descaminhos

Palavras de inquietude a traduzir sinestesias ideológicas

Ronaldo Junior

Percorrendo inquieto o mundo da arte no anseio de encontrar-se em meio à multidão, Ronaldo Henrique Barbosa Junior é carioca, tem 19 anos, é bacharelando em Direito e escritor acadêmico da Academia Pedralva Letras e Artes, da cidade de Campos dos Goytacazes-RJ

Máculas da desumanização

Em meio à destruição da guerra, inúmeros indivíduos são vítimas da busca pela sobrevivência, não restando outra escolha senão refugiarem-se em outro país. Fatos que vão de encontro aos direitos inerentes à pessoa. Fatos que vão de encontro ao sentimento de humanidade.


Cresce o número de refugiados no mundo.jpg “Cresce o número de refugiados no mundo” (fonte: http://iela.ufsc.br/noticia/cresce-o-numero-de-refugiados-no-mundo acesso em 02/10/2015)

Decorrente da primavera árabe, movimento que mobilizou massas em revolta contra regimes ditatoriais, a insurreição da população síria contra o regime de Bashar al-Assad teve como resposta a violência que tencionava calar-lhes a voz, deflagrando uma sangrenta guerra civil no país, a qual encontra no fundamentalismo religioso sua disseminação, reflexo da diversidade de crenças concentradas num mesmo território, objeto de forte divergência para os sírios. A guerra possui vários desígnios.

O povo de armas na mão, contra o governo, a fome e a miséria, em busca da afirmação de sua fé, acabando por destruir suas raízes.

Tal fato se confirma com o conhecimento de que, em 2014, três anos após o início dos conflitos marcados pelo domínio de territórios e uso de armas contra a população, a Organização das Nações Unidas já contabilizava 140 mil mortos, vítimas da imposição de vontades extremistas.

Não apenas na Síria, mas também no Afeganistão, no Iraque, no sudeste da Turquia, no Iêmen, na Líbia, na Somália, no Sudão e no nordeste da Nigéria, conflitos ocorrem notadamente sem prazo para ter fim, com motivações próprias das particularidades de cada cultura.

Legenda.jpg Destruição em Salah Ed-Din, bairro na Síria. Foto: OCHA/Josephine Guerrero (fonte: http://nacoesunidas.org/conselho-de-seguranca-da-onu-mostra-indignacao-com-escalada-de-ataques-contra-civis-na-siria/ acesso em 30/09/2015)

Neste cenário de destruição, somando milhões de pessoas a deixar suas casas em busca de condições mínimas de sobrevivência em países adjacentes e até em terras distantes, seres humanos tornam-se refugiados, desumanizados por sua própria pátria e estranhos à sua própria cultura, desabrigados dentro de seu próprio território, obrigados a imigrar visando a encontrar proteção no estrangeiro.

Tais fatos – superficialmente expostos – não dizem respeito à simples transladação de indivíduos, que facilmente retomarão suas atividades habituais em uma nova terra, pois não se trata disso. O que passam os refugiados é uma questão de Direitos Humanos sob inúmeros aspectos, haja vista as vidas ceifadas, pessoas mortificadas e culturas esfaceladas em nome da sobrevivência, estando os sobreviventes obrigados a abandonar uma terra devastada pela guerra para subsistir.

Não é cabível sucumbir à falácia de que os Direitos Humanos não possuem caráter universal, relativizando sua eficácia às tradições de cada cultura, pois não restam dúvidas sobre o fato de as particularidades étnicas deverem ser observadas para aplicação das normas de Direitos Humanos, não servindo de justificativa para a violação de tais preceitos fundamentais, sendo, no dizer de Antônio Augusto Cançado Trindade, "a universalidade [...] enriquecida pela diversidade cultural, a qual jamais pode ser invocada para justificar a denegação ou a violação dos direitos humanos", posto que a diversidade diz respeito à adequação da norma na dinâmica busca pela preservação do indivíduo enquanto ser.

Dito isto, é necessário evocar acontecimentos de meados do século XX, quando alemães, sob alegação de superioridade racial, promoveram um dos maiores genocídios de que se tem conhecimento, o que gerou a mobilização de diversos países, fundamentando a ideia da internacionalização dos Direitos Humanos, sendo asseverada pelo Tribunal de Nuremberg – criado para julgar crimes relacionados com a Segunda Guerra Mundial - a necessidade da limitação da soberania estatal, a qual deve encontrar fronteiras nas garantias inerentes aos cidadãos.

