descaminhos

Palavras de inquietude a traduzir sinestesias ideológicas

Ronaldo Junior

Percorrendo inquieto o mundo da arte no anseio de encontrar-se em meio à multidão, Ronaldo Henrique Barbosa Junior é carioca, tem 19 anos, é bacharelando em Direito e escritor acadêmico da Academia Pedralva Letras e Artes, da cidade de Campos dos Goytacazes-RJ

Do Romantismo à República: um retrato da mulher

Em uma análise histórica que examina o romantismo brasileiro, é possível tirar conclusões sobre a formação do espírito republicano nacional e entender a constituição do simbolismo acerca do gênero feminino por meio de poemas, pinturas e caricaturas do século XIX.


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José Ferraz de Almeida Júnior: Moça com livro, 1879

Este breve ensaio objetiva analisar as fases do romantismo brasileiro em suas gerações poéticas e na prosa, levando em consideração os acontecimentos históricos marcantes para o Brasil e, por conseguinte, para o imaginário do povo brasileiro, de modo a estudá-los para entender a modificação significativa das ideias da sociedade brasileira sobre o sentimentalismo e os estereótipos sobre o gênero feminino entre os séculos XIX e XX.

Primeiramente, deve-se pontuar que o movimento artístico em questão é passado no período a partir de 1820, caracterizado, segundo a professora Graça Proença, pela “[...] valorização dos sentimentos e da imaginação como princípios da criação artística”, sendo suas concepções provenientes de influências externas, acompanhando valores revolucionários difundidos no século XVIII, como será analisado adiante.

A primeira geração romântica - que focava o amor à pátria e o nacionalismo - teve textos característicos como "Canção do exílio", de Gonçalves Dias, no qual o poeta destacava as belezas do Brasil e seu sentimento ao estar distante de sua terra. Ou seja, a geração indianista destacava, principalmente, as características do povo brasileiro e a diversidade de paisagens nacionais, sendo os autores diretamente influenciados pela Independência em relação a Portugal em 1822, o que aflorou a busca pela identidade nacional brasileira, conforme é possível observar no poema de Gonçalves Dias.

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José Maria de Medeiros: Iracema, 1881. Museu Nacional de Belas Artes

Na obra de José Maria de Medeiros, observa-se um dos principais retratos femininos encontrados no romantismo nacionalista: a índia Iracema, em sua pureza, despida das malícias europeias, vivendo em equilíbrio com a rica natureza brasileira e, sobretudo, passível de influências vindas do além-mar, assim como o Brasil.

A segunda geração romântica - ultrarromântica - salientou um foco extremamente poético e metafísico na produção artística, com uma temática que envolvia a morte, os sonhos e o amor. Ou seja, as obras criadas nesse período possuíam a peculiaridade de um romantismo utópico, que encontrava na morte a fuga da realidade de amores não compreendidos, pois via no sentimento a finalidade da vida de cada indivíduo, demonstrando o lirismo que exala das mulheres, levando em conta o amor e a paixão. Toma-se por exemplo o poema "Lembrança de morrer", de Álvares de Azevedo.

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Vítor Meireles de Lima: Moema, 1832. Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand MASP

Assim como na obra de Álvares de Azevedo, Moema, de Vítor Meireles, muito ressalta sobre a geração ultrarromântica, tendo em vista que representa uma índia caída morta nas areias da praia, tendo perecido na tentativa de acompanhar a nau de Diogo Álvares - proclamado Caramuru pelos nativos -, pois este teria deixado várias paixões no Brasil, mas partiu de volta à Europa levando consigo apenas Paraguaçu, sua esposa, o que fez com que inúmeras índias nadassem tentando seguir o navio na tentativa vã de alcançar o amado e exaltar aquilo que mais lhes importava na vida: o sentimento. Moema, portanto, representa a luta e a morte pelo amor.

