descompasso

Reflexões sobre um mundo dicotômico.

Aline Miglioli

Tenho essa mania esquisita de viver por aí passarinhando

3 mulheres, uma arvore¹ e a dor do abuso compartilhado

Três livros que se passam em lugares diferentes, tempos diferentes e com linguagem diferente, mas que tratam do mesmo assunto: a dor compartilhada de um abuso. O que sentem aqueles que estão envolvidos num ato de violência e que não são efetivamente as vítimas dele? Os três livros procuram explorar as consequências de uma relação abusiva para os outros membros da família através de óticas distintas: a do marido, a do irmão e a do filho.


Qual a dor de um abuso? Quem sente essa dor? Qual é a real dimensão de um evento deste tipo? Independente de quantas hashtags se criem para compartilhar essa infeliz experiência, a dor é intransferível, incalculável e incompartilhável. Entretanto, mesmo com toda a divulgação e politização sobre o tema, parece que ainda há aqueles que não se incomodam e os comentários retrógrados e insensíveis são pré-requisito para qualquer reunião familiar ou profissional. Será que pimenta no olho dos outros não arde? Foi buscando essa resposta que encontrei três livros, que da sua maneira única e particular abordam esse tema com uma singularidade em comum: não tratar da perspectiva do abusado, e sim daqueles que o cercam. Mais que uma busca pessoal, eu acredito que esses livros podem abrir os olhos daqueles que, mesmo sem querer, por não se identificarem com as vítimas, se esquecem de que qualquer abuso e qualquer violência envolvem mais do que uma pessoa, mas também o universo que a cerca. Minha investigação foi para o lado do abuso sexual retratado por três óticas: a do marido, a do irmão e a do filho.

1) Antes de nascer o mundo (Mia Couto): Muanito, um afinador de silêncios, nos narra a sua vida num pequeno vilarejo isolado construído pelo seu pai, Silvestre Vitalício, e compartilhado com seu irmão mais velho, com Zacaria Kalash, um ex-soldado, e com o Tio Aproximado que os visita de quando em quando para trazer mantimentos. A construção do universo de Muanito e a sua infância é feita sem a companhia da mãe, que existe apenas em ausências. A personagem inexistente, no entanto, tem um papel político essencial nessa obra do autor, ela representa as mulheres de uma sociedade que considera a mulher uma propriedade. A história percorre o amadurecimento de Muanito e as indagações que o acompanham e se acentuam com a chegada de uma Portuguesa. Na busca pela história de sua mãe, Muanito descobre uma sociedade que maltrata e desvaloriza as mulheres.

Lone-tree-on-an-island-771x514.jpg “Mulheres são como ilhas: simples de longe mas ofuscam todo o mar em redor”

2) Na escuridão, amanhã (Rogério Pereira): Num tom muito mais sombrio, o livro de Rogério Pereira trata da história de uma família do interior do sul do Brasil que se muda para uma cidade grande. Contada pelo irmão mais novo, a história narra os acontecimentos de transição da sua infância para a adolescência, marcados por um abuso silencioso que aos poucos se entranha no ceio familiar: a irmã abusada sexualmente morre, a mãe deprimida adoece e os irmãos traumatizados distanciam-se. Além da linguagem e do formato, que são espetaculares, o romance consegue transferir ao leitor a angústia, a sensação de grito comprimido, o medo e o desespero que sente o personagem. É sufocante, silencioso e ao mesmo tempo ensurdecedor.

mesa_vazia14.jpg “Teço as falas, mas elas não se solidificam, acaricio os cabelos escorridos na testa da mãe. Nos sulcos do rosto corre uma enxurrada incandescente, lenta silenciosa e triste. Queria poder ler cada traço, cada história ali acumulada, sei tantas, mas não conheço as que mais me interessariam: as histórias da mãe (...). Ainda não sei como dedos tão nodosos conseguem separar os restos do feijão. Deixe-o assim, implico, mas ela insiste que pelo menos o alimento deve ser puro e limpo na panela."

3) O quarto de Jack (Emma Donoghui): O livro trata da história de uma garota sequestrada há sete anos atrás e mantida em cativeiro pelo seu sequestrador. Poderia ser um clichê, se a própria história não fosse narrada pelo seu filho, Jack, que existe somente no universo criado por sua mãe que ocupa um único cômodo, o qual ela adapta para poder ensinar seu filho sobre o mundo exterior. O pequeno Jack de apenas cinco anos nos narra o seu dia-a-dia: o seu café da manhã, suas brincadeiras, sua convivência com a mãe e com o Velho Nick, o qual ele nunca conheceu, pois a mãe o trancava no armário nos momentos em que o sequestrador vinha visita-los. O surpreendente de todo o enredo é como ele relata os abusos sofridos pela mãe e os naturaliza dentro de seu universo. O livro é baseado na experiência da australiana que foi trancada em um cômodo por seu pai e abusada inúmeras vezes. Apesar de toda a profundidade da temática, o livro é viciante, daqueles que se deve reservar uma madrugada em claro.

sadness-room.jpg “No quarto eu e a Mãe tínhamos tempo pra tudo. Acho que o tempo é espalhado muito fino em cima do mundo todo, feito manteiga, nas ruas, nas casas e nas pracinhas e nas lojas, por isso só tem um tiquinho de tempo espalhado em cada lugar, e aí todo mundo tem que correr pro pedaço seguinte”

São três lugares diferentes, três perspectivas diferentes e a mesma ferida em aberto. Os três livros nos mostram como esse tipo de violência cria um universo ao redor daqueles que as sofrem e a agonia em libertar-se é que arrasta as pessoas para um abismo emocional. Palavras não são necessárias, o sentimento agonizante não tem nome e ele só cresce no peito daqueles que convivem com ele. A leitura dos três livros coloca uma outra perspectiva para tratarmos do tema: nem sempre precisamos colocarmos no lugar da vítima para nos conscientizamos, pois, a dor compartilhada já é suficiente. A conclusão à minha pergunta inicial não poderia ser outra: arde.

¹ Pra entender a referência, você terá que ler os três livros.


Aline Miglioli

Tenho essa mania esquisita de viver por aí passarinhando.
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