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Letra e sentimento

Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória").
Uma apaixonada por café, vinho e flor.
Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade.
Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer

É proibido ficar sozinho? Um olhar sobre o filme The Lobster

O filme The Lobster se refere a uma história nonsense que, em dado momento, é capaz de provocar naquele que a assiste o seguinte e paradoxal insight: faz sentido.


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Muitos comerciais, músicas e produtos parecem querer dizer a todo instante que não fomos feitos para ficar sozinhos. Porém, mais do que um desprezo e um temor pela solidão, a grande questão é até que ponto os ditames culturais minam nossa capacidade de fazer escolhas individuais.

Ao se fazer uma breve análise comparativa, é possível inferir que as páginas da atualidade parecem conduzir a um novo e rasante mergulho em um passado não muito distante - à força "esquecido" - e alcunhado enquanto "era dos extremos" por Eric Hobsbawm. O século das grandes e violentas guerras dividiu todo o mundo em dois grupos.

Não obstante, longe de se ater a esferas político-ideológicas, o presente momento tem ainda exigido - ou no mínimo sugerido - um posicionamento cujos lados da moeda são: de um lado amor e romance - ou melhor, relacionamento - e de outro a solidão e a individualidade, abarcando todas as renúncias cabíveis em qualquer dos casos.

Dessa forma,o filme de Lanthimos se insinua entre um conto fantástico e uma dura metáfora dessa realidade. The Lobster - O Lagosta, seu título no Brasil - nos apresenta uma caricatura do sujeito atual: proibido de permanecer sem par, deve conseguir um novo relacionamento em 45 dias, sob o risco de deixar de ser humano. Nessas condições vários casais se formam a custas de pressões e forjamentos.

No filme é apresentada também uma outra opção - subversiva e marginal - que é a de permanecer sozinho junto a um pequeno e rebelde grupo de "solitários" que vivem escondidos em uma floresta. Mas sob, é claro, uma outra condição: é proibido se apaixonar e se envolver com alguém, sob o risco de sofrer torturas inimagináveis e mutilações.

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Não há meios termos, apenas extremos na história melancólica e algo poética (muito, em parte, devido a sua bela trilha sonora). É imperativo escolher. Mas por quê?

Nesse âmbito a obra parece refletir uma dificuldade - que não é nova - em compreender aquele que pensa e age "fora da caixa". Daí a necessidade de cortar para caber.

Por fim, a obra nos coloca diante da angústia do sujeito frente à renúncia inevitável e inerente ao imperativo de escolher. Mas, muito além disso, nos precipita uma reflexão acerca da ilusão da escolha.

Até que ponto nos portamos e assumimos enquanto sujeitos de nossas ações e escolhas e até que ponto entregamos nossos destinos à vigência cega de uma cultura que impera - evoluindo e involuindo - sob a égide de forças impossíveis de se determinar?


Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"). Uma apaixonada por café, vinho e flor. Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade. Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer.
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