descompasso

Reflexões sobre um mundo dicotômico.

Aline Miglioli

Tenho essa mania esquisita de viver por aí passarinhando

Mia Couto e a moya moçambicana: um olhar demorado a nossa cultura maquezo

A recente crise na Europa envolvendo os exilados recoloca em pauta questões como a definição da nação, a problemática da discriminação racial e a sequer existência de raças. Para refletir sobre essas questões, poderíamos buscar muitos textos acadêmicos, porém proponho em este post abordar essas questões a partir da obra de um dos autores africanos mais reconhecidos atualmente: Mia Couto. Vamos explorar a situação atual e nossa posição como brasileiros através de algumas sutilezas trazidas na obra do autor.


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Eu sempre fui entusiasta dos livros de Mia Couto, sem entender muito porque sempre me deixei mergulhar na cultura moçambicana, no realismo maravilhoso atribuído ao estilo do autor. Recentemente, com os acontecimentos envolvendo os exilados africanos na Europa, eu muito me lembrei das obras de Mia Couto. Sem saber muito porque as imagens e notícias da crise com os imigrantes me levavam diretamente a situações presenciadas em diferentes contos e livros do autor.

“Exílio é a procura da identidade através do extremo e das palavras”

Pensando no porquê eu associei os noticiários à obra do autor, a primeira coisa que me vem à cabeça é a relação com o tempo, abordada em quase todas as obras de Mia. Nas culturas africanas o tempo é pensado de maneira muito diferente do que pensamos no ocidente, tanto que a palavra tempo nem existe no vocabulário das culturas bantas, nessas culturas a ideia de tempo só faz algum sentido se for pensada para se referir a um lugar, e tradicionalmente está relacionada com eventos naturais, momentos da colheita, a noite e o dia. Pelo mesmo motivo, inexiste a necessidade de dividir-se o tempo entre passado, presente e futuro, o tempo exerce um movimento espiral e contínuo. Como consequência direta dessa relação, não existe na cultura africana distinção entre a morte e vida, uma vez que os mortos e os vivos coexistem no mesmo tempo, um elemento que está sempre presente nas obras de Mia Couto.

“O bom do caminho é haver volta. Para ida sem vinda basta o tempo”

Outro fator que me chama sempre a atenção nas obras do autor é a descrição que ele faz da criação da identidade nacional de seu país (Moçambique) que está em contínua construção. Relativamente jovem, Moçambique ainda está se debatendo com os elementos coloniais que permeiam sua cultura. Nas obras do autor fica claro como esse movimento não é algo superado, a construção de uma identidade nacional ainda está sendo feita por dualismos e por contradições, como mostra este pequeno poema extraído de sua obra “Raiz de Orvalho e outros poemas”.

escrevo mediterrâneo

na serena voz do Índico sangro norte

em coração do sul

na praia do oriente

sou areia náufraga

de nenhum mundo

hei de começar mais tarde

por ora

sou a pegada

do passo por acontecer...

(página 58, Raiz de orvalho e outros poemas. Lisboa: Caminho, 1999.)

Ao explorar a construção de uma identidade nacional, Mia Couto coloca em perspectivas algumas questões que podemos fazer a nós mesmos como brasileiros: o que é ser brasileiro? Quais são as dualidades e contradições que nos compõe? De quantas raças é feito um brasileiro? Sobre a questão da existência de raças, tema tão importante e atual no debate, Mia Couto é categórico ao sempre demonstrar que um homem não pode ser feito de raças, e sim de si mesmo, como podemos ver no trecho abaixo retirado de seu livro Jesusalém.

Esta humanidadezita, unida como os cinco dedos, estava afinal dividida: meu pai, o Tio e Zacaria tinham pele escura; eu e Ntunzi éramos igualmente negros, mas de pele mais clara. – Somos de outra raça?– perguntei um dia. Meu pai respondeu: – Ninguém é de uma raça. As raças [...] são fardas que vestimos. Talvez Silvestre tivesse razão. Mas eu aprendi, tarde demais, que essa farda se cola, às vezes, à alma dos homens. – Vem de sua mãe, Dordalma, essa claridade da pele - esclareceu o Tio. (Jesusalém, 2012)

As raças como fardas traduzem bem o que sentimos no momento, estarmos presos por uma estrutura definida pela cor da pele, sem sequer uma vez nos perguntarmos de onde viemos, o que nos compõe como ser humano. Um exemplo da nossa cegueira para esses elementos é o quão pouco estudamos a cultura africana nos colégios brasileiros, sendo que grande parte da população brasileira descende dela. Fechar os olhos para nossas origens é o mesmo que fechar os olhos para entendermos vários costumes, crenças e atitudes do nosso próprio povo. E por isso, os livros de Mia Couto, passam a umo brasileiro o sentimento de familiaridade, de proximidade com a cultura brasileira, processo esse que é difícil pois definitivamente nos tira de nossa zona de conforto.

Todos esses elementos são trazidos na obra de Mia Couto de maneira sútil, o engajamento político do autor é feito geralmente em meio a histórias românticas, a um misto de realidade com mágica, trazendo os temas mais pesados de maneira leve e digerível, ao mesmo tempo, não deixando de incomodar o leitor com questões fundamentais. Nesse período em que todos os esforços estão canalizados para definir barreiras, raças e limites, a leitura de Mia Couto é fundamental para colocar todos esses elementos por missava, literalmente.

Pequeno glossário banto: Moya = alma

Maquezo = irmão

Missava = terra

Bibliografia:

Os desertores de memórias no romance de Jesusalém de Mia Couto. Martins, J. C. Mapera. Fonte.

Um mergulho nas águas do tempo, de Mia Couto. Ana Cláudia da Silva. Revista Vertentes & Interfaces I: Estudos Literários e Comparados, v. 3, n.2, 2011.

A autoreflexidade em Mia Couto. Tatiana A. S. Caldas.


Aline Miglioli

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