico, A Morte & Vida de Ana Belshoff ainda propõe uma breve, porém relevante reflexão sobre a vida, como a vivemos, como a imaginamos, o que fazemos dela, o que esperamos dela e... por que não, o que nos aguarda depois dela. Sobrenatural com psicanálise, temas recorrentes na obra de Foss, que se misturam e se completam, e que você pode conferir no site oficial do diretor. Na contramão do atual cinema nacional, que ultimamente tem priorizado comédias e dramas biográficos, o suspense e o terror são gêneros que apresentam enorme potencial para também serem desenvolvidos por aqui, como esses curtas (e muitos outros) têm comprovado pela qualidade de suas execuções. O que nos leva a imaginar o quão interessante poderia ser o primeiro longa-metragem de terror dirigido por Pedro Foss, e torcer para que um dia ele realmente o faça, e seja bem-sucedido nesta empreitada.

Thumbnail image for 04.jpg O DIRETOR PEDRO FOSS REVISANDO DETALHES DE UMA CENA COM CAROL CASTRO. FOTO: DIVULGAÇÃO.

A Morte & Vida de Ana Belshoff. Brasil, 2015, 21 min. Direção e roteiro: Pedro Foss. Com: Carol Castro, Bruno Gissoni, Luciano Zafir, Bia Oliveira, Bárbara Brigido, Juan C. Reis. Terror. Biarte/Paris Produções.


Roberto Oliveira

Quão profundo pode ser o cinema, a despeito de seu caráter comercial predominante... Quantas camadas para análises e descobertas podemos encontrar durante a projeção de um filme... Como é fascinante essa arte que consegue ao mesmo tempo nos fazer pensar e nos encantar...
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