descaminhos

Palavras de inquietude a traduzir sinestesias ideológicas

Ronaldo Junior

Percorrendo inquieto o mundo da arte no anseio de encontrar-se em meio à multidão, Ronaldo Henrique Barbosa Junior é carioca, tem 19 anos, é bacharelando em Direito e escritor acadêmico da Academia Pedralva Letras e Artes, da cidade de Campos dos Goytacazes-RJ

A realidade não basta

Não é possível alimentar anseios sem sonhar a vida de olhos abertos: é preciso voar em busca da humanização, sentir a alma em livre expressão. Para isso, a palavra é instrumento que exterioriza a alma, sendo a literatura a descoberta de uma realidade que vivifica a rotina e abre os olhos para a existência.


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Fugaz, a sinóptica perturbadora que alcança o mundo atual é pungente, em inexpressivos monossílabos escassos de buscas.

Em meio a um vazio desassossegado, acostumados com a parcimônia - a alma cega de alienação -, muitos não se importam com as expressões. Poucos são os que se dissipam pelo ar dispostos a deixar-se levar pela imaginação. Poucos conhecem a si próprios além das informações deixadas em seu perfil numa rede social qualquer.

Imprescindível é ter olhos para ver por dentro. Pois a cegueira que fecha os olhos para o mundo - gerando desencontros - é a cegueira da alma, que, incapaz de sentir, vive a fantasia da existência. Não adiantam as palavras: expressar quão belo está o dia não traz enlevo algum, a menos que as palavras saiam na espontaneidade da apreciação, ao contrário da dissimulação geralmente usada para guardar indiferenças.

De que vale viver oculto em uma tela de computador, se não é possível sair de si mesmo e sentir a liberdade da vida?

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Saramago, em sua experiência literária de idealizar uma cegueira que assola desenfreadamente os seres humanos, põe o leitor para refletir sobre a distância do sentimento de humanidade, sobre o fato de os olhos do corpo não serem suficientes para sentir-se vivo. Na voz de um de seus personagens, Saramago expõe uma verdade que fala à atual geração: "Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem".

A cegueira a que se refere o autor nascido na província portuguesa de Ribatejo não se trata de problema da vista enquanto órgão que transmite imagens para o cérebro decodificar, mas de um problema que alcança as pessoas e as despersonaliza: retira a humanidade, que, enquanto sentimento, diz respeito ao homem que se basta sobre a Terra, considerando mazelas e sonhos.

Pois o homem acaba por perder-se em meio ao mundo cibernético em que vive, trocando diariamente a realidade pela uniformidade de vivências que é a inexpressiva tradução da sociedade atual: a ilusão de uma realidade virtual, numa ficção que não gera vida, aprisiona.

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Enquanto fonte de inspiração, a ficção é espaço em que o homem se inventa e recria suas imagens. Espaço de sonhar e sentir, na fantasia de viver a fuga, o outro lado da existência, pautado na imaginação - infinita.

Todavia, percebe-se a divergência entre abdicar da realidade e abdicar de si: não há reconhecimento das lacunas da existência na ficção buscada pelas massas. A vida virtual enrijece, arrefece, traz amnésia das origens e cria falsas ideologias, pois distancia o homem de sua própria essência, cria distâncias e mantém a alma incólume - sem lacunas.

Pois as lacunas são necessários meios para o autoconhecimento: indagações deixam rastros que amadurecem a inquietude da existência, dinâmica que é. A vida não é pautada nas respostas, mas nos vazios deixados pelo que não se deixa entender com os olhos pragmáticos.

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Então penso que o homem se enxerga pleno em contato com sua alma por meio de seus próprios eufemismos e convergências, pensando ter conhecimento de sua identidade sem saber sentir a própria alma.

A literatura, enquanto arte, deixa o desejo, acende as consciências para aquilo que não se pode enxergar com os olhos. Então vejo que as palavras - limitadas ao dizível - são fonte geradora do mundo. São alimento para o tempo histórico e elemento construtor do eu – enquanto personalidade no mundo real.

