descompasso

Reflexões sobre um mundo dicotômico.

Aline Miglioli

Tenho essa mania esquisita de viver por aí passarinhando

Sobre pontos de vista, guerra e nós mesmos: de Verdade, de Sándor Márai

Na Budapeste dividida e destruída pela II Guerra Mundial um casamento desfeito e um novo romance são a narrativa do livro "De Verdade" de Sándor Márai. Através do relato dos personagens sobre a mesma história nos instigamos sobre a verdade. Não a veracidade dos fatos, porque ela pouco importa, mas a verdade sobre a vida, sobre o amor, sobre a difícil tarefa de estar vivo.


Se imagine em um café, quando você vê passar pela porta seu ex-marido. Vê-lo comprar um pacotinho de laranjas secas é o suficiente para que todas as emoções que você guardou dobradas, como casacos durante o verão, saiam para fora num tornado de emoções. É assim que começa este romance incrível de Sándor Márai. Illonka, a ex-esposa, conta sua vida para a amiga numa mesa enquanto tomam um café. Esta obra, considerada pela crítica como a obra-prima do autor se divide ainda em mais três relatos, de uma densidade incalculável.

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Eu poderia dizer que a obra toda é sobre um triângulo amoroso, no entanto, é muito mais do que isso. O tema principal é o simples fato de que em todo relacionamento há sempre uma pessoa que ama mais, de forma que todos os relacionamentos são assimétricos. Illonka amava muito mais a seu marido do que era amada por ele e por isso passou a vida tentando entende-lo, mesmo sabendo que um cômodo de sua alma sempre estaria fechado para ela. Peter, o marido, um burguês acumulador, passou a vida a buscar o amor de outra mulher, acreditando que com isso poderia se reencontrar, no entanto, que amor resiste à diferenças sociais? Judit, a amada, amou muito mais a si mesmo do que pode amar a Peter: a necessidade de ganhar dinheiro e de subir na vida foram seus grandes desafios e durante essa jornada não houve tempo para se perder com as frivolidades do amor.

“Eu já sei o que é o pecado! É a necessidade de gostar de uma pessoa e prendê-la por inteiro. ”

Para além de dividir a história em quatro relatos vindo dos personagens (Illonka, Peter, Judit e um quarto personagem), essa sucessão de relatos revela-nos muitas verdades. Em primeiro lugar, as impressões de Illonka, com as quais nos identificamos, relatam a complexidade um amor burguês, um amor baseado na propriedade como valor central, um amor daqueles egoístas em que nos colocamos no centro, até mesmo dos sentimentos alheios. Durante as outras narrativas da mesma história, os eventos ganham outra significância e enquanto descem pela estrutura social, o amor em si se ressignifica, passando a ser o adendo, um detalhe frente a complexidade da vida.

1024_2000.jpg A destruição da ponte que liga a cidade de Budapeste dividiu a cidade durante a Segunda Guerra. “ Foi uma época terrível, você diz?... Espere vou pensar. Sei lá. Foi a época em que alguma coisa ficou clara. Aquilo em que a gente não pensa de verdade, põe de lado, se tornou palpável... O que? O fato de que a coisa toda não tem finalidade nem sentido. Mas havia algo mais... A gente se acostumava ao medo rapidamente, nós os transpirávamos como se fosse uma doença febril. Tudo mudou... A família já não era família de verdade, o emprego, a profissão, não contavam, os amantes se amavam com pressa, como a criança que devora um doce em segredo quando os adultos não estão olhando... depois evapora, corre para brincas na sua ou na desordem. Tudo desmoronou....”

Frente à Budapeste dividida em plena II Guerra Mundial o romance de Sándor nos oferece desde a crítica ao amor romântico burguês até a crítica social ao capitalismo, à estrutura de classes e também ao socialismo russo da época. A busca incessante dos personagens pelo outro alguém frente às dificuldades enfrentadas por cada um dentro de seu contexto de classe incitam no leitor o reconhecimento de situações pelas quais todos nós passamos, mas simplesmente não encontramos maneiras de descrevê-las. Márai provou novamente ser capaz de escrever silêncios, de maneira tão profunda e real, que nos atormentam.

“Diga, que é o poder?... Hoje em dia se escreve e se fala muito sobre ele. O que é o poder político, o que leva uma pessoa a transmitir sua vontade a milhões? E qual é o conteúdo do nosso poder, da força das mulheres? Você diz que é o amor. Bem, pode ser que seja o amor. Eu às vezes duvido dessa palavra. Não nego o amor, nada disso. É a maior força terrena. E ainda assim sinto às vezes que os homens, quando gostam de nós, porque não podem fazer diferente, também nos desprezam um pouco. Todo homem de verdade tem certa reserva, como se fechasse um território da alma, do seu ser, perante a mulher de quem ele gosta e dissesse: “Só ate´este ponto, querida, não mais. Aqui no sétimo recinto, eu quero ficar só”. AS mulheres estúpidas se enfurecem com isso. As inteligentes ficam tristes, curiosas, e depois se conformam.”

Não há maneira de descrever a complexidade deste romance. Ele demorou 40 anos para ser escrito e sua contemporaneidade, apesar de histórico, é inquestionável. Todos esses elementos o tornam uma sugestão incrível para quando precisamos nos perder na narrativa, por outro lado o desqualificam como uma leitura simples, daquela que podemos fazer sem nenhum compromisso, num trem, num metro ou numa fria sala de espera.


Aline Miglioli

Tenho essa mania esquisita de viver por aí passarinhando.
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