desnudo

Porque a vida é um eterno desnudar e desnudar-se

Anne Brito

Eu penso que as palavras nunca alcançam quando o que há de dizer transborda a mente, os sentidos e a alma. Mas aqui estou eu, tentando. Desnudando e desnudando-me

O outro não é nosso depósito

Sobre falhas e a estranha mania do ser humano de desconstrução do outro porque somos relutantes em buscar forças nas nossas próprias vulnerabilidades.


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Frustração e desapontamento. Eles surgem naquele momento em que não somos capazes de cumprir nossas promessas. Surgem quando alguém espera mais de nós do que aquilo que podemos oferecer. Surge quando a nossa verdade ou as nossas atitudes não são tão bonitas assim. Surge quando, de alguma maneira, falhamos. As falhas, elas costumam ter tanta importância para algumas pessoas e ainda mais em um mundo tão exigente quanto o que vivemos.

As falhas, somadas a frustração e ao desapontamento que encerram, têm o costume de apagar aquilo que realmente importa. Aquilo que realmente deveria importar. De um momento para o outro deixamos de ser vistos pelo olhar de admiração. Nossas qualidades e qualquer coisa que um dia veio de nós deixa de fazer sentido. É como se agora tudo girasse ao redor daquilo que deixamos de fazer ou daquilo que fizemos de errado.

É costume nosso pensar que o outro é uma linha tênue para a felicidade eterna, que é a resposta para anseios ou a exatidão para nossos próprios desvios. Exigimos demais e, quando percebemos que o outro é um igual, somos carrascos em aceitar. É mais fácil esquecer aquilo de bom que o outro nos ensinou e nos trouxe. É mais fácil esquecer os momentos de alegria que compartilhamos. É mais fácil esquecer as qualidades diante da distopia, diante dos defeitos.

O outro é um “enganador” e isso é imperdoável. Mas acontece que o outro não é um depósito para as nossas carências e não podemos exigir a perfeição quando nós mesmos não somos capazes de oferecê-la. Portanto, os relacionamentos, sejam eles de qual tipo forem, não se resumem apenas em dar e receber, em suprir expectativas. Eles se baseiam, também, em aprender a lidar com imperfeições e desapontamentos de modo que o valor do outro (e isso é o que deve importar) esteja acima de suas falhas.

E para isso é preciso adentrar a nossa própria individualidade, a nossa própria vulnerabilidade e encontrar nela a resposta para nossas perguntas, a superação para nossos limites e a aceitação para nossas decadências. Ao contrário do que pensávamos, é dentro de nós que devemos suprir e superar nossas expectativas. Somente nesse momento poderemos desconstruir o olhar errôneo sobre o outro e aprenderemos a lidar mais facilmente com falhas, frustrações e desapontamentos sem que eles sejam motivos para o desapreço do outro.


Anne Brito

Eu penso que as palavras nunca alcançam quando o que há de dizer transborda a mente, os sentidos e a alma. Mas aqui estou eu, tentando. Desnudando e desnudando-me.
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