desnudo

Porque a vida é um eterno desnudar e desnudar-se

Anne Brito

Eu penso que as palavras nunca alcançam quando o que há de dizer transborda a mente, os sentidos e a alma. Mas aqui estou eu, tentando. Desnudando e desnudando-me

Vamos falar de Circuncisão Feminina

Eu só quero que você perceba que, por detrás da dor e das consequências físicas, há algo muito mais profundo: uma ferida na alma.


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A circuncisão ou mutilação genital feminina é uma prática comum em muitos países (sobretudo na África e na Ásia) ainda hoje e consiste na remoção de parte ou de todos os órgãos sexuais externos. O procedimento varia dentro dos grupos étnicos, mas, geralmente, é feito com uma lâmina de corte sem qualquer anestesia ou higiene.

Esse ato violento é uma espécie de ritual estético e sagrado que acompanha a vida de muitas mulheres. Normalmente, ele pode ser feito antes ou logo após a primeira menstruação e é acompanhado por uma cerimonialização. Segundo essa cultura, a mulher circuncidada é considerada pura, casta e a prática reforçaria seu processo de aceitação e integração ao meio em que vive.

Por um único momento, centenas de meninas têm sua infância e sua inocência (ou o que havia delas) completamente destruídas. Não há uma transição normal da menina para mulher, mas sim uma brutalização e uma aceleração desse processo. É um momento que ficará marcado para sempre no corpo, na mente e no coração dessas centenas de, agora, mulheres.

Ele está no sangue e nas lágrimas derramados, está em cada garota que morreu ou que ficou estéril após o procedimento, está na dor e no medo da prática sexual, está em cada filha mulher que nasce. Mas muito mais do que a dor e as consequências físicas, a circuncisão é uma dilaceração da alma. Quantas mulheres se sentiram impotentes, se sentiram violadas, feridas, ignoradas, assustadas e se sentiram, simplesmente, nada?

Para muitas delas ainda não é possível condenar, não é possível questionar, não é possível dizer não, apenas, vivê-la.

Gerações inteiras de mulheres passaram por essa prática traumática e outras gerações inteiras ainda estão condenadas a ela, é uma espécie de destino certo. Nasceram todas debaixo da tradição que perpetua uma realidade que fere com naturalidade, celebração e, até mesmo, orgulho mesmo que para nós seja difícil de entender.

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“Parecia que era uma festa, e a festa era para ela. Havia outras ali, naquela aldeia, que já estavam à espera. Sua mãe lhe explicou que as mulheres mais velhas queriam celebrar com ela o fato de ser agora uma mulher e para isso, é claro, haveria uma cerimônia. De repente, colocaram-na deitada no chão, e todas se reuniram ao seu redor. Ela estava assustada, mas não percebeu o que se passava. Só ouviu a mãe dizer-lhe:

- Salema, fique muito quieta, e tudo vai correr bem.

Um tambor soou ao fundo, e uma dor horrível fez Salema gritar como qualquer criança gritaria ao ser ferida daquela forma! Num instante todas ao seu redor a cumprimentavam pelo fato de agora ela fazer parte do mundo dos adultos. Enquanto as lágrimas corriam pela face e o sangue jorrava-lhe dos ferimentos, o coração de Salema estava de uma vez por todas dilacerado. A menina não sabia por quê, mas acabara de ser circuncidada. Naquela noite, Salema não pôde dormir. A dor física e a da alma não permitiam. Enquanto Sema dormia tranquila ao seu lado, ela chorava baixinho. Olhando a irmã na penumbra, um sentimento de horror apoderou-se dela. Naquele instante percebeu sua condição. De um momento para o outro já não era mais uma criança. Sofria. Sofria por sua mãe que aceitara sua condição a ponto de ser um instrumento para que ela se perpetuasse. Sofria por suas irmãs, tão pequenas ainda e que mal podiam entender o mundo em que viviam. E também sofria por Sema, pois sabia que brevemente chegaria sua vez.” O livro de Salema, Arlete Castro.


Anne Brito

Eu penso que as palavras nunca alcançam quando o que há de dizer transborda a mente, os sentidos e a alma. Mas aqui estou eu, tentando. Desnudando e desnudando-me.
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