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Textos, poemas reflexões e boa conversa.

Dênis Athanázio

Psicólogo, palestrante, terapeuta de família e casal. Gosto de futebol e de

“arranhar” minha guitarra. Escrevo primeiramente para me ajudar e quem sabe, talvez,

ajudar outras pessoas. Escrevo aqui no Obvious e semanalmente no meu blog

denisathanazio.wordpress.com

Parece cocaína mas é só paixão

A mente dessa pessoa apaixonada pode funcionar psiquicamente de forma parecida à do dependente químico. O objeto de “amor” é uma droga potente e não raramente causa estragos na vida do apaixonado (no caso, o usuário) e das pessoas que convivem com ele. A dependência do outro é tão grande, que a sua ausência pode desencadear sintomas físicos como falta de ar, arritmia cardíaca e dores de cabeça, além de sintomas emocionais e existenciais como depressão, ansiedade e vazio.


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Se perguntarmos para alguém que faz uso da cocaína cotidianamente, dificilmente esse alguém dirá que ela não é prejudicial a sua vida. Muitos deles lutam para extinguir o vício da sua vida e por isso tento nunca duvidar nem desmerecer as pessoas que suam sangue para enfrentar essa tão difícil batalha.

As sensações antes e depois do uso se misturam entre euforia, prazer, coragem, agressividade, tristeza, remorso, sensação de vazio, etc. E é também dessa forma que se sente a pessoa acometida pela paixão daquela do tipo avassaladora. Uma das definições da palavra paixão é a que vem do latim 'passione', ato de suportar, de sofrer. É claro que as palavras e seus sentidos vão ganhando releituras com o tempo. Por volta do século XIV, ela passou a querer dizer também “forte emoção, desejo”, e mais tarde ainda, “entusiasmo, grande apreço, predileção”. (http://www.muitointeressante.com.br/origem-da-palavra).

Gostaria de me ater mais às paixões “hardcore”, essas que são vistas como destrutivas na vida do indivíduo. Essas que fazem-nos perder a potência, reduzem a nossa humanidade e nos direcionam a constantes humilhações, decepções e mediocridades. A mente dessa pessoa apaixonada pode funcionar psiquicamente de forma parecida à do dependente químico. O objeto de “amor” é uma droga potente e não raramente causa estragos na vida do apaixonado (no caso, o usuário) e das pessoas que convivem com ele. A dependência do outro é tão grande, que a sua ausência pode desencadear sintomas físicos como falta de ar, arritmia cardíaca e dores de cabeça, além de sintomas emocionais e existenciais como depressão, ansiedade e vazio.

Mas por que continuar sofrendo? O senso comum, erradamente, dirá que é besteira e a pessoa presa nessa paixão deseja apenas chamar a atenção e que, no fundo, gosta de sofrer. Assim como dizem que o usuário de drogas (lícitas ou ilícitas) só não para com o vício porque não quer. As pessoas ao redor que amam o ser aprisionado, tentam inutilmente fazê-lo enxergar “o que está fazendo consigo mesmo” e o tamanho do sofrimento causado a todos.

Mas a questão é que esse ser aprisionado já não é ele ou, pelo menos, não como era conhecido antes. E não é uma questão simples como quando você vai ao cabeleireiro para dar uma repaginada no visual. O que se muda são traços da personalidade. E é isso mesmo que assusta os mais próximos. Não raramente, essa mudança se volta apenas para com o objeto de amor. Exemplo: Se o indivíduo é conhecido por ser muito egoísta, esse mesmo pode, estranhamente, desenvolver uma prática solidária e altruísta para com o seu objeto de amor e veneração. Por outro lado, continua não dando a mínima para as outras pessoas com quem se relaciona.

Mais triste ainda é quando esse ser, que é objeto de apaixonamento do outro, percebe que ele(a) é a própria e tão desejada cocaína. A partir dessa percepção, perversamente se autointitula rei ou rainha e agora tem um escravo(a) particular, que o serve com prazer e sorriso no rosto.

Já li pesquisas dizendo que a paixão tem um tempo máximo de dois anos de duração e depois é liberdade, é “vida que segue”. Discordo, pois se alimentarmos todos os dias esse monstro, ele cresce e não diminui.

É claro que a paixão ou a cocaína tem seu momento de prazer, como já citei. E esse momento é a visita ao paraíso, mesmo que dure 40 minutos. Mesmo que seja um jantar ou uma mensagem no Whatsapp, ou um mero sorriso. Tudo vale a pena para sentir esse momento. E esse perverso que percebeu ser a cocaína do ser apaixonado, alimenta esperanças (na maioria das vezes falsas) de que “vai mudar” para a relação melhorar, promete mais carinho e atenção. E quem está apaixonado acredita piamente. É uma prisão de portas abertas para onde a pessoa corre voluntariamente como se fosse um encanto, uma magia.

O problema é que esse tipo de paixão faz a pessoa alçar voos altos, mas não lhe fornece um paraquedas. Por isso que o tombo geralmente machuca muito.

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Certa vez, uma querida professora de psicologia me alertou: “Dênis, esses pacientes temos que atendê-los da mesma forma que faríamos com um paciente que é dependente químico. A terapia, nestes casos, pode ser vista como uma afronta, pois afinal, estar apaixonado é um presente da vida. Por outro lado, quando a pessoa procura ajuda terapêutica, mesmo que minimamente tenha percebido que algo está errado com a vida que está levando, ela melhora aos poucos. Com o tempo, começa a se libertar e a exigir mais do que as migalhas que está recebendo. E o mais rico desse processo terapêutico é que o paciente passa a ganhar e conquistar uma autonomia na vida há muito tempo extinta, para reconhecer quais batalhas deve enfrentar e de quais deve fugir. Reconhecer seus limites internos não é sinal de fraqueza, é indicativo de coragem. É uma libertação cotidiana.

Fortalecemos nossos músculos colocando-os em movimento e quando possível olhando para onde se pisa. A vida é um dia de cada vez, ou como diz no lema dos Narcóticos Anônimos: “Só por hoje”.


Dênis Athanázio

Psicólogo, palestrante, terapeuta de família e casal. Gosto de futebol e de “arranhar” minha guitarra. Escrevo primeiramente para me ajudar e quem sabe, talvez, ajudar outras pessoas. Escrevo aqui no Obvious e semanalmente no meu blog denisathanazio.wordpress.com.
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