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Letra e sentimento

Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória").
Uma apaixonada por café, vinho e flor.
Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade.
Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer

Revoluções pessoais

As revoluções convidam.


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Naquele dia em que alguém acertou-lhe uma flecha no Calcanhar de Aquiles, soube onde é que mais doía no seu existir. Jorrou sangue vermelho. Vivo. E logo em seguida os elementos deste mesmo sangue derramado vieram com suas ferramentas silenciosas e microscópicas reparar o dano, fazer sarar a ferida. E assim, descobriu também que sua maior força era amiga da sua maior dor.

Foi assim com Maria, Carolina, Juliana, anas e anes, e outras tantas mulheres...

Ouviu poucas e boas na escola. Cresceu. Ouviu poucas e boas no trabalho. Cresceu. Ouve poucas e boas por aí ainda. Dói igual. Cresce igual.

Deram-lhe as costas. Não chorou.

Disseram-lhe não. Não e não. Caiu. Ralou os dois joelhos. Teve de parar de correr.

Queria tanto um amor, que pensou que não viria.

Quando veio o amor, achou que era para sempre.

Acreditou em tudo que ouviu. Não compreendeu quando cessou, quando terminou, quando ruiu, quando desabou a crença.

Queria tanto ser mãe, que pensou que não seria.

Foi tão forte, venceu a morte na sala de cirurgia (a sua, a dos outros) e ficou triste quando o simples afago não veio.

Ficou triste, não porque deu amor a quem não merecia, mas porque em um breve e infinito instante amou mais um outro do que a si.

Encontrou a dor na esquina, sorrindo-lhe. Percebeu a familiaridade. Tornou a encontrá-la cem vezes pela vida. Entendeu que era melhor não desviar.

Sonhou tanto a vida inteira que foi ao cinema sozinha ver o filme “feito para sonhadores” e porque não gosta de chorar na frente dos outros.

Arrebentou no peito as estigmatizações. Endureceu. Enterneceu. Endureceu. Enterneceu.

Disse, para o Universo ouvir, qual era o seu desejo mais profundo, depois soltou que nem balão. E ele ainda não retornou.

Entrou sem par onde só haviam pares. Deu a mão a si própria.

Sentiu um dia um amor tão grande que lhe tirou lágrimas dos olhos.

Emocionou-se com o convite da própria formatura.

Emocionou-se quando viu no rosto do filho seus olhos refletidos.

Emocionou-se quando sentiu o peito cheio. E quando sentiu que não faltava nada, por mais que faltasse.

O sagrado que existe em cada ser segue fazendo revoluções em peitos abertos como o mar. Verdadeiros tsunamis. Ondas com dezenas de metros no meio do oceano. Chegando na praia algumas vezes completamente quebradas. Mas indo e voltando.

É esse ir e vir exaustivo, por vezes, que realiza o divórcio entre a dor e a força. Privando de saber que evitando a todo custo a dor, a força dorme, domada.

As revoluções nunca são completamente mansas, por mais que possam ser silenciosas. E as revoluções pessoais aguardam cada ser como um destino, como possibilidade de atravessar, como o dom de autocura, como o dom de se refazer, de recomeçar, como uma realização de algo improvável, mas cem por cento possível.

As revoluções convidam.


Tatiane Cris Nunes

Tatiane Cris Nunes é psicóloga, menina-mulher do interior de Minas que vive um romance com Beagá. Neta de avô contador de histórias, fez curso de oratória (mas deixou-se seduzir pela "escutatória"). Uma apaixonada por café, vinho e flor. Costuma abusar do direito de ir e vir, só para sentir liberdade. Ariana, logo destemida e dona de um belo topete, mas tudo isso adoçado com açúcar. Escreve para não desaparecer.
Saiba como escrever na obvious.
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