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Letra e sentimento

Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória").
Uma apaixonada por café, vinho e flor.
Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade.
Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer

Dark: para além da ficção

Para além de um prato cheio para físicos e afeitos à quântica, Dark é uma série dramática que não tem medo de entregar um conteúdo altamente elaborado também do ponto de vista das relações. Alerta de spoiler.


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A série alemã de grande sucesso surpreendeu com o enorme apelo junto ao público no Brasil. Se tal apelo se deve ao mistério que acompanha a viagem de Mikkel através do tempo que se processa ainda nos primeiros capítulos, não são menos convidativos a fotografia, os diálogos elaborados, e a complexidade dos personagens e suas relações.

De certo que a viagem no tempo tem sido desde sempre um tema de grande interesse humano, seja devido a um desejo primordial de saber o futuro e consertar o passado, seja pela sua impossibilidade (que a série coloca em cheque por meio de complexas explicações que abordam a Física Quântica).

Brevemente, pode-se dizer que Dark de certa forma reinaugura o interesse pelo tema ao emprestar-lhe contornos dramáticos e emocionais, mergulhando profundamente em uma teia de relações familiares regadas por conflitos ligados a papéis e desencontros.

Paradoxa ou consonante à sua complexidade, a trama se passa em uma pequena cidade, em que as famílias se conhecem por gerações. Inerente a este fato, paira no ar um frágil clima de familiaridade, em que pecados e virtudes claudicam entre o público e o privado. E este é o elo que forma o laço (ou nó) que permeia a trama, pois a descoberta primeira de que é possível revisitar o passado abre a possibilidade de reparar erros. Será?

Quando Mikkel adentra a caverna e, compulsoriamente, é lançado ao ano de 1987 (33 anos antes do seu tempo), ele parece inaugurar uma série de viagens temporais por meio da caverna (um buraco de minhoca, ou seja, uma fenda no tempo). Posteriormente saberemos que um produto inusitado da usina nuclear que é alocada na cidade é a grande porta de entrada e saída para diferentes épocas.

Inicialmente esperançosos quanto à possibilidade de mudar a realidade alterando fatos do passado ou do futuro, os personagens e também nós - o público - compreendemos depois que todos os tempos (presente, passado e futuro) coexistem, e que as ações do passado que geraram o futuro tornam impossível a alteração dos fatos na medida que o futuro já existe. Somente um chamado ponto de origem pode ser modificado, e os personagens centrais vão em busca dele.

A jornada de Adam e Eva (bela metáfora acerca da criação dos mundos paralelos), ou seja, Jonas e Martha, cada um com um propósito diferente, consiste em achar o início do nó que se formou e que originou os mundos paralelos. Tanto o mundo que contém Jonas e a viagem de Mikkel a 1987, quanto o mundo em que Jonnas inexiste e no qual se destaca a versão mais velha de Martha, revelam-se enquanto versões de um mundo original que são criadas quando Tannhaus tenta interferir no tempo, incapaz de aceitar a morte de sua família.

Para além de um prato cheio para interessados na quântica do universo, Dark também fisga o coração do público pela angústia que atravessa a jornada de cada personagem que, por motivos íntimos, gostaria de interferir no tempo. A série não tem medo de abordar temas tabu nem de escancarar as dores que residem nos seios familiares. É impossível que o espectador não se identifique, desde que não se intimide com a complexidade do tema e desista de acompanhar.

No núcleo da família Nielsen temos um Ulrich sempre ligado a uma dualidade e que, numa versão de mundo engana a Katharina com Hanna, e na outra versão engana Hanna com Charlotte. Ao mesmo tempo, temos em Katharina uma figura de mãe que é cobrada pelos filhos, e que é literalmente vítima da própria mãe numa viajem do tempo. Já os filhos sentem-se negligenciados depois do sumiço de Mikkel enquanto vivem seus primeiros amores e, no caso de Martha, suas impossibilidades.

Na família Kahnwald um círculo se faz e refaz quando Jonas descobre a viagem no tempo de seu pai - Mikkel/Michael -, e dá início a sua travessia de portais em tentativas de conserto, mas também adentrando um drama existencial acerca de interferir no tempo, já que isso implicaria não existir (o que se mostra ser bem mais complicado na terceira temporada). Jonas é a figura em que se concentra toda uma massacrante responsabilidade e que, metaforicamente, protagoniza a angústia de um certo legado do pai: uma espécie de missão de consertar.

Também vivenciam suas questões a família Doppler e Tiedemman, como a personagem Cláudia, que tem em seu propósito de alteração dos fatos salvar a filha Regina da trágica doença terminal. Em Dark todos tem seus motivos para querer que a realidade seja diferente, sem saber que seu próprio mundo surgiu enquanto alternativa à tragédia de outrem.


Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"). Uma apaixonada por café, vinho e flor. Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade. Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer.
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