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Letra e sentimento

Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor.
Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade.
Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer

"tome conta do que vai dizer"

Dizer é algo sinuoso, é um jogo em que é preciso encontrar no acervo da língua e da linguagem nomes em que caibam nossos desejos e emoções. E por isso enunciar é uma aventura cheia de encontros. E de desencontros.


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Existir implicar pensar. Implica sentir. Implica comunicar. E comunicar, aqui, significa ser absorvido pela Língua e seus ditames. Existem nomes (com significados e sinônimos que lhes são intrínsecos) para tudo que se queira dizer, o que significa que existe uma gama limitada de recursos para nomear o que quer que seja.

Assim, comunicar é um desafio. O que se diz pode estar aquém do que se deseja dizer e, por ventura, além. E o que se compreende, então? Se somos seres de encontro, é na impossibilidade da comunicação que nos tornamos também seres de desencontro.

Nas terras ermas da possibilidade de encontrar, circunscreve-se o campo do amor, cercado por milhões de teorias e, por isso mesmo, talvez um tanto fora do campo da compreensão.

Ali, adentramos todos vestidos com mil conceitos, teorias, estórias, frases, músicas e ditos. Tanta roupagem tecida pelo fio da linguagem que, não raramente, não nos vemos.

Ali - no campo do amor - nos desencontramos, às vezes irremediavelmente, fiados em nossos discursos geradores de expectativas que não confluem, que não se dão as mãos. A natureza do amor (e pensando a palavra natureza em seu sentido etimológico num exercício valioso) descombina-se e desprende-se da sua conceituação.

A nomeação das coisas imprime-lhes possibilidades e impossibilidades de uso, aceitação e apreensão pelo discurso. E, talvez por isso, não se possa dizer, por exemplo, de alguém pouco dado a romantismos um alguém amoroso, se (e somente se) aceitarmos que romantismo e amor são sinônimos. Aliás, o jogo dos sinônimos se refere a mais um risco no manuseio da linguagem.

Das inúmeras possibilidades de experimentar e de sentir a realidade, poucas são as possibilidades vernaculares de expressá-las. Basta recorrer à memória para resgatar um dia, fato, objeto ou cenário que tenha despertado uma emoção tão intensa que não se pôde resumir a uma palavra. A tais momentos, alude o grande poeta Manoel de Barros, quando diz que o nome "empobrece a imagem".

Das inúmeras possibilidades de encontro criadas pelo acaso nos momentos absolutamente mais improváveis, o desencontro é o destino final para a grande maioria. Porque se disse pouco, porque se disse demais, porque esperou-se pouco, porque esperou-se demais. Porque compreendeu-se pouco. Nunca demais.

598.jpg Brochura vetore desenhado por Vectorpocket - Freepik.com

Enquanto falamos, nos aventuramos. Essa terra de elementos vivos, ocultos, místicos, fantásticos, afiados que constitui a Terra da Linguagem é um risco, de fato. Cada vez que falamos ou silenciamos incorremos na possibilidade da incompreensão, na medida quase exata da chance de sermos compreendidos.

A língua é viva. E é ela quem pode criar e destruir as pontes entre as pessoas. Um palavra dita ou não dita, gesticulada ou dominada, e o desencontro se materializa.

Trapacear com a língua, deste modo, parece coisa justa. Mas não é tarefa fácil. Se existem vias de contorno da incompreensão, é pelo caminho tortuoso da linguagem: conhecê-la para dominá-la. Para "errá-la", inclusive. Duvidar da nossa capacidade de comunicar, duvidar da nossa capacidade de compreender e assim, criar, artesanalmente, mais receptores para decifrar mensagens. Demande o tempo - essa medida tão individual - que demandar.

E até lá, se a gramática nos oferece regras, a música nos dá conselho: "tome conta do que vai dizer".


Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor. Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade. Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer.
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