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Letra e sentimento

Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor.
Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade.
Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer

Pequeno mapa dos sonhos

Os caminhos que nos levam até nossos sonhos são projetos muito particulares e que demandam uma série de ferramentas. Dentre essas nem sempre está a sorte, essa força abstrata que surge tão inesperadamente quando desaparece. Mas acreditando que existem oportunidades que se abrem para todas as pessoas em momentos mais ou menos alternados durante a vida, vale dizer que a criatividade e a assertividade são recursos que podem ser desenvolvidos e afinados com a realidade para a construção de um verdadeiro mapa dos sonhos.


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A página branca é sempre um desafio. Mas aquele que escreve costuma dizer a si mesmo, num convite, numa ordem: Vamos! Chega o dia em que as palavras fogem, ficam só as mais simples, despidas de plumas, secas até. Surpreendentemente, apresentaram-se apenas essa classe de palavras no momento de escrever sobre essa coisa fantástica: sonhar.

Não seria exagero dizer que existem dois grupos de pessoas: os que dizem sonhar, e os que dizem não ter sonhos (coisa para idealistas, para gente com pouca capacidade "realizadora"). Feita essa distinção, não há como saber muito, afinal é bastante comum que se diga o contrário do que se pensa, e claro, o contrário do que se sente.

Mas se caminhamos além do que dizem esses dois grupos, podemos nos deparar com uma possível verdade: o ato de sonhar, quando não se desenha voluntariamente, acaba se instalando involuntariamente nessa parte teimosa e pulsante, e por vezes dominante, na figura humana: o coração.

Ainda pequenos sonhamos com a boneca ou o autorama, os patins que os pais, por zelo ou impossibilidade, negaram. Naturalmente, lado a lado com os sonhos caminha, repetidamente, o inevitável "não". E é quando se depara com as primeiras negativas que parte das pessoas passa a integrar aquele grupo: os que não perdem tempo sonhando, ou que assim dizem.

Nesse grupo, não raro, toda vez que se ascende uma faísca de uma grande aspiração, logo são sacadas milhares de ataduras e mordaças para silenciá-la. Mas por mais que se tente dominar um grande anseio, ele tende a dar o ar da graça novamente.

Em contrapartida, no outro extremo, os assumidos sonhadores podem tomar dois caminhos: ou se encantam e inebriam pelo tamanho de seus sonhos, dispostos a sonhar ad infinitum, ou entendem que é preciso construir, pragmaticamente, as ferramentas para abrir o caminho até seu grande objetivo.

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Com isso, percebemos que os dois grupos de pessoas: os super sonhadores e os super pragmáticos podem, talvez, se encaixar naquele dito precioso do também precioso Ariano Suassuna: "o otimista é um tolo, o pessimista um chato". Não é difícil perceber que aos extremos ocorre facilmente se enganar.

E assim, chegamos ao terceiro grupo, que Suassuna chama de realistas esperançosos. Sem esperança não se pode sequer vislumbrar o desenho de um caminho. Todavia, uma vez munidos de esperança é fundamental a construção engenhosa de um mapa do caminho, lançando mão de nossos próprios recursos, que são incontáveis, para caminhar até o destino que nos faça felizes.

Os sonhos dos seres humanos são os mais variados possíveis e absolutamente muito particulares. Desde o emprego sempre almejado, o casamento imaginado, o lar desde sempre pensado, grandes obras em prol do ser humano. Os sonhos são o que elevam o homem e absolutamente todos são legítimos.

Vale dizer que entre as ferramentas de construir sonhos não se pode incluir essa coisa um tanto complicada de entender e que aparece tão inesperadamente quanto desaparece: a sorte. Contar com a sorte é eximir-se um pouco (ou muito) da responsabilidade que é inerente ao ato de sonhar.

E é aqui que parece se esclarecer o porquê de algumas pessoas silenciarem seus sonhos: não têm sorte. A verdade é que a sorte não é palpável, constante, e o mais oportuno seria conceber que existem portas que se abrem para todos em momentos mais ou menos alternados durante a vida, e são os mais assertivos os primeiros a encontrá-las e escancará-las.

Então existe, sim, a caminhada, o esforço, a assertividade e o tempo, que se alheia a nossa pressa. E o que a vida espera de cada um não é nada menos que coragem para se fazer feliz, como versou o grande Guimarães Rosa. E coragem não é coisa gratuita, não é o contrário de medo, é um munir-se sem fim, e tende a se esconder como alfinete no palheiro do peito. Mas é, sem dúvida, o grande "X" no mapa dos sonhos.


Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor. Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade. Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer.
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