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Letra e sentimento

Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor.
Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade.
Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer

Bohemian Rhapsody: o mundo pertence aos ousados

O mundo pertence a quem compreende que existir não é passivo. Pelo contrário, viver exige. É preciso dar ao mundo. E não apenas esperar dele.


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“A fortuna favorece os ousados”. É uma frase do filme Bohemian Rhapsody que abriu as portas para algumas reflexões oportunas sobre como se associam coragem e realização pessoal. Não raramente, assim são disparados os gatilhos das reflexões: no cinema em plena segunda, no ponto de ônibus no fim do dia, ouvindo uma música pela primeira vez. As inquietações não foram educadas para saber aguardar.

O filme traz um recorte bonito da história daquele que foi um dos maiores vocalistas de todos os tempos. Um gênio. Um desajustado. Um primeiro e, possivelmente, também um último olhar sobre a figura extraordinária de Freddie Mercury poderia nos fazer assim defini-lo. Gênio, dada a sua originalidade inquestionável e vibrante. Desajustado, partindo de um referencial que pode considerar desajuste simplesmente aquilo que não se encaixa na normalidade, algo que extrapola, que não cabe.

Mas para além de genialidade e desajuste, há algo que chama ainda mais atenção. E trata-se justamente da maneira como Freddie se posiciona ante a sua enorme habilidade em cantar e inovar. E é, sem dúvida, um posicionamento de pura e genuína ousadia. Algo, talvez, ainda além da própria coragem. Uma coragem que não se interroga.

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Em uma sociedade que taxa qualquer forma de excesso enquanto algo fora do normal, parece ser necessária uma espécie de chama interior inextinguível para sustentar o "exceder". Esse exceder que não se ajusta, que se sabe diferente, mas quem nem sempre associa-se naturalmente à coragem, à ousadia. E é essa fórmula - talento e ousadia - que provavelmente compõe a genialidade.

Genial e extraordinário é tudo e todo aquele que não pertence à esfera do comum, do ordinário, do perfeitamente equilibrado. E ainda é preciso mencionar que é essa ousadia a condição para a entrega necessária. Uma entrega que, quando não existe, facilmente pode travestir o gênio de exótico, estranho e esquisito. Assim poderia ter sido com Freddie Mercury, não fosse o fato de que ele se sentisse tão confortável na própria pele, nas próprias vestes e com o próprio talento.

Em uma cena notável, Freddie diz a Mary, então sua companheira, que se sentia exatamente quem nascera para ser e que não tinha medo de nada. A sensação de não ser incipiente, de não dever para si mesmo uma exploração de suas potencialidades o eximia de todos os receios.

A entrega é o que sustenta o destino de um alguém talentoso. E entregar-se não é tarefa fácil, simplesmente porque entrega não pressupõe nenhum tipo de garantia. E é mais fácil abster-se, dado que o roteiro de uma vida normal não supõe que, para ser feliz, seja necessário mais que os ideais de beleza, família, emprego e riqueza.

Não está escrito em praticamente nenhum conto clássico infantil, em nenhum guia prático ou gibi, que, para sentir-se realizado – feliz – é preciso procurar no palheiro do peito a agulha daquilo que nos desperta interesse, curiosidade, dúvida, respeito e encanto.

Trazendo a reflexão para mais perto da esfera do comum, vale dizer que grandes habilidades que, por ventura, boa parte senão todas as pessoas possuem, podem evoluir ou atrofiar em decorrência de uma dedicação ou uma negligência. E que talento se refere à grande habilidade que se tem paixão ao executar, e que desperta a sensação de ter nascido para realizar. Talento é da tecitura da paixão. E paixão é um modo de se viver que não possui meios termos.

A cultura muda conforme mudam as fronteiras de cada país, e às vezes muda conforme muda a fronteira das cidades, dos bairros, dos muros das casas. E poucas dentre as culturas vigentes na atualidade pós-moderna relacionam felicidade com um preenchimento interno e singular que não é outra coisa senão a própria evolução do sujeito.

Freddie Mercury sabia disso. O Queen sabia disso. E soube no momento em que optou manter o nome e todas as características de uma música que, a princípio, “não fazia sentido” para a crítica e empresários da época: Bohemian Rhapsody, que mais tarde daria nome ao filme biográfico do vocalista.

Freddie Mercury, mas não apenas ele, como também Cazuza e alguns outros nomes da música, da pintura, da literatura. Mas não apenas das artes, mas também da Medicina, da Educação, do Jornalismo. Mas não apenas das vertentes acadêmicas. Mas também do trabalho manual, rotineiro e dito simples. Uma grande habilidade somada a uma entrega sem receios é capaz de mudar o mundo. E de marcar a história.


Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor. Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade. Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer.
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