descaminhos

Palavras de inquietude a traduzir sinestesias ideológicas

Ronaldo Junior

Percorrendo inquieto o mundo da arte no anseio de encontrar-se em meio à multidão, Ronaldo Henrique Barbosa Junior é carioca, tem 19 anos, é bacharelando em Direito e escritor acadêmico da Academia Pedralva Letras e Artes, da cidade de Campos dos Goytacazes-RJ

Um olhar mais demorado sobre a vida

Na velocidade dos dias, tantos são os barulhos, cheiros, cores, lugares, que os sentidos - acostumados pela rotina - nem mesmo deem conta da vida que pulsa ao redor.


1.jpg Foto: Luke Pamer; disponível em: https://unsplash.com/photos/oUhr-qMTJoc (acesso em 22/12/2015).

É o homem um ser capaz de localizar-se no tempo enquanto racional que é, discernindo emoções e se adaptando aos diversos ambientes. Isto posto, deve-se salientar que a substancial diferença que distingue o homem das demais espécies que habitam o planeta Terra é a sua faculdade de deixar de lado o pragmatismo da razão e se deixar levar pelas emoções, pela imaginação. Mas o tempo, enquanto parâmetro que abaliza a vida, mecaniza os movimentos do homem em torno daquilo que o cerca, fazendo com que perca sua sensibilidade e, assim, sua espontaneidade, tirando a identidade que possui.

Historicamente, pode-se perceber a revolução industrial, em seus conceitos e transformações, como um evento que marca a dimensão do tempo para o homem. E a culpa não é do relógio, mas da percepção da escassez do tempo em detrimento da produção, pois se perdeu a paciência do trabalho manufaturado, que deu lugar à urgência do trabalho mecanizado, o qual atrofia os movimentos e regula a produção. Resultantes disso, vieram as mudanças no mundo do trabalho, apoiando sobre o homem trabalhador o peso da cadeia produtiva, sendo este a base do sistema: sofrendo os limites do tempo e as responsabilidades da subordinação àquele que detém os meios de produção.

2.jpg “Tempo é dinheiro” (fonte: http://www.freepik.com ; acesso em 22/12/2015).

O tempo passou a ser sinônimo de dinheiro – referência à avarenta expressão popular -, e o relógio que fica a tiquetaquear no pensamento do ser humano é um instrumento cortante, que dilacera a vida e enrijece os sentidos, como na introdução de “Uma faca só lâmina”, poema de João Cabral de Melo Neto:

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Faz-se necessário, pois, olhar para a vida e sentir o que ela oferece, apreciando a beleza presente em fatos que se repetem rotineiramente. Eis uma das grandes incoerências da tecnológica contemporaneidade: o que deveria aproximar, distancia ainda mais os homens – espacial e psicologicamente -, fragmentando a percepção da vida, tendo em vista que os dias vão passando iguais e desalentados em suas repetições banalizadas pela ânsia de buscar um novo – que é intangível.

3.jpg As maiores distâncias podem estar lado a lado.

Assim, perde-se o poder de introspecção, perde-se a profundidade. A banalização da vida significa a banalização dos detalhes: a inobservância da beleza de um lugar pelo qual se passa constantemente; o desapego das pessoas que convivem consigo; o menosprezo lançado sobre bens pelos quais tanto se lutou para conquistar. Isso se dá pelo fato de o homem estar, paulatinamente, perdendo a capacidade de deleitar-se em sentimentos, tornando-se superficial e, portanto, eximindo-se do autoconhecimento. Pois o ato de conhecer-se é característico daquele que se doa em sentimento, daquele que não perde a identidade em meio ao caos de emotividade que se alastra pela sociedade devido à pressa inerente aos indivíduos – que passam a incutir em seu cotidiano o individualismo que segrega pessoas e pessoas.

Por isso, as doenças da atualidade são aquelas que atingem a psique, aquelas que afligem a alma devido à falta de um olhar paciente, despreocupado, desprevenido. As mentes ansiosas que buscam ter tempo para tudo acabam, geralmente, não tendo tempo para si, pois nem sempre o que é essencial está na lista do que se precisa fazer.

4.jpg Foto: Kim Hattaway; fonte: http://www.freepik.com

Na obra “Os transparentes” (Companhia das Letras, 2013), que retrata a rotina de moradores de Luanda, maior cidade da Angola, o escritor angolano Ondjaki faz uma reflexão sobre o homem e sua faculdade de imaginar, no diálogo entre duas personagens:

“imaginar. imaginar... fazer uso dessa faculdade que nos separa de outros seres. a pedra não imagina, espera. a flor não imagina, desabrocha. o pássaro migra, a baleia nada, o cavalo corre. nós imaginamos antes de migrar, podemos imaginar enquanto nadamos, e podemos descobrir novas e inúmeras formas de correr, imaginando. mesmo até para dominarmos o cavalo e fazê-lo correr connosco, tivemos que imaginar tudo antes. e isso faz parte da condição, bela, de sermos humanos, faz parte da condição de seres livres. presos, reclusos, aflitos, no último instante dos nossos dias, imaginamos... e é disso que a ciência e a humanidade precisam: imaginação”

Concluo ser a imaginação um instrumento de libertação da alma. Um instrumento de desenvolvimento pessoal repleto de peculiaridades por meio das quais se desvendam novos olhares e se descobrem inspirações.

Por isso, este que escreve é um persistente defensor da expansão do ensino da arte nas escolas, não podendo o parâmetro curricular ser restrito ao ensino da história da arte e dos estilos de cada período, mas sendo necessário apresentar ao aluno cada forma de arte, de modo que ele possa sentir o gosto da liberdade. Afinal, a imaginação é um meio para se chegar à arte, sendo esta última, portanto, chave para o autoconhecimento.

5.jpg Mesmo que a rotina se faça gris, pode-se colori-la com a imaginação (Foto: RayBay; disponível em: https://unsplash.com/photos/kG71BXh8KFw acesso em 22/12/2015).

As salas de aula, enquanto espaço de crescimento, não podem conceber repetidores de ideias, que encaixam os fatos em uma predeterminada fórmula e tiram uma conclusão: devem criar homens que articulam a razão sendo gestores da própria emoção. É necessário que a pessoa cresça com o entendimento do papel que desempenha na sociedade e, sobretudo, com a sabedoria para lidar consigo próprio.

Isso, ironicamente, é o tempo que proporciona ao ser humano. É preciso paixão para tirar o véu que cobre os olhos e, então, contemplar os olhares, mas tal libertação somente é alcançada por quem se despe das preocupações trazidas pela modernidade: deixar-se guiar pela beleza inerente aos fatos é descobrir a poesia, é um olhar mais demorado sobre aquilo que está acerca de si. É a descoberta que alumia os caminhos inconstantes denominados “vida”.


Ronaldo Junior

Percorrendo inquieto o mundo da arte no anseio de encontrar-se em meio à multidão, Ronaldo Henrique Barbosa Junior é carioca, tem 19 anos, é bacharelando em Direito e escritor acadêmico da Academia Pedralva Letras e Artes, da cidade de Campos dos Goytacazes-RJ.
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