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Letra e sentimento

Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor.
Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade.
Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer

Fabulosas Máquinas do Tempo

Basta um perfume, um som, um objeto que - inesperadamente - se apresenta aos nossos sentidos para que sejamos transportados de forma instantânea para um outro lugar, dia, mês e ano. Máquinas do Tempo são as miudezas que abrem a porta para que a lembrança nos alcance com seus pés ligeiros e nos devolva a nós mesmos.


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Se admitirmos que, para que possamos guardar um fato, uma cena ou a lembrança de alguém, é preciso que tenhamos - por um momento - ofertado-lhe nossos sentidos, admitiremos, por consequência, que melhor lembramos daquilo que despertou em nós o desejo de ouvir, de olhar mais de uma vez. Melhor lembramos daquilo que reverberou em nosso coração enquanto um som, que se cristalizou enquanto cena resumida em um espectro de cor, e que, não raramente, nos fez sentir e guardar um perfume.

Lembrar é resgatar essas experiências. Sensoriais. E é, principalmente, ser resgatado por miudezas: uma colcha de retalhos colorida exposta numa vitrine de uma loja de artesanatos, um vestido azul claro no mesmo tom daquele preferido da sua avó, o som da campainha de uma casa antiga, o cheiro de amaciante das roupas que quaram num varal qualquer (e no varal da sua infância). Essas impensáveis Máquinas do Tempo que nos assaltam no meio de um dia de trabalho, ao sair para almoçar, nos mudam momentaneamente de lugar, de dia, mês e ano.

A lembrança mora em nós. Muitas vezes, se esconde em nós. Porque a memória é delicado souvenir, tal como uma louça antiga, um relicário que, exposto à violência do cotidiano, desbotaria facilmente. Por isso guardamos. Querendo ou não. É da natureza humana guardar, poupar aquilo que possui especial valor.

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Não só as coisas e objetos detêm esse poder de nos fazer lembrar, mas também essas experiências do sentido. Pois, inadvertidamente, guardamos o cheiro que inundou o dia em que nos apaixonamos pela primeira vez, que era o perfume que exalava uma velha árvore da praça. Guardamos a cor da tinta em que foi escrita num muro qualquer a primeira palavra que lemos – azul! Guardamos o som da buzina e o ronco do motor do primeiro carro que o pai conseguiu comprar, do sabor do doce de laranja que a mãe, segundo suas próprias palavras, só conseguiu fazer bem feito uma vez na vida. O cheiro das carteiras velhas da escola em que nos sentamos por anos a fio.

Esses objetos e cheiros, cores e sons vão nos encontrar sem aviso, pela vida afora, nos fazendo perceber que somos feitos dos detalhes que se alojaram em nós, dessas delicadezas que têm função de resgate. Resgate de quem somos. Afinal somos como a colcha de retalhos exposta na vitrine, compostos por sentimentos criados, conservados, impostos pelos grandes e pequenos momentos a que nos entregamos, costurados pelo fio do tempo.

A memória é bem mais que um processo fisiológico, ela é tecida por muitos fios, que se entrelaçam de maneira inequívoca e que superam o espaço temporal. Adélia Prado nos diz que “o que a memória ama, fica eterno”. Então a lembrança seria um modo particular e involuntário de forjar o tempo, domá-lo por uns instantes, manejar os seus ponteiros. A bem da verdade, apenas de uma forma despretensiosa como essa seria possível enganar - ainda que brevemente - o tal Tempo.

Talvez não seja absurdo dizer que as lembranças que evocamos são diferentes daquelas que nos alcançam com seus próprios pés. As primeiras, as que buscamos, muitas vezes por meio de esforços, estão expostas ao risco da fabulação, do preenchimento dos espaços em branco que, com o tempo, se instalam no meio desses retalhos.

Los Hermanos, em mais uma canção fantástica, interpretada pelo ímpar Rodrigo Amarante, cantam "que o esforço para lembrar é a vontade de esquecer”, o que pode significar que aquilo que exige esforço para vir à tona pode estar ficando para trás, irreversivelmente.

Diferente, a lembrança que invade nossa tarde de domingo ou a noite de quarta-feira não depende do nosso interesse em convocá-la porque jaz - paradoxalmente - viva. Quando ela, a recordação, nos vem de encontro caminhando, correndo, intimada pelos sentidos, objetos, pessoas, ela vem na sua vestimenta mais original. Esta sim: a grande janela do tempo que rebobina a fita de repente, que opera em slow motion, que traz à tona coisas impossíveis de acessarmos só com o nosso desejo. Esta sim: Máquina do Tempo que nos devolve a nós mesmos, instantaneamente.


Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor. Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade. Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer.
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