desordenei

Se não sigo o ordinário, hei de ser extraordinário.

Jaqueline Gomes

Enquanto espero um coelho apressado me obrigar a escolher uma única porta, exploro o mundo e suas maravilhas do jeito que posso.

Sobre ser a outra e por que a vida não é tão simples

Ela sempre imaginou que a vida fosse mesmo complicada, até o dia em que teve certeza da maneira mais incolor possível.


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Dois anos depois eles se encontraram, e ela revelou que nunca tinha esquecido o que ele havia falado sobre gatos, era inverno e sem nenhum propósito aparente ele disse que preferia gatos porque estes não o sufocavam, mas sempre que quisesse ou precisasse estavam por ali. Foi então que ela percebeu que mesmo que suas vidas estivessem momentaneamente interlaçadas, e que ele começasse a fazer parte de uma pequena porcentagem do que orbitava a vida dela, ela provavelmente não orbitava a dele. Foi tudo sem querer, é assim: quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra, se você não o tem cuidado com o tamanho da pedra, julgamento é algo perigoso, todo juiz precisa de um júri, assim como você precisa de no mínimo empatia. Aconteceu, foi a amiga da amiga, a prima, a irmã do namorado, a vizinha e sim, foi sem querer, afinal ninguém gosta de sofrer de graça. Não é justo justificar longos períodos de “relacionamento” com o termo foi sem querer; por um tempo, ela quis e muito, até demais. Cabe aqui apenas justificar os sentimentos, que em sua totalidade mundial é natural, não é possível explicar a quem se atrai.

Em certa temporada de Sex and the City, o famoso Mr. Big lê tudo o que Carrie escreveu em seu livro publicado sobre as idas e vindas do casal, e quase em choque ele revela que nunca imaginou que ela se sentia assim ou que tivesse sofrido tanto. Talvez em estado de ignorância, ele ainda não sabia que, com lágrimas, alegrias e pequenas lições, ele já tinha a impactado. Afinal, esse é o ponto chave de qualquer relacionamento; se não te faz evoluir em qualquer direção positiva, você está no relacionamento errado. Tenha em mente que está evolução nem sempre é do “nós” e sim do “eu”, às vezes você evoluí individualmente e começa a entender que aquela pessoa não é mais compatível, você mudou, criou asas e precisa voar para outros ninhos para poder continuar sua evolução.

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Estar em um relacionamento com alguém que oficialmente já está em outro relacionamento é uma declaração para sentir tudo em silêncio, sofrer em silêncio, aprender em silêncio e crescer da mesma maneira. É também estar em outro estado civil, não se é bem solteira e não se é bem namorada de alguém. Embora você esteja livre para ser o que bem quiser frequentemente você quer mesmo é seguir dando o murro na mesma ponta de faca, e isso é universal, o ser humano, independentemente de seu sexo adora perseguir o que não pode ter.

Saber lidar com incertezas é o maior desafio desta situação, ela aprendeu que era péssima em estar fora do controle, sempre quis tudo preto no branco, e embora a sociedade dite todas essas regras seguindo um padrão, a verdade é que o mundo é basicamente um grande borrão cinza, tudo vai se misturando e você não sabe muito bem quando cruzou a linha do certo e do errado e nem imagina quem foi que decidiu estes limites. Sim, o mundo é cinza e embora ela sempre tenha visto tudo colorido, quando foi a outra, entendeu que rosas em Black&White tem seu charme mas também morrem.

Qualquer disponibilidade é suficiente para quem gosta, pelo menos por um tempo, pelo menos até você perceber que se perdeu, está fora do controle e que ter alguém comandando o seu humor é uma coisa realmente insana e doentia. Qualquer relacionamento, e aqui menciono os de longa data, os de Tinder, os monogâmicos e os nem tanto assim, creditam certo controle parcial à uma das partes, mesmo que tudo pareça um jogo e todo mundo se revolte com certos comportamentos, é preciso entender que gostar é perder um pouco deste controle, é também saber lidar com tal desiquilíbrio. Ser a outra é se equilibrar no picadeiro e não ter ninguém para aplaudir.

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Ser a outra é assinar um acordo de confidencialidade, para o seu próprio bem, embora agora você já saiba que o mundo é mesmo cinza, e que muitas pessoas já viviam nestas tonalidades, tem muita gente gritando, a plenos pulmões que cinza não existe, que é infame, e que você deve ser daltônico. Este nosso planeta enxerga somente em preto e branco, e você deve procurar ficar bem longe desta linha tênue. Entretanto, se meio que sem querer tudo virar um filme de Chaplin, saiba que é preciso se permitir.

Depois de assistir tudo dar errado, ela decidiu olhar somente para toda a cor que ganhou em sua vida, e hoje sem lágrima nenhuma sabe que são muitas, edição especial da Faber Castell. Pode finalmente entender que se pode também amar em silêncio, existe eu te amo através de olhar, entendeu que existe tanta coisa no mundo que não sonhava ver ou saber antes dele ter a deixado espiar o seu universo, entendeu que mesmo em silêncio, a história existiu, e ela tentou ser feliz. No final, ela queria contar que aquela colisão sacudiu o seu mundo e ela já não é a pessoa que ele conheceu, por mais duro que tudo tenha sido, por mais que as promessas e as aparições tenham sido poucas, foram suficientes para transformá-la.

Em um mundo que na verdade é cinza, seria bom se as pessoas conseguissem se encontrar no momento certo, da maneira certa e com a bagagem correta, que elas pudessem ver o mesmo cinza que a outra viu sem ter que cruzar nenhuma linha, que todos conseguissem amadurecer sem sofrer, ou ainda mudar pontos de vista, largar preconceitos e julgamentos sem por um pequeno instante contrariar o ordinário. Ela não conseguiu, e apesar de doer por um breve instante e ser julgada constantemente, até mesmo por ela, é fato que nada é assim tão ao acaso, tão planejado e tão perfeito, e mesmo que ela tenha amado sozinha, hoje a vista do outro lado é certamente muito mais plena.

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Texto originalmente publicado em www.noo.com.br, onde a autora publica textos semanalmente.


Jaqueline Gomes

Enquanto espero um coelho apressado me obrigar a escolher uma única porta, exploro o mundo e suas maravilhas do jeito que posso..
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