A terceira geração Romântica - poesia social - criticava elementos da cultura brasileira da época, tendo em vista o pano de fundo marcado pelo processo de construção da identidade nacional brasileira, a qual ainda não possuía lugar no peito dos nascidos no Brasil devido às influências políticas e culturais sofridas e às circunstâncias da independência. Logo, a terceira geração expressava a busca pelo sentimento de nação, mas com nuances diferentes da primeira geração, sendo marcada pela crítica social, com foco nos aspectos populares que os autores queriam modificar, com um ponto de vista extremamente humanista, abrindo espaço para o discurso abolicionista que passou a ganhar força na segunda metade do século XIX. Podem-se notar esses traços no trecho de "Navio negreiro", do poeta Castro Alves, que dialoga com a obra do pintor alemão Rugendas, que se baseou no tráfico de escravos para o Brasil, denunciando as condições de miséria a que eram submetidos.

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Johann Moritz Rugendas: Negros no fundo do porão de navio, 1835

Entre as três gerações românticas, a poesia simboliza os valores arraigados ao imaginário da população, representando estereótipos, ideologias e influências, que chegavam ao Brasil por meio da vinda de imigrantes europeus, sendo um marco do período a chegada da Família Real Portuguesa em 1808.

Portanto, com o passar do tempo e das influências, nota-se que está presente de formas particulares a visão sobre o gênero feminino que pairava no imaginário da população brasileira. Haja vista a adaptação da visão dos franceses sobre a mulher com influências da Revolução de 1789 – que tomava a mulher como símbolo republicano, ícone da liberdade, guiando o povo de modo enérgico e maternal para a luta que os liberta e lhes dá voz -, fazendo com que os autores românticos a representassem com uma exaltação comparável a dos trovadores, produzida na Idade Média.

Tais interferências da França tiveram seu ponto de partida em 1816, com a Missão Artística Francesa, sendo esta uma iniciativa de D. João VI para difundir culturas e valores europeus na colônia, visando à adaptação dos recém-chegados membros da Corte Portuguesa à realidade em que estariam inseridos dali por diante, tornando possível a importação – e adaptação – de padrões e modelos. Assim, determinadas visões pertencentes aos franceses foram inseridas na realidade brasileira, que ainda ansiava pela identidade enquanto nação, absorvendo influências.

Por meio da criação da Imprensa Régia, os ideais românticos franceses foram semeados no imaginário da população alfabetizada, culminando na produção literária romântica, marcada pela necessidade de concretizar o espírito nacional, o que emergiu sobretudo após à independência, em 1822, como já foi observado na análise das gerações poéticas.

Os escritores românticos da época descreviam a mulher como um ser sagrado, no qual só se via perfeição e pureza. Na prosa urbana, essa característica fica evidente, como se observa em "A moreninha", de Joaquim Manuel de Macedo, sendo a mulher um ser digno de louvores e adoração, no qual se concentra o amor e a poesia. Nota-se tal exaltação às mulheres nas imagens criadas por Macedo, remetendo o leitor a uma visão apoteótica sobre elas:

“Ter a ventura de receber o braço de uma moça bonita e a quem se ama, apreciar sobre si o doce contato de uma bem torneada mão, que tantas noites se tem sonhado beijar; roçar às vezes com o cotovelo um lugar sagrado, voluptuoso e palpitante; sentir sob sua face perfumado bafo que se esvaiu dentre os lábios virginais e nacarados, cujo sorrir se considera um favor do céu; o apanhar o leque que escapa da mão que estremeceu, tudo isso... mas para que divagações? que mancebo há aí, de dezesseis anos por diante, que não tenha experimentado esses doces enleios, tão leves para a reflexão e tão graves e apreciáveis para a imaginação de quem ama? [...]”

