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Frases ao relento.

Douglas Chicarelli

Estudante de Administração e 'aquele' chato do Marketing, mergulhado na loucura e apaixonado como nunca, encontrei todas os antídotos nas palavras que não digo, pois escrevo. Eis meu devaneio.

Dom Casmurro Contemporâneo

Já dizia a minha Avó: “O que os olhos não veem, o coração não sente”. Não foi assim para Bentinho. Não mesmo. Se fosse hoje em dia, quem sabe? A gente anda mesmo vendo cada coisa... e acreditando cada vez menos no que realmente importa.


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Uma obra atemporal, impressionista e em primeira pessoa. Bento Santiago foi menino, cresceu, apaixonou-se perdidamente, foi cumprir promessa que não era dele, se tornou homem, voltou e casou mas, tão inseguro. Sem confiança alguma em seu próprio ‘taco’, ele veio a se tornar rabugento, deixou-se levar pelo ódio, pela dúvida. Tornou-se Dom Casmurro.

O tempo do romance é psicológico e, levando isso em conta, deve-se atentar a possíveis nuances do narrador rabugento sendo levado pelas suas dúvidas intermináveis. Dúvidas essas que perduraram pelos anos, tomando opiniões diferentes. O mundo conservacionista antigo tratava como inquestionável a traição de Capitú, mediante a autoridade do homem sobre os direitos da mulher e a independência aguda da possível adúltera, com atitudes femininas até então inadmissíveis para a época. A valorização feminina, a partir da década de 60, trouxe a discussão para o seu lado, e fez com que outro pensamento viesse a se perdurar: o ciúme obsessivo e a autoridade descontrolada do homem sobre a mulher.

A dúvida do adultério ou não de Capitú, o total isolamento e o se tornar emburrado de Bento devido a uma traição que pode não ter existido e a traição do grande amigo Escobar. Tudo isso ficou ao fim do livro, tornando o Romance um dos mais encantadores brasileiros e com conteúdo rico para estudos. Mas afinal, e se fosse hoje? Como seria se o possível adultério ocorresse nos dias de hoje e, nas circunstâncias que observamos os relacionamentos atuais?

dc2.jpg Talvez Bento e Capitú acabassem nem se conhecendo, não se comprometendo, a esperar um pelo outro. Afinal esperar pelo quê? Hoje em dia que promessa seria essa de ir para o seminário, ainda mais se fosse promessa feita pela mãe. Bentinho, não iria pra seminário até porquê os jovens de hoje não tem noção do que realmente é um seminário. Capitú, seria mais uma menina fútil da geração Y, que não desgruda de seu celular e se acha a dona do mundo quando ganha mais que 200 curtidas em uma foto sua no Facebook, ou então, seria uma menina durona, que não daria o braço a torcer para Bentinho, filhinho de mamãe.

Embora seja complicado, faça um esforço, imagine que tivesse dado certo. Imagine que Bentinho tenha conhecido Escobar em um intercâmbio, e que tudo tenha ocorrido naturalmente. Capitú esperava-o, casaram-se, lutaram para ter um filho e quando tiveram, eis que o menino é a cara do tão próximo amigo Escobar. Entendam meus caros, não estou aqui pra dizer: ‘Eles fazem um DNA e pronto. Já para com essa dúvida’. Se fosse isso não teria começado a escrever.

Será que a sociedade nos tornaria tão conservadores novamente? Capitú nunca seria culpada definitivamente, e Bento seria um monstro se não assumisse seu filho por ele simplesmente parecer com seu melhor amigo, veja, soa apenas como uma ‘coincidência’. Nos termos de hoje seria pouco anormal. Mas também não escrevi para julgar.

Estou aqui para comprar uma briga. Porque em nossa cultura, o que nos falta hoje é simplesmente respeito. E eu falo de toda essa geração viciada em telas Gorila Glass e sorrisos de mentira. Nos falta sentimento, aquele sentir que cria necessidade de sermos iguais. Homens, mulheres, todos, nós todos somos iguais. E para ser iguais precisamos de respeito, de uma mísera possibilidade de confiar uns nos outros.

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Vivíamos em uma época em que o respeito era quase uma doença, nos curamos, mas agora estamos passando do ponto, e por falta de confiança, nós vivemos cada vez mais em meio a “Dons Casmurros”, perdidos dentro de seus corações inóspitos, que mal sabem o porque de tanto se emburrar. Motivos esses que as vezes nem existem ou são apenas as sombras desse mundo hipócrita e egoísta em que vivemos. As pessoas vivem de status, se alimentam das curtidas em uma foto no Instagram ou das visualizações no Youtube, esquecendo que o mais importante e necessário, é o corpo a corpo, o abraço, o aperto de mão, a confiança que se passa em uma bela conversa olho no olho, cada vez mais perdemos o costume da conversa fora regada a uma cervejinha no bar da esquina, trocando-a por um convite para o silêncio enquanto postam uma nova foto na web da ’grande felicidade’ que é estar na companhia de nossos amigos.

Mas o que isso tem a ver com Capitú, Bento e Escobar?

Nada. Isso mesmo, não tem nada a ver com Dom Casmurro, o respeito ou desrespeito não tem nada a ver com Capitú, o exagero de autoridade masculina não tem nada a ver com Bentinho e muito menos tem a ver, a possível safadeza de Escobar. Não tem a ver porque era tudo de cara limpa, não havia outra forma de comunicação se não fosse a carta ou as palavras, a saudade não se matava a distância e, para muitos continua assim.

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Hoje é normal. Tudo é tranquilo e desrespeitoso, sem escrúpulos, uma mensagem no whatsapp aqui e uma pulada de cerca logo depois, um troco pra não ficar barato e um casamento de fachada vez ou outra pra não enjoar de ver desastres. É preciso respeitar os sentimentos, se uma pessoa diz que o ama, respeite-o, ou respeite o que sente. Responda suas mensagens, nem que for para explicar por que não, mas explique, fale, se declare ou peça que fique longe, mas dê uma satisfação. Lembre-se de uma coisa, nós temos que ser quem queremos para nós mesmos. Acredite, Capitú não teria esperado nem Bento nem Escobar, daria esperança a Bentinho sempre, mas ela não estaria nem aí para ele. Bento moraria no Leblon, faria intercâmbio em outro país e nem conheceria Escobar, mas até bom seria, assim não se tornaria emburrado por um ou outro amor roubado. E se o mito do amor verdadeiro, aquele de infância, ainda existisse?

Se houvesse valor nos sentimentos e acontecesse algo assim hoje, meu amigo, as histórias seriam outras, mas acho que não seriam tão boas, não tanto quanto as antigas. dc5.jpg


Douglas Chicarelli

Estudante de Administração e 'aquele' chato do Marketing, mergulhado na loucura e apaixonado como nunca, encontrei todas os antídotos nas palavras que não digo, pois escrevo. Eis meu devaneio..
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