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Letra e sentimento

Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor.
Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade.
Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer

Canção dos 30 anos

Na canção dos trinta anos eu entoaria um la la la despreocupado para celebrar a idade em que me dei a mão para dançar, e que me mostrou quem é essa mulher que agora canta enquanto escreve. Trinta anos. Dizem sábios escritores que é quando realmente sabemos o que queremos da vida. Coincidência ou não, desconfio que, se não descobrimos antes, é uma boa hora para nos perguntarmos. Trata-se de um tempo oportuno para perceber que o nosso caminho é só nosso, e que só a nós ele interessa.


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Normalmente não se espera chegar aos trinta anos e ainda estar à margem daquele amontoado de desejos e projetos feitos aos vinte. Mas se lembrarmos que "normal" não é uma boa baliza, já que dizem que "de perto ninguém [e nada] é normal", as verdades podem ser outras.

Uma das verdades é que uma década é suficiente para alterar a rota, o rumo, alguns aspectos da personalidade e, na sequencia, aqueles objetivos e sonhos.

Essas alterações de rota são, por vezes, muito bem-vindas e podem nos levar a nós mesmos. É aí que notamos que é natural mudar de ideia e estranho seria carregar por toda a vida o mesmo (pesado) fardo de ter sempre os mesmos anseios. Assim, trinta parece uma idade oportuna para analisar as consonâncias e dissonâncias do caminho que estamos desenhando. E para redesenhá-lo, caso queiramos.

Na canção dos trinta anos a primeira estrofe escrevo para dizer, com um tom "meio bossa nova e rock’n roll", que não estou no ponto onde queria.

Na segunda estrofe, logo após emendar um “...ainda” (backing vocal) eu vou cantar lembrando que depois de me perder pelo caminho e de consentir me sentir uma menina "com minhas meias três quartos" outra vez, pude então me sentir mulher o suficiente para me desfazer de alguns medos, inclusive da obrigação de dar satisfação.

Já criando o refrão, vou entoar um la la la despreocupado, dizendo que ainda tenho a vida toda para ser quem posso ser e para mudar quando as condições forem favoráveis, e principalmente quando não forem.

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Ao nos permitirmos crescer, percebemos que os parâmetros sobre sucesso e fracasso que balizam as ideias e fantasias que nos assombram são desleais e exigem que aos trinta as mulheres estejam casadas, pensando em filhos, e profissionalmente estabilizadas (porque “bem sucedido” até pouquíssimo tempo atrás era alcunha reservada aos homens, conforme o machismo), e principalmente lindas: nem parece ter trinta. Como se aos trinta não fosse tão natural ostentar beleza e jovialidade.

Tantas exigências e ditames sociais caminham na contramão da graça de ser mulher aos trinta, mesmo quando não estão presentes todos aqueles predicativos enumerados pela sociedade.

Ter trinta anos significa ter superado a noção de fragilidade que por ventura esteve associada à imagem da moça, ter superado alguns fracassos amorosos (tendo encontrado enfim o amor, ou não, ainda. Mas tendo sim, encontrado o amor próprio e se agarrado com ele).

Significa ter perdido o rumo profissional, talvez, e reencontrado ou não (mas aprendido um bocado sobre trajetória, paciência, tempo e perseverança).

Significa também se juntar às amigas e ver os filhos delas dando sequencia na amizade semeada na quinta série, e ser, de repente, a única solteira dentre elas e, ainda assim, manter a alegria e a graça que elas sempre encontraram em você.

Significa ter aprendido meia dúzia de receitas para cozinhar para si com louvor. Significa ser conselheira dos mais diversos assuntos das amigas a caminho dos trinta. Significa ser dona, muito dona do próprio nariz. Aos trinta anos muitas barreiras já caíram e a única baliza que importa é o que é que vai nos fazer felizes.


Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor. Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade. Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer.
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