despertando consciências

Uma jornada à nós mesmos

Camila Carrera

Jornalista, fotógrafa, amante de cinema, apaixonada por literatura e de tudo que indaga a dita existência.

Amor, Liberdade e Solitude

O amor foi transformado em ego e amparo à carência, a liberdade passou a ser prisão e a solitude confundida com solidão. Nesta desconexão com o divino, passamos a focar no mundo externo e ignorar o que vive no interior, pois tememos ao que somos, fugimos de quem somos e do que podemos ser, já que fomos treinados - inconscientemente - para viver mentiras.


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A obra literária de Osho, “Amor, Liberdade e Solitude” retrata uma série de complexidades comportamentais provenientes de uma construção de valores, condutas e padrões que interferem na busca e encontro pelo autoconhecimento. De uma forma questionadora, o autor expressa a sua visão a partir do princípio "fazer-nos ser antes de sentir", tendo em vista a necessidade de compreensão acerca de si e da desconstrução de conceitos moldados conforme as conveniências mundanas.

Ao usufruir desta tão enriquecedora obra, o leitor é instigado a sentir e se aproximar, de forma mais humana, da força e luz intrínseca que habita-o e permeia-o, encontrando as mais sagradas e temidas verdades que pertencem a morada: o eu interior. Certamente, ao longo da leitura, é possível encontrar obstáculos capazes de gerar dúvidas e conflitos sobre a profundidade desta filosofia espiritual, cuja intenção é oferecer autonomia para que você, leitor, não seja refém de paradigmas sociais. Através das palavras de Osho, é feito um convite para embarcar rumo à eterna busca pela sabedoria, que muitas vezes está presente no silêncio.

Dentre os temas mais abordados pelo autor está o amor - considerado o centro da obra literária e do universo. Não o amor romântico e dos contos de fadas, e sim o amor - aquela célula presente em muitos seres humanos e relações. O fato é, que quando nós, seres humanos, nos deparamos com este sentimento, somos levados por uma maré de indagações que relevam o quão ignorantes somos quando o assunto é amar.

Por meio dos devaneios de Osho e das reflexões provocadas pelo mesmo, é possível perceber a fraca presença deste sentimento no mundo, já que segundo o autor, os valores narcisistas têm tomado conta dos princípios alheios. Para o mestre, o amor é uma experiência dos budas e representa a mais bela das liberdades. Osho ainda diz, que quando o conhecemos, nos tornamos seres mais evoluídos e desapegados do mundo material, descobrindo, antes de tudo, o prazer em estar com a solitude - o prazer em estar consigo.

Ao aceitar e provar da solitude, podemos abraçar os nossos abraços. E, em meio ao calar de nossas inquietudes, adquirimos a coragem para viver momentos só nossos, que por sinal, nos levam a refletir sobre os tão temidos fantasmas que foram criados com o passar das vivências. Durante a leitura, nota-se o quão a solitude é apontada como o ponto de encontro para todos os alicerces, visto que quando nos libertamos e aceitamos nossas vulnerabilidades, o medo da solidão se apaga frente à uma nova descoberta: a descoberta que nunca ficaremos sozinhos, já que temos nossa própria companhia.

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Provavelmente você aí já deve ter ouvido a tão famosa frase: amai ao próximo como a ti mesmo. Esta frase traz a impressão de que devemos amar ao outro antes de nós mesmos, mas será que há propriedade e sentido neste ensinamento? Perceba: como iremos abraçar o outro se nem conhecemos o nosso próprio abraço? Sem dúvidas não haverá sinceridade, porque o amor nasce do egoísmo, assim como o altruísmo. Se analisarmos atentamente veremos que quando desejamos o bem do outro, ou quando dizemos que amamos ou lutamos pelo bem estar desse alguém, desejamos ao mesmo tempo o nosso próprio bem, afinal, ver o outro mal nos afeta de alguma forma, fazendo com que nos movimentemos para ajudá-lo.

Então, vamos combinar que se caso o mundo fosse constituído de pessoas autocentradas, o amor provavelmente fluiria e não teríamos os inúmeros problemas que tivemos no ontem e que temos no hoje, já que só uma pessoa centrada em si pode ser egoísta, e consequentemente, só uma pessoa autocentrada pode ter amor próprio e amor pelo próximo. Amar a si mesmo não é pecado, e sim a grande resposta para todas as perguntas, afinal, o amor é o centro de tudo, é a força criadora.

Ao percorrer pelos profundos e inquietos pensamentos de Osho, é desencadeada uma vontade e necessidade de conhecer o amor para possamos conhecer a verdade e sabedoria universal. Para ele, é preciso ser o amor para sentirmos e estarmos na presença de Deus, caso contrário viveremos dentro de uma profunda e infinita escuridão. "Não conheça nada, simplesmente conheça o amor, porque se você conhecer a tudo poderá não conhecer a nada, mas se provar do amor em seu coração conhecerá tudo e conquistará as mais abstratas respostas que vivem no seu ser", disse o mestre.

As filosofias gregas e hindus enaltecem a importância do autoconhecimento, mas para conhecer e sentir a nós mesmos, é preciso saber sentir. E, para sentir, temos que ser, afinal, é justamente este fluxo suave e constante que irá nos movimentar da forma que é. Você aí, me diga: do que adianta se entreter com todos os conhecimentos exteriores de uma forma racional e calculista se não sentirmos o que estamos vivendo? Tudo isso iria nos oferecer viver a tão superestimada intelectualidade, só que de uma forma desapaixonada e lógica demais. Na não existência do sentir, o que estaremos a absorver não passará de meros conhecimentos momentâneos que foram gravados e não assimilados por nossas mentes. É preciso nos esvaziar para conhecer o nada que restará em nós, que nada mais é, do que o nosso tudo.

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Nos soluços da noite nos vemos transparentes, como os nossos reflexos na água, mas infelizmente grande parte de nós insiste em negar ou a adiar o encontro consigo, fazendo com que a alma se desconecte e a visão se embace, mesmo ao raiar do dia. Somos o resultado da vida que levamos e dos pensamentos que cultivamos e abrigamos na consciência. Temos medo de descobrir que vivemos em barcos vazios migrando por terras imaginárias, porque a verdade dói e destrói com as ilusões construídas.

Dessa forma, iríamos dissolver tudo que vivemos e que estamos vivendo e nada iria restar. Iríamos permanecer com o que nos aterroriza: a solidão - aquela que nos impõe à procura da presença de outras pessoas. Resumidamente falando: não teríamos meios para tampar os nossos buracos e para nos esconder. Os cobertores iriam desaparecer e nos veríamos numa noite escura e fria. O desencontro com a solitude nos convida a nunca conhecer o amor e a liberdade, já que o amor é a liberdade e a sua base é a solitude. O prazer em estarmos com a nossa própria presença pode nos assombrar, pois o reflexo nos assusta, o silêncio apavora e teria muito a dizer - ele diria exatamente aquilo que não queremos ouvir.

Mas para que isso aconteça, é preciso existir, dar vez ao rugido e ao habitat natural que se centraliza no amor: a maior resposta e certeza que iremos ter a partir do instante em que nossos corpos se plantarem no solo da existência, que será regada, lentamente, por nossas consciências.

Libertem-se de suas mentes, amem genuinamente e ouçam o que o silêncio tem a lhes dizer. Seja-o.


Camila Carrera

Jornalista, fotógrafa, amante de cinema, apaixonada por literatura e de tudo que indaga a dita existência. .
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