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Letra e sentimento

Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor.
Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade.
Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer

Aos sonhadores

Sonhadores são indivíduos que fazem parte de uma subespécie humana, ou seja, um grupo de indivíduos distintos, em geral isolados, que representa um passo em direção a uma nova espécie, embora ainda sejam capazes de intercruzamento, conforme referências taxonômicas.


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Sonhadores. Dreamers. Trata-se de um tipo de gente. Um perfil muito específico que nasce com um resto de asa no canto dos olhos, o que comprometerá para sempre o seu modo de vislumbrar as coisas. E isso é irreversível.

Essa alteração no olhar tem dois lados: o lado que eleva o desejo a patamares inimagináveis e que transforma o sujeito em sujeito desejante, sujeito que quer, que não se mortifica, que se não se entrega ao fluxo, que não se sujeita. Mas há o outro lado: o lado que fará com que o sujeito desejante corra um alto risco de se frustrar.

Não, uma coisa não existe sem a outra. São, literalmente, dois lados de uma mesma moeda.

A notícia boa, no entanto, existe e reside nisto: apesar de doer, a frustração não é letal e provoca, ainda, outros sintomas colaterais, que são, paradoxalmente, a própria cura. Estes são variados e podem ser mais ou menos intensos, a depender do volume que o resto de asa ocupa nos olhos do sujeito, e ainda, se ocupa um ou dois dos olhos.

A frustração dói. Muito. E dói tão imensamente porque evoca o peso da responsabilidade do dreamer. Sonhadores sabem que não é papel do Destino a realização do sonho. É sua incumbência. Falhar é admitir que não foi dessa vez, é admitir que se errou, que se fez pouco, que não se fez o suficiente, que não se checou todas as oportunidades e veredas possíveis.

E a responsabilidade pesa. Muito. Mas é tão importante quanto necessária nessa “odisseia terrestre”. Sem que se responsabilize por alguma coisa, pessoa, desejo, ou o que for… o sujeito tende a permanecer uma eterna e completa criança, um ser infantilóide, um projeto de Peter Pan que brigará para sempre com a realidade.

Ser criança é lindo. Mas também é lindo crescer. Amadurecer. Tentar. Falhar. Tentar de novo. Conseguir. Para saber, em seguida, que essa é a única forma de se superar, o que parece ser o propósito desta passagem aqui neste planeta. Vide livros. Todos. Literatura, ciência, religião, filosofia. Está lá, dito das mais diferentes formas.

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Fato é que não existe um remédio, receita, floral, terapia - natural ou não -, e nenhuma espécie de emplastro ou bálsamo que alivie a frustração, especialmente naquele momento “logo depois”. Mas há, por outro lado, uma espécie de baluarte.

Baluarte, se significa “lugar seguro”, existe sim. E o dreamer sabe que lugar é este. Tão específico e tão particular que o “não dreamer” não consegue sequer vislumbrar. Mas é esse lugar seguro que oferece aos sonhadores condições de se refazer.

Esse lugar, na maioria das vezes, se encontra alguns passos atrás do lugar em que se está, e por isso é tão amedrontador. Mas é onde se escondem as pontes imprevisíveis, se elas existem. É onde estão os dirigíveis. As catapultas. Os arcos para as flechas que nascem a todo momento na cabeça e no coração dos dreamers - e que as aguardam, perenes e seguros.


Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor. Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade. Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer.
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