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Textos, poemas reflexões e boa conversa.

Dênis Athanázio

Psicólogo, palestrante, terapeuta de família e casal. Gosto de futebol e de

“arranhar” minha guitarra. Escrevo primeiramente para me ajudar e quem sabe, talvez,

ajudar outras pessoas. Escrevo aqui no Obvious e semanalmente no meu blog

denisathanazio.wordpress.com

Sobre nossa ilusão de voltarmos ao paraíso

Para a psicanalista francesa Janine Chasseguet-Smirgel, seja em qualquer grupo social, “tudo o que vier a ameaçar a realização dessa ilusão deve desaparecer e aquele que não pensa como o grupo será excluído, perseguido, morto ou declarado louco”. Aqui, quem denuncia ou percebe que a convivência ou a realidade está longe de ser perfeita e harmônica pode enfrentar um estado de solitude em suas relações mais próximas. Inclusive, não é incomum quem adquire essa visão de mundo menos idealizada, ser uma pessoa com poucos amigos e amores. Afinal, como dizia Nietzsche, “por vezes as pessoas não querem ouvir a verdade, pois não desejam que suas ilusões sejam destruídas”.


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Você não sabe ao certo o que está acontecendo contigo quando está na companhia daquela pessoa ou grupo. Mas alguns sentimentos pipocam em sua mente. Uma paixão seguida de uma forte vontade de estar grudado ao outro, de que uma ou mais companhias lhe bastam e a certeza de que esse movimento faz todo sentido e se encaixa feito peça nova de Lego em sua vida. Nessa vida não há espaço para mais nenhum outro ser diferente, pois já se tem uma forte ilusão de completude, de grupo fechado, essa que lhe faz sentir-se poderoso beirando a um estado místico. Esse casal, grupo ou família possuem as mesmas ideias, gostos e até defeitos. Se antes não os tinha, passou a ter sem perceber. Na fantasia todos são uma só psique e a fantasia é a de que, unidos, ninguém os vencerá.

A primeira vez em que nos sentimos dessa forma foi na barriga de nossa mãe. A psicanálise diz que existe uma força inconsciente nos puxando a todo tempo, simbolicamente, para dentro desse lugar paradisíaco onde mora a completude e harmonia, a simbiose e a satisfação constante.

Para a psicanalista francesa Janine Chasseguet-Smirgel, seja em qualquer grupo social, “tudo o que vier a ameaçar a realização dessa ilusão deve desaparecer e aquele que não pensa como o grupo será excluído, perseguido, morto ou declarado louco”. Aqui, quem denuncia ou percebe que a convivência ou a realidade está longe de ser perfeita e harmônica pode enfrentar um estado de solitude em suas relações mais próximas. Inclusive, não é incomum quem adquire essa visão de mundo menos idealizada, ser uma pessoa com poucos amigos e amores. Afinal, como dizia Nietzsche, “por vezes as pessoas não querem ouvir a verdade, pois não desejam que suas ilusões sejam destruídas”.

É fácil observarmos toda essa demanda na história humana. Seja nas questões mais comuns onde o casal ou a família se esforça para viver apenas em função deles mesmos, como se ninguém mais existisse nesse mundo, ou melhor, dentro desse “perfeito” útero materno, onde, inconscientemente, se nega ou tenta a todo tempo esconder as suas diferenças conflituosas. Podemos observar isso também em demandas extremas, nas chamadas catástrofes históricas, como, por exemplo, o holocausto onde milhões de pessoas (principalmente judeus) morreram por não possuir a “raça pura” nazista, isto é, quem não alimentava a sua ilusão grupal, deveria morrer cruelmente. Essa questão vale para todo tipo de instância humana, como na religião, nas diferentes classes sociais, orientação sexual, cor, etnia, etc.

Toda essa problemática passa pelo crivo da incapacidade que temos de lidar com os conteúdos caros ao nosso mundo interno, como a solidão e sentimento de desamparo. Muitos de nós temos uma extrema dificuldade em ficar só e ainda, quando ficamos, sentimos um peso enorme nas costas como se algo de muito errado estivesse acontecendo em nosso ser. É por isso que tem gente que passa a vida toda grudada a alguém que sempre lhe causou muito mal, pois a sua neurose de não aguentar um vazio e um desamparo, que é fantasiosamente letal, faz com que a mesma aceite qualquer tipo de pessoa para dividir uma vida afetiva com ela. Invertendo o ditado popular, podemos dizer que prefere o “antes mal acompanhado do que só”.

Também nos orgulhamos em defender e acobertar os erros de nossos cônjuges, amigos, namoradas(os) e parentes mais próximos em nome da “honra familiar”, mesmo quando essa defesa infantiliza e atrapalha o amadurecimento desse membro errante, ou ainda pior, quando esse imputa dores desnecessárias inclusive para muitas outras pessoas. É a ideia que ouvimos por aí de que “é melhor que chore a mãe do outro do que a minha”.

Em alguns momentos de lucidez em nossa história, percebemos que fomos expulsos desse paraíso inicial e sentimos muito medo desse desamparo existencial, mas a pergunta que nos vem à mente é: então, o que devo fazer com esse duro dilema? Quem conseguir minimamente conviver consigo mesmo, tem maiores chances de conviver saudavelmente o outro, pois não existe metade da laranja ou de tampa nenhuma que me complete, tenho que ser inteiro e ao mesmo tempo lidar com meus vazios interiores.

A relação que vivemos com nossa mãe ou com quem cuidou de nós desde pequenos e o ambiente em que crescemos, pode influenciar na maneira como lidamos com o nosso grau de desamparo e solidão. Mesmo juntos, temos que entender que estamos sós, temos nossa individualidade, sentimos e reagimos ao mundo do nosso jeito. A fantasia de que está tudo perfeitamente encaixado, e que o outro me entende totalmente e por isso é impossível viver sem ele, não nos indica um caminho de saúde mental e sim de adoecimento. Sei que não conseguimos viver sem uma dose de fantasia, mas morar no país da Alice pode significar viver dentro de uma cela invisível. Tentando nos enganar para não adoecermos, adoecemos por tentar nos enganar.

Então no fim de tudo, e no meio das tantas contingências existentes, acredito que só amadureceremos como ser humano quando, aos poucos, tentarmos enfrentar esses fantasmas que crescem a cada dia dentro da gente. Só assim nos conheceremos melhor e talvez mudaremos para melhor.

Enquanto eu escrevia esse texto, um trecho do poema de Manoel de Barros invadiu meus pensamentos: E aquele que não morou nunca em seus próprios abismos / Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas / Não foi marcado / Não será marcado / Nunca será exposto às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.


Dênis Athanázio

Psicólogo, palestrante, terapeuta de família e casal. Gosto de futebol e de “arranhar” minha guitarra. Escrevo primeiramente para me ajudar e quem sabe, talvez, ajudar outras pessoas. Escrevo aqui no Obvious e semanalmente no meu blog denisathanazio.wordpress.com.
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