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Textos, poemas reflexões e boa conversa.

Dênis Athanázio

Psicólogo, palestrante, terapeuta de família e casal. Gosto de futebol e de

“arranhar” minha guitarra. Escrevo primeiramente para me ajudar e quem sabe, talvez,

ajudar outras pessoas. Escrevo aqui no Obvious e semanalmente no meu blog

denisathanazio.wordpress.com

Rara vida

Arrisco dizer que aquela rolada na cama antes de se levantar para ir trabalhar, o tapa no despertador e a procrastinação, é um protesto (consciente ou não), contra esse tempo que corre desvairadamente. É como se não nascêssemos pra tanta velocidade.


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Alessandro passa de carro avista seu amigo na praça e diz:

– Oh Robertão…O que tá fazendo aí parado na praça?

– Fala, Alessandro! Tá sumido hein?

– É a correria né, cara?

– Ah, cara tô dando um tempo aqui….Tô pensando um pouco na vida olhando para as árvores.

– Oh vida boa, hein, Robertão? Tem tempo pra pensar na vida?

Sentindo-se estranhamente culpado Robertão responde:

– Hoje estou de folga, Alessandro. Mas você tá certo…deixa eu voltar pra casa, que tenho muito “corre” pra fazer hoje.

Vivemos em uma geração frenética por preencher a todo custo as 24 horas que Deus nos deu. Alguns acham que Ele calculou mal, o dia tinha que ter umas 30 horas. Pois “Tempo é dinheiro” e não estou vendo dinheiro no meu bolso e se não tenho dinheiro mesmo trabalhando muito, não sou ninguém, me sinto culpado e vivo à margem da sociedade.

A pessoa que fica parada contemplando qualquer horizonte ou pensando na vida é vista como vagabunda por muitos. Mesmo que tenha trabalhado 12 horas seguidas no dia anterior, ela se sente culpada por essa prática. Quem nunca fingiu que estava ocupado no trabalho quando o chefe estava se aproximando da sua mesa? Eu particularmente, sempre achei estranho ter que mostrar a todo tempo estar atarefado para parecer trabalhador. O mais preocupante é que estamos inserindo nossas crianças nessa realidade. Elas correm o tempo todo junto com a gente. Os pais colocam seus filhos em todos os cursos possíveis para os pequenos não ficarem parados pensando besteira. Pois brincar não “dá dinheiro”, logo, é uma besteira.

Temos a fantasia de que se estamos no mesmo ritmo e caminho em que a maioria percorre (praticamente toda a sociedade), somos indivíduos saudáveis e normais. Quem corre ou anda na direção oposta da maioria é prontamente classificado como um ser desajustado e desequilibrado. Mas, se refletirmos de forma honesta, será mesmo que estamos mais saudáveis mentalmente com essa correria toda? A resposta é quase unânime que não.

Você já teve a experiência de conviver com pessoas que são “ligadas” no 220W e que querem tudo “para ontem”? Sabe aqueles adultos que nos aceleram indiretamente e de forma negativa com a sua agitação própria? De repente, sentimos nosso coração batendo mais rápido, entramos no ritmo deles sem saber o motivo da nossa precipitação. A pressa e a convivência com essas pessoas podem inquietar a nossa alma.

Enquanto escrevo esse texto, uma das músicas mais ouvidas do cantor Lenine não sai da minha cabeça: “Enquanto o tempo acelera e pede pressa, eu me recuso, faço hora vou na valsa, a vida é tão rara”.

Sei que é muito difícil para você e para mim, mas de vez em quando, temos que nos recusar, “fazer hora” e brigar contra esse aceleramento do tempo. Tentarmos parar um pouco, respirar fundo, desmarcar compromissos, desligar o celular e pensar na vida sem se sentir culpado, sem pensar que somos vagabundos e improdutivos.

A contemplação, o ato de refletir e o ócio só se desenvolvem com treino. Primeiro, tem que ser trabalhado dentro de você mesmo a culpa que sente pra depois mudar de postura. A criatividade também vem do ócio. A maioria dos poetas não conseguiria trabalhar em uma linha de produção. Não por achar um trabalho indigno, mas porque teriam dificuldades para escrever e refletir. Uma ideia boa, uma frase boa, não avisa quando chega. Simplesmente pipocam em suas mentes e se não forem escritas ou digitadas na hora, provavelmente fugiriam sem dia marcado para voltar.

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Arrisco dizer que aquela rolada na cama antes de se levantar para ir trabalhar, o tapa no despertador e a procrastinação, é um protesto (consciente ou não), contra esse tempo que corre desvairadamente. É como se não nascêssemos pra tanta velocidade.

Não sei se é porque estou ficando velho, mas hoje em dia desejo mais tomar um café com amigos do que assistir à Fórmula 1. Tenho mais prazer em tocar guitarra do que em andar em uma montanha-russa do parque ou ficar dois dias seguidos em uma rave. É muita velocidade para mim. Lenine escreve que a vida é tão rara. Se ele estiver certo, preciso degustar e saboreá-la. Quem come correndo não sente o gosto da comida. Eu me recuso, faço hora, vou na valsa. Eu quero saborear a vida.


Dênis Athanázio

Psicólogo, palestrante, terapeuta de família e casal. Gosto de futebol e de “arranhar” minha guitarra. Escrevo primeiramente para me ajudar e quem sabe, talvez, ajudar outras pessoas. Escrevo aqui no Obvious e semanalmente no meu blog denisathanazio.wordpress.com.
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