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Textos, poemas reflexões e boa conversa.

Dênis Athanázio

Psicólogo, palestrante, terapeuta de família e casal. Gosto de futebol e de

“arranhar” minha guitarra. Escrevo primeiramente para me ajudar e quem sabe, talvez,

ajudar outras pessoas. Escrevo aqui no Obvious e semanalmente no meu blog

denisathanazio.wordpress.com

Morrendo aos poucos

O dia 10 de setembro foi estabelecido como dia mundial da prevenção do suicídio. Ao ouvir essa última palavra sentimos peso nos ombros e na alma. Segundo a OMS cerca de 805 mil pessoas cometem suicídio por ano. Esse número só não é maior porque nesses dados é claro, não estão computados as pessoas que tentam tirar a vida mas não conseguem.


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O dia 10 de setembro foi estabelecido como dia mundial da prevenção do suicídio. Ao ouvir essa última palavra sentimos peso nos ombros e na alma. Segundo a OMS cerca de 805 mil pessoas cometem suicídio por ano. Esse número só não é maior porque nesses dados é claro, não estão computados as pessoas que tentam tirar a vida mas não conseguem.

Certa vez ouvi um professor de psicologia dizendo que o suicida tem dentro dele o ápice da coragem misturado com o ápice do medo. Coragem pra tirar sua vida e medo demais para enfrentá-la.

Quem é da área da saúde mental sabe muito bem que a dificuldade de discutir e intervir sobre a pessoa que deseja tirar a sua vida. Por exemplo, Gilles Deleuze, filósofo francês, com a saúde gravemente debilitada, com câncer e respirando por aparelhos, decidiu atirar-se da janela do seu apartamento. Os seus mais ferrenhos seguidores argumentaram que o suicídio do seu mestre fora coerente com sua vida e obra: "Para ele, o trabalho do homem era pensar e produzir novas formas de vida".

Um paciente com uma depressão grave (endógena ou exógena) pode estar com um dor quase insuportável e desejar morrer não porque não ama viver, pelo contrário, por amar a vida tem dificuldade em aceitar vivê-la de uma forma que considera tão reduzida e sem sentido.

Outros profissionais dirão que, a pessoa doente mentalmente, perde a capacidade de pensar de forma minimamente saudável e então, não pode escolher por ela mesma. Isso misturado com álcool e drogas de forma exagerada se transforma num coquetel molotov. Por isso a importância da família e amigos por perto. Esse estar por perto é ter presença de corpo e alma. É investir no cuidado atento, ouvir e tolerar a pessoa doente. Não é nada fácil ouvir uma pessoa que está doente psiquicamente (quem nunca esteve que atire a primeira pedra). Alguns não conseguem nem falar quando estão mal. Outros se ensurdecem.

No mundo do espetáculo e do palco que vivemos hoje onde todos devem fazer sucesso não é raro vermos pessoas infelizes. Interessante como pode-se observar que, em alguns países ricos e de primeiro mundo, também vemos um alto índice de suicídio. Por isso que aquelas frases prontas como “pare de frescura tem gente muito pior que você e mesmo assim valoriza a vida!”, “levante daí que a vida é boa”, “ você tem tudo e fica nessa situação?” não ajudam em nada e piora o que já está muito ruim. Geralmente, a pessoa quer muito melhorar mas não consegue sozinha.

Li que o suicídio pode ser evitado em mais de 90% dos casos. Os tratamentos psicológicos e farmacológicos trabalhando juntamente, podem funcionar e estão avançando cada dia mais mesmo sabendo que infelizmente não são acessíveis para todos.

A grande questão que devemos entender é que morremos aos poucos. Ninguém acorda em um dia comum e resolve morrer sem um motivo existencial sério. Existe uma construção de sofrimento, de causas sociais, algumas vezes genéticas e culturais. Uma recente pesquisa divulgada pela Fundação SEADE referente aos casos de suicídio entre 2013 e 2014 aponta que 80% dos casos envolvem homens entre 15 e 64 anos. Esta variação entre homens e mulheres, segundo o estudo, pode estar relacionada à menor dependência de álcool, maior religiosidade e percepção mais precoce de sinais de risco para depressão e doença mental verificados entre as mulheres. Essa antiga (porém permanente) cultura machista de que nós homens não devemos chorar e nem falar de nossas dores está custando um preço alto demais.

Infelizmente o Brasil ainda é um país que tem sérias dificuldades em trabalhar com prevenção. Viramos a cara para o problema ou não percebemos o tamanho dele. Inventam dados, estatísticas de progresso e todos perdem. Quando se decide tardiamente a procurar ajuda (falo de quem tem condições para fazê-lo), o “câncer” já se alastrou pelo corpo todo. Por medo ou falta de recurso interno ou externo para enfrentarmos, deixamos nosso inimigo crescer demais. Alma é como jardim, se cuida todo dia para mantê-lo vivo. Alguns dias se faz necessário regar mais do que outros.

Quando se cuida do outro e de nós mesmos, não morremos aos poucos, na verdade ganhamos mais dias. Tente observar algumas pessoas que encontramos por aí que parecem nunca envelhecer. Eles não são mutantes, são cultivadores de jardins. Esses descobriram a tão sonhada fonte da juventude. E a acharam dentro deles mesmos.

Tente respeitar e tolerar a dor do outro e se nada puder fazer, não atrapalhe. Suicídio é coisa séria que afeta e traz dor a todos inclusive aos que ficam e amam os que se foram. Seja amigo e tente ser um pouco Clarice “ Um amigo me chamou para cuidar da dor dele, guardei a minha no bolso e fui”.


Dênis Athanázio

Psicólogo, palestrante, terapeuta de família e casal. Gosto de futebol e de “arranhar” minha guitarra. Escrevo primeiramente para me ajudar e quem sabe, talvez, ajudar outras pessoas. Escrevo aqui no Obvious e semanalmente no meu blog denisathanazio.wordpress.com.
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