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Letra e sentimento

Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor.
Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade.
Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer

Sobre o amor inventado

Em um primeiro olhar, o amor inventado que canta - mais de uma vez - Cazuza, vai na contramão da ideia de amor romântico na medida em que o poeta diz que esse amor é uma mentira, na música que também é uma "Estória Romântica". Mas ao mesmo tempo, ao afirmar que adora um amor inventado, Cazuza também tece a possibilidade da invenção do amor enquanto uma maneira de amar, talvez exagerada, mas possuidora da sua verdade.


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Cazuza, ao nos presentear com a canção O Nosso Amor a Gente Inventa há décadas atrás, nos coloca diante de noções pouco previstas no terreno do romantismo, embora a música trate, sem dúvida, de uma "estória romântica".

Logo nos primeiros versos nos deparamos com o amor que é dito ser uma mentira, uma poesia de cego, ou seja, algo que apesar da beleza não pode ser visto, que não possui uma estrutura imagética justamente porque é absolutamente subjetivo, impossível de ser completamente exposto ao objeto do amor, e ainda, talvez impossível de ser completamente clarificado para quem sente.

Muito embora o amor encontre muitas definições e seja entoado pelas canções e versos como um sentimento infinito, enquanto encontro de almas, enquanto paz de espírito, ou outras vezes como uma constante guerra, o amor não pode ser enquadrado, posto numa moldura, olhado por todos os seus ângulos. O máximo que podemos fazer é tentar atribuir-lhe algumas características, que poderíamos, quiçá, chamar de universais.

Pensemos no amor enquanto infinito. Por vezes, quando nos voltamos para nosso histórico de “amores”, pode acontecer de nos perguntarmos: era amor? Como saber, depois que aquele sentimento se transformou em amizade, em lembrança carinhosa, ou em desprezo?

Ao imaginarmos o amor enquanto infinito, vale lembrar os versos do poeta Paulo Leminski, quando nos diz o seguinte: "O que eu sei/ é que [o amor] se transforma/ numa matéria-prima/ que a vida se encarrega/ de transformar em raiva./ Ou em rima." Dito isso, talvez não seja possível conceber que o amor seja infinito, pois o amor pode se transformar, inclusive, no seu contrário.

Nos campos da paz e da guerra o amor encontra terreno em ambas as condições: há quem julgue que ama quando encontra paz ao lado de outrem, e há quem julgue que ama exatamente quando não encontra essa paz, mas um mar de desafios. Logo, o amor não pode ser sinônimo de um ou de outro.

Concebamos então o amor de que nos diz o poeta pensador: o amor inventado. Por um lado, ocorre facilmente inventarmos um amor de maneira artificial, por exemplo: quando temos medo de ficar sós, quando temos profundo anseio por um encontro romântico, por um matrimônio, por filhos, pela ideia de felicidade que só pode ser encontrada na completude de um par.

Inventamos o amor, de maneira artificial, quando queremos demasiadamente amar. Quando queremos demasiadamente ser amados.

Por outro lado, também inventamos o amor de forma genuína quando abrimos nossos corações às novidades do encontro a dois, às surpresas de conhecer e se dar a conhecer. De modo que o amor é sempre, em grande medida, inventado, até que que essa invenção alcance contornos que lhe sustentem diante da realidade e dos impasses que sempre se apresentam.

O amor enquanto invenção não é um problema. Pelo contrário: nos deparamos aí com a característica universal do amor. O real obstáculo se interpõe no momento em que essa invenção se despoja dos aspectos mais crus que permeiam as relações amorosas, no momento em que rejeita o desencontro que reside no próprio encontro, no momento em que nos deparamos com as outras faces do grande polígono do outro e fugimos ao diálogo com tudo aquilo que não estava previsto nas nossas idealizações.

O desencontro do amor é parte do amor e é, especificamente, a corda bamba das relações. É o momento em que o amor se estampa diante de nós enquanto invenção amparada pela possibilidade de realização dentro de uma realidade, ou enquanto invenção frágil prestes a ruir, sustentada por não mais que fantasias.

“O nosso amor a gente inventa”, mas também é possível amar um amor inventado. _ foi Cazuza quem disse. É possível sustentá-lo com cuidado desde que ele nos faça o melhor que pode ser feito, que nos desperte o desejo de fazê-lo crescer e crescer com ele, de fazê-lo durar, desde que nos desperte o desejo de multiplicá-lo e desde que encontre no outro - ou seja, no "par" - um desejo semelhante.

O amor é a invenção mais original possível e, por isso mesmo, demanda reinvenção ao longo de toda a vida.


Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor. Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade. Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer.
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