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Letra e sentimento

Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor.
Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade.
Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer

O apelo silencioso do detalhe

Passamos pelas ruas apressados com a ligeira sensação de repetição: repetem-se as roupas, cortes e cores de cabelo, perfumes, designs de fachadas, modelos de carro e slogans. Nessa profusão de informações tão semelhantes, os traços de singularidade, que por vezes são escondidos e até rechaçados, resistem enquanto pontes seguras para nos conectarmos uns aos outros.


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Um detalhe é sempre um apelo tão despretensioso e discreto que costuma passar modesto, quase mudo e, muitas vezes, imperceptível por nós. Seja na paisagem, ofuscado por um dia de muito sol ou camuflado por uma infinidade de cores vibrantes, que sempre se sobrepõem às sutis; seja na frase cheia de palavras que escondem um sussurro, uma respiração ofegante e o bater mais forte do coração - suficiente e convenientemente protegido pela caixa torácica; presente na pitada daquela pimenta ou essência tão misteriosa que tornou a receita um primor, em uma ou duas gotas de um perfume que, suavemente, tornou um momento inesquecível, e só bem depois nos damos conta.

Nossos olhos não foram feitos para os detalhes que, claro, são ínfimos. Não foram feitos para esquadrinhar o todo e, ainda, o acréscimo dos anos lhes empresta astigmatismo, miopia, dentre outras limitações que nos obrigam a perder de vista o contorno das coisas (como de uma lua nova, por exemplo, que, mesmo sendo cíclica, sempre é ligeiramente diferente).

Nossos ouvidos tampouco foram designados para registros de sons abaixo de 20 Hz (corrijam os Físicos), e grande parte de nós é incapaz de conferir importância ou de registrar o silêncio entre as notas musicais, mesmo que este silêncio seja, conforme teria afirmado Debussy, a música de fato.

Nosso olfato e paladar, normalmente, não são capazes de captar as notas amadeiradas ou de frutas presentes em uma boa taça de vinho, a não ser que sejamos algum tipo de especialista no assunto. E o mesmo se processa com os outros órgãos dos sentidos, que não fazem de nós seres exatamente hábeis (ou dispostos) em nos conectar às pessoas, às coisas e às experiências diárias por meio da ponte de um detalhe. Pelo menos, não normalmente.

Detalhes não chamam a atenção dos nossos sentidos. Essa não é a regra. E uma das razões para tal é o fato de que a descoberta e a contemplação de um detalhe, seja ele de que natureza for: visual, tátil ou olfativa, exige tempo. O melhor exemplo é, de certo, uma obra de arte, que é melhor percebida quando a ela é dedicado tempo. E a atualidade não nos presenteia com abundância de "tempo", embora os dias disponham, cada um, de mais de mil minutos.

E, no entanto, mesmo nesse afã de padronização que é característica dos dias atuais, os pormenores ainda restam enquanto as verdadeiras e únicas marcas de singularidade, embora haja moldes para todo o tipo de coisa: padrões estéticos, linguísticos, comportamentais, padrões culinários, padrões de entretenimento. E são todas essas tendências, seguidas até mesmo religiosamente por alguns, que baseiam a sensação de repetição que podemos experimentar facilmente em um passeio por uma rua qualquer. Os ditames de moda, estilo e comportamento fazem com que os cabelos, as roupas, as cores, as formas, as frases e os trejeitos não alcancem um grande espectro de variação no mesmo espaço de tempo.

Na verdade, em boa medida, não é absurdo dizer que os detalhes têm cedido. Os detalhes que moram, por exemplo, naquela parte do corpo que foge à regra geral, em gestos e gostos peculiares, excêntricos. Estes têm sido extirpados, cirurgicamente, têm vestido a carapuça de "esquisitos", após terem sido chamados de forma eufêmica de "diferentes".

Os detalhes que moram em uma pinta do lado esquerdo do queixo, em uma marca de formato geométrico nas costas, na cicatriz na testa, no sorriso não corrigido pelos aparelhos ortodônticos, na mexa branca no meio do cabelo, no pé que julgamos desengonçado, no riso escandaloso, no sotaque, na regionalidade de alguns termos que empregamos nas nossas conversas, na roupa que escolhemos ao prezar mais o conforto do que a sofisticação, nos lugares que gostamos de frequentar... todas essas miudezas de estilo, atitude, de "jeitos de ser" que nasceram conosco nas cidades e lugares em que vivemos, por que passamos, em que nos formamos: todas essas marcas de singularidade têm sofrido, minimamente, "adequações".

Em uma ânsia (muito paradoxal) de nos destacarmos pelo que temos de semelhante às figuras construídas e etiquetadas enquanto ideais, esquecemo-nos de que os detalhes são o que nos resta da infância, o que sobrou do primeiro amor, da época da escola, da faculdade, da família em que nascemos ou nos criamos, dos sonhos que tivemos, da nossa naturalidade e nacionalidade. Esquecemos que os detalhes são o contínuo de experiências que são únicas e que, por isso, nos tornam únicos.

E dessa forma, desvestindo-nos de algumas de nossas particularidades, tornamo-nos, ao mesmo tempo, pouco capazes de detectá-las no outro e no mundo que nos cerca. Tornamo-nos menos propensos a reparar, contemplar, admirar as singularidades presentes nas outras pessoas, os detalhes que compõem as paisagens. Acostumamos nossos sentidos, que já têm tão pouca acuidade, a buscar pelas semelhanças, a valorizar o que está presente na maioria, a aceitar o que é familiar, à revelia daquele nosso discurso (ou do discurso que compramos) de que "todos os homens (ou todas as mulheres) são tão iguais e por isso, queremos alguém diferente". Queremos?

E é por isso que o apelo de um detalhe é sempre mudo, silencioso. É por isso que tem seus pudores, embora resista, mesmo quando é encoberto (o que não ocorre, infelizmente, quando é renegado, retirado, extirpado, desprezado, "corrigido"). Os detalhes, quando percebidos, aceitos, valorizados, contemplados, marcam a alma e com ela se comunicam, perfazem a essência das pessoas e das coisas. Tudo o que "é", é porque foi costurado originalmente pela agulha do detalhe, amarrado pelo laço de fita do detalhe. A bem da verdade, só o detalhe salva.


Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor. Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade. Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer.
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