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Letra e sentimento

Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória").
Uma apaixonada por café, vinho e flor.
Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade.
Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer

Carta aberta à minha amiga

Uma carta, dessas antigas.


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Eu sei que hoje, assim que abriu os olhos, suspirou e pensou no sacrifício que seria ter um dia exatamente igual ao de ontem. Sem tempo de preparar um café da manhã de um jeito que lhe seja um carinho na alma, correndo por corredores e sendo atropelada por gente que não pede desculpa. Ouvir as buzinas agressivas cortando o ar do fim da tarde, harmonizando com as expressões das pessoas dentro dos carros e pelas calçadas.

Eu sei que às vezes você abre alguma gaveta emperrada para buscar alento em souvenirs do passado: a agenda que os amigos autografaram no colégio, a fita do Senhor do Bonfim que aquele menino trouxe para todos da sala, mas que você recebeu como se fosse um bibelô exclusivo, as fotos antigas. Sei também que você se ressente porque os trópicos já foram mais calorosos na sua memória, porque você diz “bom dia” mas nem todo mundo ouve nem responde. Cansada física e emocionalmente você segue a rotina à risca. Às vezes se dá o direito de não cumpri-la por uma certa rebeldia bastante legítima sobre não ser tão obrigada. Uma pausa para um café e uns pensamentos.

Sei que usa o tempo no ônibus para pensar nos desafortunados, e que quando dirige no domingo sente uma certa paz. Sei que toda vez que volta tarde de uma festa tem medo de tudo e todos, como se a rua fosse uma grande ameaça, e nessas horas se lembra de quando não voltava sozinha. Às vezes você lembra com mágoa de coisas que passaram, outras vezes grata pelos aprendizados. E sei que a vida te deu de presente algo muito especial, que você não teria sem todos aqueles momentos difíceis.

Sei que no fundo você se sabe uma mulher bastante forte e que tem muito respeito por si. Sei que você não compreende muitas das coisas que você vê no dia a dia, não porque não seja capaz, mas porque seu coração não lhe concede compreender. Porque mesmo que você não seja uma romântica, ainda acredita na delicadeza do afeto. Embrutecidas as pessoas cruzam com você passando pelos mesmos dilemas, muitas vezes. Desesperançosas e desencantadas. E apesar de a cobrança ser enorme, você tem tirado de letra. A custa de olheiras, é verdade, além de dores tensionais e muita impaciência. Mas ao se deitar, no fim desse tipo de dia, eu sei que você suspira.

Por isso, apesar de eu não ter nenhuma certeza, acho que você deveria regar as plantas, as do jardim e do seu peito, porque essa jardinagem ensina a esperar pelas flores, sem esquecer de tirar folhas secas e até de usá-las como adubo. Acho que você deveria lavar os cabelos com um shampoo daqueles que espalha o cheiro a cada movimento de cabeça. Fazer um chá para si a noite, e de manhã um café bem aromático.

Acho que você, ao invés de se embotar, poderia dedicar a você esses desejos de bom dia que tem batido nas paredes e morrido sem resposta. Acho que você pode dizer não ao seu próprio desencantamento, já que não dá para dizer não o tempo inteiro ao desencantamento das pessoas. Acho que você pode fazer pequenas pausas, mas continuar andando. Um poeta disse que nas curvas do caminho, lá onde não vemos, é que estão os araticuns maduros. Então, vá dobrando as esquinas.

Acima de tudo o que pensamos, a vida é viva, e o tempo é um menino brincalhão, bem humorado e que adora fazer surpresas. Então, minha amiga, regue suas plantas e dobre as esquinas. Com delicadeza e afeto.


Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"). Uma apaixonada por café, vinho e flor. Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade. Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer.
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