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Porque a vida é um eterno desnudar e desnudar-se

Anne Brito

Eu penso que as palavras nunca alcançam quando o que há de dizer transborda a mente, os sentidos e a alma. Mas aqui estou eu, tentando. Desnudando e desnudando-me

Assim na Terra como no Inferno: um olhar sobre o homem

Assim na Terra como no Inferno não é só mais um filme de terror. Na verdade, é uma abordagem sobre o homem e suas concepções mistificadas. (AVISO:SPOILER)


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Para quem não sabe, Assim na Terra como no Inferno é um filme de terror com uma mescla de suspense e foi lançado esse ano (2015). Eu estava procurando um filme de terror para assistir e então me deparei com o seu trailer, gostei e fui preparar uma pipoca. Confesso: pensei que seria mais um daqueles terrores comuns sobre espíritos, com uns sustos pontuais e um final clichê. Mas eu estava absolutamente enganada, o filme é excelente.

Ele é muito bom justamente porque não tem nada a ver com os tipos de terror que são produzidos em massa. É claro que ele usa a ideia básica de um filme de terror que é assustar, mas é um terror inteligente e que traz uma filosofia interessante sobre o homem, uma filosofia que não costuma ser abordada pelos horror movies.

Mais uma vez, se você não viu o filme, eu vou te dar spoilers... então pare por aqui. Bom, o filme começa com Scarlett (Perdita Weeks) que é uma arqueóloga e seu legado de vida é encontrar a Pedra Filosofal (algo pelo qual seu pai morreu), supostamente criada por Nicolau Flamel e que teria o poder de transformar qualquer metal comum em ouro.

Afortunadamente (ou não), Scarlett encontra evidências muito importantes sobre a localização da pedra e para isso conta com a “ajuda” de George (Bem Feldman) que é um homem com quem ela já se envolveu sentimentalmente. Por fim, eles chegam à conclusão de que a pedra está nas catacumbas de Paris, uma região conhecida como Cidade dos Mortos já que há muitos ossos de pessoas enterradas ali.

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Então, como é previsível, o filme se passa nas catacumbas e é lá que acontecem coisas estranhas e assustadoras. Mas também, é onde se desenvolve a filosofia do filme.

Particularmente, essa ideia central já torna o filme interessante porque lida com evidências arqueológicas e mitológicas, catacumbas, claustrofobia e exploração. Por outro lado, o filme é todo ao estilo de Rec e Atividade Paranormal onde vemos as cenas pelo viés de uma câmera amadora.

Para a alegria geral, eles encontram a suposta Pedra Filosofal, mas a um preço: ficam presos e a única maneira encontrada para sair é adentrando as profundezas. As catacumbas são uma espécie de portal ou de limite entre a terra e o inferno de modo que um é o reflexo do outro, ou seja, tudo que há na terra há no inferno. Assim, se na terra houve uma entrada, no inferno há uma saída.

Normalmente, nós e outros filmes de terror tratamos o inferno como algo externo e o relacionamos a figuras como fogo, caveiras, espíritos malignos e demônios. Como algo completamente assustador, obscuro e que não tem relação conosco. Mas, no filme, o autor traz outra perspectiva: o inferno somos nós mesmos. O que nos assusta, persegue e acaba por nos matar são nossos próprios medos, mentiras, falhas, culpas, vícios, frustrações e passado.

Para cada um dos personagens, o inferno foi como adentrar a si mesmo e reproduzir momentos e coisas que os atormentavam de modo que, para sobreviver e encontrar a saída, a única maneira é enfrentá-las.

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Além disso, complementando essa perspectiva, o filme traz uma abordagem interessante sobre a Pedra Filosofal. Eu já citei que eles encontram a pedra e que sua característica é transformar metais comuns em ouro, mas, curiosamente, não é essa característica explorada no filme. O autor associa a pedra com a capacidade de transformar no sentido de curar, de desfazer e refazer algo.

O que é uma nova filosofia porque, no momento em que estão no inferno, Scarlett percebe que a pedra que ela trouxe não era a verdadeira Pedra Filosofal. Então, mais uma vez, ela volta na tentativa de encontrar a verdadeira pedra e descobre que ela não existe, pelo menos da maneira que ela imaginava.

A Pedra Filosofal, na verdade, é ela mesma. Somos todos nós porque o poder de transformar, de curar, de refazer, de desfazer e de tantas outras coisas está em nós mesmos. Em nossas mãos, em nossas atitudes, em nossa coragem e em nossos pensamentos.

Se você está procurando um filme de terror, vá em frente porque Assim na Terra como no Inferno tem seus momentos de susto e de suspense. Mas, muito mais do que isso, é um filme sobre a natureza humana no sentido de mostrar que o que nos assusta está dentro de nós e é preciso saber enfrentar. Bem como, nossa busca inútil por encontrar algo transformador e místico fora de nós.


Anne Brito

Eu penso que as palavras nunca alcançam quando o que há de dizer transborda a mente, os sentidos e a alma. Mas aqui estou eu, tentando. Desnudando e desnudando-me.
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