Tal exaltação é apropriada por poetas e romancistas do século XIX, com sua aproximação paulatina ao realismo do final do século, que se fez concomitante à abolição da escravidão e à proclamação da República. É possível, portanto, encontrar em ilustrações de Angelo Agostini, Pereira Neto, Manuel Lopes Rodrigues e outros, a representação republicana da mulher, que é retratada como faziam os franceses: símbolo do novo regime, da pátria, da liberdade e da humanidade. Mas, ao contrário das repúblicas que serviram de inspiração aos brasileiros – a francesa e a estadunidense -, a essência republicana não atingiu o agente principal da forma de governo: o povo, que assistiu à proclamação como se uma parada militar fosse, segundo conclusões do historiador José Murilo de Carvalho.

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“Glória à pátria!”, Pereira Neto, Revista Illustrada, 16/11/1889

De tal forma, sem tornar intrínseco ao imaginário popular seus valores nem produzindo uma estética própria, não demorou para que a República recém-proclamada fosse ridicularizada por caricaturistas e escritores, adaptando a figura feminina, o que torna evidente a mancha criada sobre a idealização da mulher brasileira da época, enfraquecendo a concepção dos autores românticos, não apenas sobre a mulher, mas sobre a pátria que construíam em seus sonhos, desde a independência, daí a expressão: “Esta não é a República dos meus sonhos”, tão bem interpretada em ilustrações do início do século XX, como esta que segue, publicada em O Malho, demonstrando a República dos sonhos – de 1889 – e a República de fato – de 1902.

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“Mlle. República, que hoje completa mais uma primavera”, C. do Amaral, O Malho, 15/11/1902

Daí, surge a indagação: estaria o povo indignado com os atos dos primeiros presidentes do Brasil? A observação que deve ser feita paira sobre determinados fatos: a elite econômica brasileira sentia o fim da escravidão; os grupos que lutavam até 1889 pela República traziam inúmeras divergências ideológicas entre si; a proclamação havia ocorrido sem revolução, sem participação popular e, por conseguinte, sem que o povo brasileiro soubesse o que se passava. Neste cenário, não é difícil compreender que, diferente da Revolução Francesa, que movimentou setores populares por toda a França, criando um ambiente de participação do povo, a República Brasileira tinha sua proclamação pautada nos atos de grupos políticos que não participavam à população o que se passava, gerando indignação por haver uma lacuna axiológica na alma dos indivíduos, o que transformou também a visão que se tinha sobre a mulher, principalmente pelo fato de haver repúdio à monarquia e à figura do Imperador Pedro II, que deixava para o Brasil uma sucessora, o que fez com que o simbolismo feminino fosse alterado conforme a imprensa produzia suas metáforas, já sob a influência artística do realismo – movimento que vinha deixar de lado a subjetividade e as emoções, visando às necessidades da sociedade.

Portanto, a percepção – romântica - da deusa mulher no decorrer do século XIX e a mácula presente nas representações femininas de “mulher da vida” no início do século seguinte, demonstram, sobretudo, a necessidade das lutas ocorridas nas primeiras décadas do século XX, marcando o movimento voltado para a aquisição de direitos, visto que as mulheres não eram dotadas de direitos no ponto de vista do legislador constituinte de 1891, não possuindo determinadas garantias, conquistando posicionamento político apenas em 1932 e tendo uma tardia entrada no mercado de trabalho, trazendo-lhes a independência. O que se dá principalmente pelo fato de a mulher ser, historicamente, subjugada ao homem pelo fato de não suprir as mesmas necessidades familiares na sociedade, ideia gerada por estereótipos de hierarquia, sendo ainda hoje – após tantos momentos, lutas e transições, os quais nesta breve reflexão não couberam – necessário o debate de gênero para reparar as disparidades, efetivando e garantindo que os direitos da mulher não permaneçam desproporcionais aos dos homens, como ocorre ao levar em consideração tão somente estereótipos nutridos pela ignorância e pelos interesses.


Ronaldo Junior

Percorrendo inquieto o mundo da arte no anseio de encontrar-se em meio à multidão, Ronaldo Henrique Barbosa Junior é carioca, tem 19 anos, é bacharelando em Direito e escritor acadêmico da Academia Pedralva Letras e Artes, da cidade de Campos dos Goytacazes-RJ.
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