desnudando

Ler é uma morfina; escrever é outra.

Caroline Fortunato

A escrita validou-me. Constantemente o faz.

Gabriela, cravo e canela

Meras reflexões.


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Ao ler o livro Gabriela, cravo e canela (1958), do escritor brasileiro Jorge Amado, uma das constatações possíveis baseada na personagem-título é a de que nossa natureza é selvagem, feliz, inocente, infantil, livre e com um encantamento riquíssimo pelas coisas ditas simples pela sociedade, pelas coisas as quais basicamente todo mundo tem acesso – e ao mesmo tempo ignora. E que, por sua vez, a sociedade nos domestica: implanta sentimentos de rivalidade, de poder, ambição... Então automaticamente ficamos tristes, frustrados e iludidos, com uma ideia errada da felicidade (isso quando se acredita nela).

Outras reflexões que podem ser feitas através da história é sobre o papel da mulher no passado bem como uma comparação com o quadro atual.

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Nota-se que o homem ainda não leva a mulher completamente a sério. Historicamente, a mulher sempre dependera da força física do homem, de sua independência social e financeira, de sua aprovação (pois com esta elas então teriam aprovação geral), do casamento e maternidade até chegar à dependência emocional. Estamos apenas no início de nossa plena liberdade, em todos os aspectos, porém esses resquícios históricos ainda permeiam muitas mulheres. Os homens estão adaptados a uma mulher dependente deles em pelo menos um nível e, curiosamente, quando estudiosos do comportamento humano ou mente masculina expõem soluções a curto prazo ao público feminino, para que elas consigam conquistar os homens, eles são praticamente unânimes em colocar, cada um a seu modo, que o que atrai um homem é sempre quando uma mulher adota alguma atitude independente. Ele, assim, não se sentindo mais com o domínio, “passa a dar valor.”

Esses conselhos ainda limitam muito a mulher, pois a finalidade é para conquistar um homem e não para que elas executem a própria liberdade. E o quadro geral que vemos de mulheres que buscam o tempo todo pela aprovação do homem, limitam o próprio comportamento com medo do que ele vai achar, ou tentando controlar o que ele vai pensar (quando, automaticamente, já é ele quem está manipulando a situação), não fazem nada que ele não vá gostar e estão sempre ali, sob vigilância do parceiro, é assustador! O perfil das mulheres é sempre traçado como carentes, pegajosas e desesperadas. As que não são assim são simplesmente uma mera exceção. E isso reflete muito a História: quando a mulher era praticamente criada do marido, tinha medo deste, era estuprada constantemente dentro dos casamentos, casamentos muitas vezes forçados, era morta caso traísse, depois de morta a sociedade a veria sempre como a vagabunda que traiu o marido, o marido seria aplaudido e jamais condenado pela Justiça por tratar-se de um crime de “defesa da honra”, enquanto os homens eram completamente livres para irem às zonas de prostituição e fazer o que bem entendessem. Os romanticamente denominados “crimes passionais” são uma herança desse passado escabroso e relativamente recente.

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Então hoje, um homem que sai todo sábado à noite para beber e volta para casa com toda a certeza de que sua mulher o estará esperando, ali, é um reflexo histórico da liberdade do homem que tem uma mulher fixa por puro comodismo em situação de submissão. E nos inúmeros manuais de como conquistar um homem elas são orientadas, em um caso semelhante a esse, ao seguinte: “Saia um dia sem avisar! Ele vai ficar louco por não te encontrar ali.” Faça isso. Mas não com o fim de atraí-lo e sim para que você mesma seja atraída para perto de você, de sua completa independência.

Cada mulher é composta de poder, força e independência. Só precisamos admitir isso, aceitar, ousar, explorar e desfrutar desses recursos. Sem qualquer medo.


Caroline Fortunato

A escrita validou-me. Constantemente o faz. .
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