As palavras podem ser contaminadas com a frivolidade de uma área de lazer e até de um estudo aprofundado capaz de tornar técnica a linguagem, mas jamais perderão seu poder de alcançar o âmago do indivíduo, criando lacunas capazes de gerar a poesia e estimular o latente mundo onírico. Fonte de expressão, a arte é a localização do homem em seu mundo, com os olhos voltados para a existência – não apenas para as aparências.

A literatura, exatamente por isso, é capaz de fazer transcender o homem ao seu próprio universo, pois consegue encontrar num texto emoções que já experimentara sem exprimir. José Castello, em publicação de 2012 no site do jornal O Globo, faz reflexões sobre a arte das palavras em contato com o indivíduo no texto "O poder da literatura":

"[...] leia Dostoievski, leia Kafka, leia Pessoa, leia Clarice - e você verá que rombo se abre em seu espírito. [...] Vivemos imersos em um grande mar que chamamos de realidade, mas que - a literatura desmascara isso - não passa de ilusão. A "realidade" é apenas um pacto que fazemos entre nós para suportar o "real". A realidade é norma, é contrato, é repetição, ela é o conhecido e o previsível. O real, ao contrário, é instabilidade, surpresa, desassossego. O real é o estranho."

Por isso, é possível perceber a necessidade de uma leitura clara da vida - e das palavras -, no que se enxerga o pensamento do escritor francês André Gide: “a arte começa quando viver já não é suficiente para exprimir a vida”. É preciso impavidez para lançar os olhos e ler as entrelinhas, deixar-se alcançar por seus próprios significados, sentir a liberdade de sonhar.

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Assim, a literatura não pode ser resumida em um conjunto de análises feitas em sala de aula, mas em objeto de libertação da sensibilidade, por isso a necessidade de o livro não ser mais uma das obrigações escolares para as crianças, mas um amigo para acompanhar o crescimento. Um amigo para o indivíduo entender que ele próprio é capaz de produzir arte, de irradiar sua alma em expressões de beleza, de vivificar seus dias em plena liberdade.

Pois o desenvolvimento, ao contrário do que se pensa, não pode ser pautado tão somente na lógica e na linguagem, mas na vida e nos sonhos: no pulsar da humanidade.

Assim, em busca de salientar a importância da literatura nas sociedades, faz-se significativo concluir citando a definição de literatura do historiador francês Gustave Lanson - que, para o estudioso da literatura José Veríssimo, "não se poderia definir com mais cabal justeza, nem mais elegante simplicidade, a literatura e sua importância":

"A literatura destina-se a nos causar um prazer intelectual, conjunto ao exercício de nossas faculdades intelectuais, e do qual lucrem estas mais forças, ductilidade e riqueza. É assim a literatura um instrumento de cultura interior; tal o seu verdadeiro ofício. Possui a superior excelência de habituar-nos a tomar gosto pelas ideias. Faz com que encontremos num emprego o nosso pensamento, simultaneamente um prazer, um repouso, uma renovação. Descansa nas tarefas profissionais e sobreleva o espírito aos conhecimentos, aos interesses, aos preconceitos de ofício; ela 'humaniza' os especialistas. Mais do que nunca precisam hoje os espíritos de têmpera filosófica; os estudos técnicos de filosofia, porém, nem a todos são acessíveis. É a literatura, no mais nobre sentido do termo, uma vulgarização da filosofia: mediante ela são as nossas sociedades atravessadas por todas as grandes correntes filosóficas determinantes do progresso ou ao menos das mudanças sociais; é ela quem mantém nas almas, sem isso deprimidas pela necessidade de viver e afogadas nas preocupações materiais, a ânsia das altas questões que denominam a vida e lhe dão um sentido ou um alvo. Para muitos dos nossos contemporâneos sumiu-se-lhes a religião, anda longe a ciência; da literatura somente lhes advém os estímulos que os arrancam ao egoísmo estreito ou ao mister embrutecedor."


Ronaldo Junior

Percorrendo inquieto o mundo da arte no anseio de encontrar-se em meio à multidão, Ronaldo Henrique Barbosa Junior é carioca, tem 19 anos, é bacharelando em Direito e escritor acadêmico da Academia Pedralva Letras e Artes, da cidade de Campos dos Goytacazes-RJ.
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