Holocausto.png Fotografia de vítimas do holocausto, na Segunda Guerra Mundial (fonte: http://virusdaarte.net/o-holocausto/ acesso em 01/10/2015)

Por conseguinte, criou-se o conceito de Direito Humanitário, visando a minorar os efeitos de conflitos armados, protegendo "[...] as pessoas que não participam no combate, tais como aqueles que foram feridos ou que naufragaram, que estão doentes ou que foram feitos prisioneiros de guerra", segundo a página do Comitê Internacional da Cruz Vermelha na internet. Ou seja, fala-se em tutela da existência, do "direito de estar vivo, de lutar pelo viver, de defender a própria vida, de permanecer vivo", no dizer de José Afonso da Silva, o que deve ser considerado em face das multidões assoladas pelos males de conflitos armados, vendo a vida inevitavelmente se esvair como se esvaem as forças de quem percorre uma exaustiva jornada.

Em razão disso, os atingidos pelos conflitos no norte do continente Africano e no Oriente Médio são seres humanos que se encontram alheios às suas condições básicas. São indivíduos que se aventuram na arriscada travessia de mares e fronteiras na esperança de despertar compaixão em líderes de Estados Democráticos para viverem o sonho de recriar suas rotinas, já irreversivelmente maculadas pela devastação.

Faz-se mister, ainda, abordar a cultura como direito humano. Cultura, palavra que abrange as particularidades de organização, comunicação, produção de conhecimento, crenças e costumes de cada povo, é, inegavelmente, uma característica inerente ao ser humano, enquanto ser dotado de personalidade, posto que produz por si métodos de sobrevivência de acordo com as circunstâncias.

Deve-se pôr em reflexão, pois, os impactos que tais imigrações geram sobre aqueles indivíduos. Com a dispersão do povo, as tantas crenças que coabitavam num mesmo território perdem suas tradições e lugares sagrados; a comunicação humana se resume à absorção da linguagem alheia; esvaem-se os valores mantidos até outrora por cada família agora desestruturada. A identidade cultural passa por um violento processo de aculturação, mantendo ínfimos traços de expressão.

Imagem.jpg Foto de agência da ONU mostra refugiados de Yarmuk recebendo ajuda humanitária após bombardeios em Damasco, em 2014 - United Nation Relief and Works Agency / AP

É nítido o fato de os direitos sociais e culturais encontrarem barreiras para sua plena existência quando se é imigrante. Palavras xenófobas e atos de intolerância preponderam à solidariedade que salva vidas. Isso se dá pelo fato de o estrangeiro ser visto como uma raça inferior, ou como aquele que vem tomar espaço e impor sua cultura, degenerando as tradições locais – o que transparece a consideração sobre a postura do europeu imperialista do fim do século XIX, que destruiu culturas impondo valores em nome de sua hegemonia, o que não encontra coerência diante dos fatos.

Por isso, indivíduos vêm morrendo sem nem mesmo conseguir alcançar a costa europeia ou abandonam seus filhos para que estes tenham ao menos a oportunidade de se arriscar na perigosa travessia do Mar Mediterrâneo, como ocorreu com o menino Aylan Kurdi, na fotografia que repercutiu no mundo por representar o sofrimento de tantos refugiados.

Aylan Kurdi.jpg Fotografia que simboliza o drama dos refugiados: Aylan Kurdi, o garoto que não resistiu à distância marítima (fonte: http://www.reuters.com/article/2015/09/02/us-europe-migrants-turkey-idUSKCN0R20IJ20150902 acesso em 01/10/2015)

As consequências da guerra marcam profundamente o indivíduo, sobretudo aquele que luta por seus direitos fundamentais, aquele que luta por preservar sua humanidade. Exortação esta deixada, no ano de 1940, por Charlie Chaplin em seu longa-metragem The Great Dictator (O Grande Ditador), que retrata satiricamente – sem meras coincidências - as ditaduras europeias no período da Segunda Guerra Mundial. Trata-se de uma das mais contundentes críticas feitas pelo ator britânico, na qual expôs as mazelas de homens que extirparam vidas incitados pela superposição de seu povo em relação aos demais, pela desumanização pautada na inferioridade étnica. Discriminação que levou o homem, historicamente, a torturar, escravizar e tirar vidas em benefício de seu grupo.

Tamanho é o diálogo da obra com a atual tragédia dos refugiados que, em seu discurso ao final do filme (trecho abaixo), Adenoid Hynkel, interpretado por Chaplin, expressa resumidamente a motivação de uma guerra e, em analogia ao assunto em questão, o motivo de tanta destruição e indiferença – por parte de muitos. Afinal, "a ganância envenenou a alma do homem, criou uma barreira de ódio, nos guiou no caminho de assassinato e sofrimento", não sendo concebível seguir o discurso xenófobo que nos afasta da humanidade e retira tantas vidas pelo ódio. Não são a escória do mundo, são seres humanos em luta por sua humanidade.


Ronaldo Junior

Percorrendo inquieto o mundo da arte no anseio de encontrar-se em meio à multidão, Ronaldo Henrique Barbosa Junior é carioca, tem 19 anos, é bacharelando em Direito e escritor acadêmico da Academia Pedralva Letras e Artes, da cidade de Campos dos Goytacazes-RJ.
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