descompasso

Reflexões sobre um mundo dicotômico.

Aline Miglioli

Tenho essa mania esquisita de viver por aí passarinhando

Sándor Márai e a complexidade de ser

Geralmente não prestamos muita atenção para os romancistas que fogem do circuito Europeu, dentre os autores que ficam por fora de nossa leitura usual encontra-se Sándor Márai. O estilo de Márai é muito próprio e resultado de alguém que viveu as aflições de ver seu país ser anexado pelos Alemães e pela União Soviética, seus romances proibidos no mundo soviético e assistir de perto os conflitos da Guerra Fria. Apesar da situação caótica, Márai conseguiu abordar esses temas de maneira sútil, sempre articulando com outras histórias e com reflexões sobre o ser humano e sua existência.


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Quando buscamos um romance de um autor cuja origem é o leste europeu no entre guerras, sabemos que não vamos permanecer em nossa zona de conforto. O que Sándor Márai faz em seus livros vai muito além do que esperamos dos autores característicos do “mau do século”, dos românticos com os quais estamos acostumados. A sua narrativa tem como característica nos levar para os problemas mais profundos do ser humano através de situações simples, transformando uma pequena praça em um oceano de náufragos e um silencio de diálogos em algo tão asfixiante que o leitor se sente incomodado, suando frio, porém aficionado. A complexidade dos seus romances deriva da própria personalidade do autor, que diferente dos romancistas europeus da época, não era um boêmio, mas sim um workaholic. Ao mesmo tempo em que se aprofundava em reflexões psicológicas, apresentava-se como crítico da sua sociedade e de sua posição de burguês decadente.

Assim como seus romances, a trajetória do autor não poderia ser menos trágica: nascido na Hungria, Márai se mudou depois para Budapeste e também para a França, período em que tinha ainda uma vida normal, dentro do que se pode esperar do período de entre guerras. Na ascensão de Hitler, Márai se opôs veemente ao movimento nazista e chegou a apoiar os soviéticos frente às atrocidades feitas pelos alemães em seu país. Entretanto, quando a Hungria foi anexada à União Soviética , Márai como artista não pôde se adequar às reformas, principalmente culturais, e mudou-se para a Itália. Viveu logo depois uma vida de nômade, migrando de pais em país até estabelecer-se nos Estados Unidos. Sua fama de autor “burguês” e sua percepção crítica dos dois regimes políticos fez com que suas obras chegassem a ser proibidas na União Soviética. A aflição de Márai durante a Guerra Fria, ao ver o mundo dividido em dois fez com que em 1989 ele pusesse um fim em suas inquietudes, suicidando-se com um tiro na cabeça.

A dramaticidade da vida do autor está refletida em muitos dos seus romances. Escolhi falar hoje do livro chamado “As Brasas”, primeira obra escrita por ele. O livro consiste basicamente em um diálogo entre dois amigos de infância que não se veem a 41 anos e traz uma angustiante história sobre um romance mau acabado, um possível caso de traição, um sumiço e um evento na floresta envolvendo um revólver e muitos questionamentos. De uma forma bem tupiniquim poderíamos compará-lo à trama de “Dom Casmurro” transfigurado para um formato de escrita que nos faz questionar muitas das nossas próprias convicções, entrar no corpo dos personagens e talvez nunca mais sair. O grande mérito do autor se revela nesse romance: ele parte de um diálogo vago e impessoal dos dois amigos que não se veem à tanto tempo e nos infiltra nos pensamentos do personagem principal, onde os pequenos silêncios que permeiam a conversa casual, refletem em pensamentos muito profundos e inquietantes sobre a vida, o amor, a música e tudo aquilo que o cerca. Como uma árvore a história vai se desenrolando assim, a partir do diálogo entre os amigos e os estímulos sensoriais (música, visão e sensações térmicas) surgem as divagações sobre a vida, que se mesclam com os fatos acontecidos no passado e, dessa maneira, Márai nos transporta diretamente para aquela atmosfera em que se encontram os amigos. O sentimento de angústia e de incerteza pode ser sentido diretamente pelo leitor: assim se dá a magia do livro. O título do romance serve para caracterizar esse tipo de situação, por fora a brasa parece fria, terminada, indício de que houve fogo, mas por dentro ainda está quente, ainda arde. Ao terminar o livro temos a sensação que já estivemos ali, afinal de contas quem nunca teve um romance mal resolvido, uma amizade interrompida, ou pelo menos a necessidade de manter um diálogo superficial enquanto um turbilhão de emoções se passavam dentro de nós?

A amizade deles era séria e silenciosa como todos os grandes sentimentos destinados a durar uma vida inteira. E como todos os grandes sentimentos, também continha certa dose de puder e de culpa. Ninguém pode se apropriar impunemente de uma pessoa, subtraindo-a de todas as outras. (Trecho extraído de “As Brasas” no momento em que o narrador descreve a amizade entre os dois amigos)

Junto com toda a transgressão psicológica que o texto proporciona, podemos também a partir dele perceber visões críticas de uma sociedade que passava por um turbilhão de transformações. Essa, aliás, é outra característica que torna Màrai um autor brilhante. Em “Confissões de um Burguês”, ele faz uma espécie de auto bibliografia e é então que aparece sua crítica com relação à sua própria posição de pequeno burguês e a sociedade e a moral que o rodeiam. Há outras obras também de muito prestígio e que trazem o mesmo estilo de Márai, como em “Rebeldes” e “De verdade”, a primeira sobre a aventura de um grupo de quatro rapazes e a dificuldade de transformar-se adulto num período marcado pelas incertezas da guerra e a segunda um relato das dificuldades do casamento como enredo para mostrar em segundo plano a barreira que existe entre as classes sociais na Europa Central. Sándor Márai caí como uma luva para aqueles que se interessam pela psicologia, pelos labirintos que se formam com os sentimentos humanos, pela complexidade de existir, pensar e viver, mas que por outro lado também gostam de uma reflexão mais ampla, de cunho mais social e crítica de nossa sociedade. O grande legado de Márai é conseguir amarrar essas duas esferas em um período tão turbulento em que a falta de certezas fez com que os escritores se dividissem entre aqueles que mergulhavam nas questões políticas ou aqueles que transcendiam a realidade e se isolavam em seus romances complicados. Ele fez esse movimento de maneira tão realística que seus livros se conectam com as discussões atuais, num momento em que temos tantas certezas que nos tornamos cegos para nós mesmos e para nossa realidade.


Aline Miglioli

Tenho essa mania esquisita de viver por aí passarinhando.
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