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Letra e sentimento

Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória").
Uma apaixonada por café, vinho e flor.
Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade.
Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer

Joker: uma ode à sétima arte

Um dos filmes mais artísticos dos últimos tempos. Atenção: contém spoiler!


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Há muitos modos de olhar uma cena. Afinal absolutamente tudo tem, pelo menos, três lados.

Dessa forma, o que se dirá de um filme inteiro, com milhares de cenas com construções complexas, como Joker? Uma característica, contudo, se sobressai no longa: o filme de Toddy Philips, na contramão de sua longa lista de comédias como as sequências de The Hangover, namora de uma forma absurda a melancolia, casando-a com uma tragicidade na qual o pano de fundo é a estória de um determinado palhaço.

Isso está claramente presente a cada segundo da obra, tanto na composição de cores fortes e vibrantes como a da cabeleira verde do palhaço que veste Arthur Fleck sobreposta a uma Gotham com tons de cinza e marrom nas primeiras cenas, quanto na última cena no Asilo Arkham com seu fundo branco gélido no qual se estampam os rastros vermelho-sangue de um criminoso.

Não é a primeira vez que a tristeza e a comédia se entrelaçam numa dança artística nas telas. Muitos são os seus representantes. Mas Joker não se refere a uma tragicomédia. É, antes de mais nada, uma ode à sétima arte, com uma bela trilha sonora que contou inclusive com Frank Sinatra, uma fotografia extremamente comovente, uma direção e roteiro subersivos e ousados, e uma interpretação que é capaz de arrancar todas as palavras da boca do crítico mais eloquente até restar só o silêncio. Esse silêncio da contemplação que apenas a arte genuína é capaz de provocar em nós.

Que existam aspectos sociopsicológicos a ser considerados é óbvio, sendo numerosos os socos no estômago vindos de todos os lados desferidos contra o telespectador, exposto a um retrato duríssimo, mas que alude de forma inequívoca à própria realidade dos tempos de banalização da violência que acompanham o nosso século, e o século anterior.

E aqui vale dizer que toxicidade é uma palavra da moda e que vem sendo aplicada a diversos contextos. Mas a violência e sua retratação não são novas no cinema, tampouco é nova a discussão sobre sua banalização. As teorias sobre as funções da arte são variadas, mas talvez seja possível dizer que os menores de seus atributos sejam o dogma, a justificativa ou mesmo a explicação. Pelo contrário. O caminho da arte, da verdadeira arte, é o inverso.

É aqui que se divorciam arte e ciência, arte e religião. E é possível, e mesmo necessário, olhar uma obra de arte rejeitando rótulos e diagnósticos desnecessários.

Por fim, a complexidade do personagem é outro ponto que torna o filme, enquanto obra, fascinante. Joaquin Phoenix não surpreende, tamanha sua genialidade em outros papéis em filmes como Her e Walk the Line, só para citar alguns. Mas ele se supera.

A sua interpretação é de pura genialidade na quebra do exoesqueleto de um sujeito completamente encarcerado em uma figura magra e aparentemente frágil, um tanto quanto infantilóide e absurdamente triste, melancólico, sofrido, mas com um olhar e pequenos gestos (especialmente nas cenas em que Fleck fuma) que denunciavam ligeiramente que, ali dentro, aquele homem guardava um outro.

Phoenix oferece cem por cento de si para essa quebra, para essa cisão entre Arthur Fleck e Joker. E a cena da escadaria é o clímax desse estilhaçamento do sujeito atravessado, que descendo ao subsolo de si, será agora o sujeito que vai atravessar. É a transição entre o sujeito que morre várias vezes e o sujeito que vai matar friamente, sem arrependimentos posteriores. Assistir a uma interpretação desse nível é algo com poucos precedentes.

Joker não é político, não é científico, não serve à moral ou a doutrinas. É sim, provavelmente, um dos filmes mais artísticos dos últimos tempos.


Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"). Uma apaixonada por café, vinho e flor. Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade. Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer.
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