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Letra e sentimento

Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor.
Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade.
Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer

Quem nunca se perdeu?

Tal como Alice, perdida no País das Maravilhas e questionada pelo Gato de Cheshire, quem nunca teve a dúvida: "Para onde você quer ir?". A vida nos coloca diante de uma série de escolhas e possíveis caminhos e é natural que em qualquer parte da caminhada surjam dúvidas. Contudo, para além da angústia de nos sentirmos perdidos, a dúvida também se configura enquanto ensaio de feixes de luz.


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Quem nunca se perdeu pelo caminho? Como Alice que, perdida, achou mesmo que qualquer lugar bastaria contanto que chegasse lá e, assim, ouviu do Gato de Cheshire que para quem não sabe aonde quer chegar, "pouco importa o caminho que tome."

O grande Paulo Mendes Campos alertou, em uma bela crônica de nome Para Maria da Graça, que Alice no País das Maravilhas é um livro cujo sentido pode ser encontrado em cada pessoa que o lê. E se constitui, dessa forma, um livro que contém dois livros: um maravilhosamente contado dentro e para o universo infantil, e um segundo livro, que consiste numa bela metáfora de dilemas perfeitamente adultos, afinal a sensação de perda do caminho diante de uma encruzilhada pode acontecer a todos nós mortais em qualquer fase da vida, talvez principalmente na dita vida adulta.

Ainda no livro, Alice lança mão de quantas estratégias se lhe apresentam, diminuindo e aumentando de tamanho para caber em estreitíssimas portas (as passagens), e para alcançar chaves estratégicas. Durante toda a história, uma frase entoada repetidamente pelo Coelho Branco martela o pensamento de Alice e o do espectador: “Ai ai, meu Deus. Alô, adeus! É tarde, é tarde, é tarde!

Uma questão central parece nos fazer identificar com a pequena criança da história: a angústia de estar perdido e a sensação da passagem impiedosa do Tempo, este que pode ser escrito com letra maiúscula, pois mais tarde se torna uma personagem na sequência da estória, dada a sua importância.

Todavia, conforme o livro avança fica claro que o receio de estar perdido e a urgência de abandonar esta condição parecem varrer, literalmente, os indícios de caminho (o já traçado e aquele a percorrer), e é necessário parar por uns momentos. Aí é que a pequena Alice chora um rio de lágrimas no qual quase de afoga. E é sobre isso que nos diz, mais uma vez, Mendes Campos em sua carta Para Maria da Graça, carta-crônica que este lhe escreve de presente quando ela faz 15 anos, e que contém algumas "sabedorias de bolso": É preciso ter cuidado para que a pressa e o medo não destruam a nossa esperança e interfiram negativamente no nosso trajeto.

É natural que durante a vida levantemos questionamentos sobre nossa caminhada: estaria correto o rumo? O ritmo? E o mais importante: quais são os motivos mais internos que nos fazem caminhar em determinada direção? E sobretudo: estamos felizes com esse rumo tomado?

Diante de tais inquietações, que são bastante desejáveis, é importante, então, parar por uns momentos. Nem sempre caminhar rumo a um grande objetivo ou rumo à felicidade (coisas que nem sempre são sinônimas) significa andar para a frente. Caminhar inclui avançar tanto quanto inclui parar para descansar e refletir, dar passos para o lado ou para trás e significa, também, desistir se o caminho que estamos fazendo não coincide com nosso desejo mais genuíno. E identificar esse desejo mais genuíno não é uma tarefa fácil, pois ele fica escondido, muitas vezes, sob o pó das responsabilidades, pseudo-obrigações e conveniências que são inerentes à vida de todos nós.

Contudo, uma maneira de sentirmos um pouco de tranquilidade para nos entregarmos a uma vereda, talvez seja justamente nos questionarmos. As dúvidas não precisam ser temidas, pois lançam feixes de luz. E ainda: como é sabido que as escolhas convergem com renúncias, cabe pensar o que restaria mais doloroso de se renunciar. E se, ao tomar um rumo, em qualquer parte do caminho tivermos a certeza de não ser este o certo, quase sempre é possível retornar.

Cercarmo-nos de certezas não será possível em nenhum momento da nossa trajetória porque a realidade é viva, inconstante e alheia às vontades individuais. É importante ter a clareza de que, por vezes, o medo e a dúvida pousarão suas mãos compridas e gélidas sobre nossos ombros tentando atingir nossos corações. E este será o momento de empreendermos os esforços de que somos capazes e utilizarmos nossas ferramentas emocionais para não nos entregarmos ao desespero. Para tal, podemos contar com alguns lembretes que podemos colher na poesia, como a de Fernando Pessoa (pessoa também): "Ninguém nunca se perdeu. Tudo é verdade e caminho".

Sentir medo, ter dúvida e errar a direção também encorpam a nossa experiência, alargam nossos horizontes, endurecem as plantas dos nossos pés, e, curiosamente, nos fortalecem e nos premiam com coragem, essa coisa meio comparável à fé, um verdadeiro estado de graça.


Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor. Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade. Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer.
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