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Letra e sentimento

Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor.
Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade.
Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer

Tédio não é saudade, nem nos domingos

O tédio é perigoso. Mascara-se de saudade, de amor, de arrependimento. O tédio namora a carência e a recaída. Nessa perspectiva não é de todo mal que a vida seja um pouco corrida. Apenas há que se tomar cuidado com os domingos.


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Domingo é sempre aquele dia da semana que a maioria das pessoas usa para descansar. Mas, se por ventura, não estiverem cansadas o bastante para amar aquele que é, na verdade, o primeiro dia da semana, algumas pessoas o odiarão.

Nos domingos as famílias se juntam, se preparam para a segunda-feira; os de crença vão ao culto ou à missa; os namorados passam a tarde a ver filmes e séries depois de acordarem ao meio dia, no mínimo; os pais levam os filhos ao cinema, aos parques, às praças; os shoppings ficam repletos de famílias numerosas e nos restaurantes é impossível conseguir uma “mesa pra um”.

Domingo não é dia para os solteiros, para os solitários, para quem não está na sua terra natal, e sequer é dia para os mestres de sua solitude. Domingo é o dia feito para o domínio do tédio que, sorrateiramente, pode se disfarçar de saudade e de outros bichos.

“Na falta do que fazer, inventei a minha liberdade” lembra a música dos Engenheiros do Hawaii a tocar no player do carro que desliza pelas ruas vazias de trânsito. Ou: “cabeça vazia é oficina do diabo”, lembra ainda um dito popular, desses que sempre tem uma tradução para as “N” situações corriqueiras.

Uma vez entregue à “sozinhez”, um termo provavelmente inventado pelo Paulo Mendes Campos, não vai ser difícil fazer um mergulho de cabeça na piscina das lembranças e fantasias. Não vai ser difícil começar a evocar histórias de domingos outrora "felizes", em companhias que naquelas épocas talvez não conseguiram fazer os domingos menos sozinhos.

“Muitos temores nascem do cansaço e da solidão”, segue a playlist dominical. A fantasia que preenche o tédio do domingo pode fazer qualquer pessoa claramente bem resolvida questionar por alguns longos minutos o término da relação que não preenchia o peito, a desistência do noivado programado para as férias, o dar de ombros, a recusa, a fuga, a necessidade de se entregar ao tédio dos domingos sem companhia “só” pra se conhecer mais, “só” pra buscar o sonho que o par não quis compartilhar.

O vazio do domingo parece mesmo ter sido propositalmente programado para que as pessoas se interroguem, sintam o peso das escolhas, lidem com o “ônus” dessas escolhas. Parece um paradoxo o primeiro dia da semana ser popularmente travestido enquanto o último dia, uma mera prévia da segunda-feira (que é, na verdade, o segundo dia).

O silêncio do domingo, que mora no burburinho dos grupos que frequentam as praças de alimentação dos shoppings é música para refletir.

Talvez a carência fale mais alto um domingo desses, talvez o receio da solidão ou a novidade da solitude se mascarem de medo (medo mesmo, essa coisa gigantesca que é o medo) e faça com que se olhe brevemente para trás, com que se dê dois passos para trás. Até que a vinheta do último programa de TV do primeiro dia da semana nos acorde. E então... bem vida, segunda-feira!


Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"), uma apaixonada por café, vinho e flor. Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade. Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer.
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