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Letra e sentimento

Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor.
Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade.
Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer

Sobre dar importância

No apressado ritmo que rege nossos dias, não são raras as vezes em que nos sentimos confusos a respeito do que merece nossa atenção e tempo e, frequentemente, confundimos o urgente e o importante. Mas para além dos compromissos diários, vale lembrar que dar importância não requer esforços hercúleos. Importante vem do latim, e originalmente significa "trazer consigo".


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Importante mesmo nem sempre é aquilo que ocupa nosso pensamento a maior parte do dia, nem sempre é aquilo que priorizamos. Os ponteiros do mundo pós-moderno nos dizem aquilo que repetia o Coelho Branco para si mesmo e para Alice: É tarde! Logo, o mais importante pode ser muitas vezes o que parecemos esquecer.

E parecemos esquecer porque as “coisas” (entre aspas, porque raramente são coisas de fato) mais importantes normalmente não brilham, não têm grandes dimensões, não pesam muito, nem custam caro. Pelo contrário, aquilo que mais merece importância pode ser aquilo a que menos atribuímos valor, dada a sua simplicidade. Inclusive, de tão simples pode ser aquilo que está ao alcance da mão, aquilo que encontramos em grande quantidade.

É preciso que não nos esqueçamos, que façamos soar os alarmes nos celulares ou que nos valhamos de "post its" para não esquecer que é necessário que caminhemos na contramão dos clichês, e também dos “contraclichês”. Por contraclichê podemos entender, neste texto, o extremo oposto do clichê. Por exemplo, clichê seria dizer que apenas as coisas extraordinárias têm importância. O contraclichê seria dizer que as coisas comuns não têm importância . A língua vive nos dando rasteiras e nem nos damos conta.

Na verdade, na gaveta das coisas importantes há tanto coisas raras quanto coisas simples, fáceis, numerosas. Há lembranças de momentos que só se viveu uma vez, e também registros de momentos que se vive todos os dias, numa rotina que se ama. Por que não se poderia amar rotinas?

Não é de se espantar que no ritmo louco do Tempo ("He", relembrando ainda as palavras de Alice, que classifica o tempo tão apropriadamente dada a sua personificação na sequência do filme), certas confusões tomam conta de nós assim como tomaram conta da própria Alice. Na realidade que nos rege, não são raras as vezes em que atribuímos pouca importância àquilo que deveríamos prestar atenção.

Todavia, é valioso lembrar que “importância” não está no S.I. (Sistema Internacional de Unidades), não tem parâmetro, não é palavra de significado comum. Etimologicamente, a palavra vem de importare (in mais portare) que remete a carregar. É, então, palavra para apropriação, usufruto, palavra para colar na tampa de caixas e potes de vidro “mui” particulares.

Dizer de algo importante não significa exatamente registrá-lo numa foto, erguer-lhe um monumento ou escrever-lhe um poema. Não é dar-lhe medalhas, não é estampar um jornal com suas cores, trancafiá-lo num museu. Compreendamos: não é verbalizar. Nem sempre é tirar a poeira, polir, lustrar essa coisa, que pode ser fato, lembrança, sentimento, uma folha amarelecida guardada dentro de um livro, agora e antes: marcador de página.

Conferir importância é reservar um lugar, às vezes um cantinho, pedacinho de memória, mas que se possa sempre carregar. Volta e meia um cheiro, uma palavra escrita, um nome de rua, um trecho de música, e pronto: aquilo, a coisa importante, vive em nós por alguns segundos novamente.

Dar importância a um fato, pessoa, coisa, bicho, lugar, causa, ideia é dar-lhe um “para sempre” dentro de nós. Dar importância é envelhecer a coisa junto a gente. É dar lugar, ainda que só (só?) no coração. Dar importância é guardar, calar, proteger das traças e das fabulações da memória. Se é importante para alguém, é importante. Acabou-se. Se é importante para alguém, de alguma forma alcançou o paraíso, transcendeu os planos, contrariou os ponteiros severos do relógio para sempre.


Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor. Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade. Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer.
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